Vick: Palavras Mudas

Vick: Palavras Mudas

Chamam aquela garota de Vick. É, aquela ali com o vestido branco todo encardido. Alias, lavar a roupa faz bem né…
Pelas conversas que ouvi nessa uma semana que estou aqui, ela nunca falou nada desde que chegou, há mais de ano. A tal de Donna contou para as meninas que a Vick matou a família dela e depois cortou a língua para que ela não pudesse contar nada para ninguém sobre o que fez. Bom, o plano dela de ocultar a verdade para não ser acusada não deu muito certo.
Sabe, confesso que tenho pena da Vick. Sempre tão sozinha, muda… Viver em mundo com restrições que lhe impossibilitem de comunicar-se é um tanto quanto, restrito, hehe.
Por isso é tão bom ter o ursinho Murdered de melhor amigo. Ele nunca dorme e tem ouvidos incríveis! Ele consegue ouvir coisas lá de longe, dos quartos além das curvas, e ele me conta tudo quando eu acordo.
Por isso eu sempre trago meu fiel e peludo companheiro na hora de tomar sol e no almoço, como agora. Apesar de nem todas as garotas daqui poderem sair e ficar esse tempo com as demais, é bom porque o Murdered me mostra cada uma delas, me apresenta todinhas.
Ele só não gosta do cheiro dessa comida que servem aqui. Essa pasta verde nutritiva não deveria ser considerada comida. Pior ainda é comer com essas colheres de plástico mole e esse pratinho de plástico.
Como diz a guarda do refeitório todos os dias: “Talheres de plástico para mulheres perigosos não usarem em suas insanidades”.
Insanidades? Vou eu mostrar pra essa aí quem é louca. Acha que não sei que ela é traída? Murdered ouviu tudo da boca das outras guardas. Parece que um outra guarda andou dando uns catas no marido dela, escondido e sem ela saber. Pior que ele já ta dando encima das demais também… Merece. Quem manda ser tão idiota e chata com a gente…
Voltando ao quarto, eu trombei com a Vick.
Ela estava na minha frente na fila quando de repente, do nada, ela parou. Parou e virei para trás, pra mim. Ela foi tão rápida, tão imperceptivelmente rápida, que só me dei conta do que ela fez depois que ela havia virado para frente novamente. Eu só puder ver um borrão na minha frente, sua mão voando na minha direção, com tanta velocidade… E então seus dedos limparam uma lágrima que tava enroscada na minha face. Eu estava imóvel, chocada. Eu achava que ia levar um soco, ou que ela ia me matar também como fez com sua família, mas não. E como ela percebeu que eu estava com essa gota no rosto se ele nem tinha olhado para trás? Se ela fica sempre com a cabeça para baixo?
Ela já estava caminhando novamente, olhando para o chão, e ainda lá paralisada. Mais branca ainda do que já sou. Uma das guardas me empurra para eu voltar a andar e só então eu percebo que eu tinha feito toda a fila parar. Será que as guardas não a viram fazer isso? Elas sempre vêem tudo e não podemos nem olhar para trás. Mas a Vick foi tão demasiadamente longe às restrições de movimento na fila, como não notaram tudo isso?
“Ela é especial, minha querida Lady.”
Hum? Especial?
Volto a andar com a guarda me empurrando, me vigiando, e com a Capitã e suas sabedoria me banhando.
“Ela é tão nobre quanto você, e possui mais do que os olhos podem ver”.
Mas ela é uma assassina!
“E quem não é hoje em dia? Todos lá fora são assassinos, matam para se alimentar e, principalmente, para se protegerem.”
Quer dizer que…
“Sim, ela também, igual você!”
Mas então, ela pode ser a minha…
“Pergunte para ela.”
Mas ela nunca fala!
“Quem precisa de palavras quando gestos dizem tudo?”

((( Lady Fae no Asylum – Capítulo 04)))

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Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.