Vozes…

Me lembro de quando eu era apenas uma criança e de como eu era infestada de vozes em minha cabeça. Vozes que me assustavam, me deixando aos prantos toda noite enquanto eu me desidratava em lágrimas amargas sob meu travesseiro. Eu vivia cada dia temendo pelo anoitecer, quando meus lábios seriam cerrados pelo medo de ser ouvida e as vozes iam ficam cada vez mais altas, mais altas, e mais altas até o ponto que parecia que estavam gritando em meu ouvido.

No começo eu até tentei falar sobre isso, mas ninguém acredita em mim, ninguém acreditava que estas vozes eram reais suficiente para valer o esforço de dedicarem suas atenções para as palavras de uma simples criança. Então eu não tive outra escolha do que buscar um modo de sobrepujar sozinha as minhas noites de terror.

Depois de alguns anos, as vozes começaram a se manifestar também durante o dia. Me lembro da primeira vez em que isso ocorreu pois era uma tarde fria e chuvosa e eu estava entrando em meu quarto quando os gritos começaram. Sentei na beirada da cama e comecei chorar, me entregando ao caos. Ao contrário das demais vezes em que vedo meus lábios para silenciar minhas lágrimas, eu acho que deixei alguns soluços escaparem. Rapidamente minha avó, que estava na cozinha gritou perguntando se estava tudo bem e eu apenas reuni fôlego para dizer que eu havia apenas batido o pé na cama. Naturalmente ela acreditou, era mais cômodo, creio eu.

Creio que enquanto eu tiver meu coração pulsando, nunca esquecerei de uma noite em que eu me encontrava deitada na cama, implorando por ajuda, cobrindo os ouvidos inutilmente e tentei a única coisa que me restava: comecei cantarolar uma velha música do Bee Gees. A melodia começou a soar divinamente, como se todos os planetas estivessem agora alinhados, como se todas as esferas do universo estivessem se movendo em perfeita harmonia com a canção.

Em certo ponto eu perdi noção da letra e me cantarolando o mesmo trecho como em um loop sem fim, de um círculo vicioso eterno. Mas sinceramente não importava se estava tudo errado, pois eu estava segura, minha vida estava salva naquela noite.

E nesta batalha diária entre a ordem musical e o caos impiedoso, a melodia vencia sempre.

Agora, sempre que as vozes chegavam, fosse durante o dia ou noite, eu tinha minha arma secreta. Fosse com algum fone de ouvido ou no aparelho de som, eu sempre tinha alguma música para me fortalecer, ditar o ritmo de minha luta, deixando que cada melodia que preenchia minha mente disparasse uma rajada poderosa contra as vozes, as amenizando até sumirem, deixando apenas o tom musical me abraçar.

Algumas pessoas simplesmente ouvem música por se sentirem bem, outros por não gostar do silêncio. No meu caso eu passo meus dias, até hoje, usando-a como casulo, como barreira, como proteção das vozes que sempre existiram e sempre existiram. Sei que minha arma ainda é muito eficaz contra elas, mas nada é eterno. Assim como nosso corpo se “acostuma” com medicamentos, sei que um dia a música não mais vai me proteger e confesso que tenho medo, pois sei que não vou conseguir suportá-las novamente, não viva…

 

 

 

DesEncantada.com.br
Vozes…

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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