Uma Luz na Janela

 

Uma Luz na Janela

Este manhã eu despertei de um modo estranho, desacordada.
A tímida luz que penetrava pelas grades pareciam tão fracas para poder me acordar de meu estado febril e meus pensamentos recusavam a me obedecer. Sentada à beira da cama, o sol tentava acariciar minha pele alva, aquece-la e penetrar na frígida camada que me cobre.
Tudo bem que minha vida nunca foi fácil, que a cada dia que vivi eu sentia uma nova apunhalada da vida pelas costas, mas aos poucos eu me acostumei, me acostumei com os tombos e com a dor que insistiam em me perseguir. Hoje em dia, eu me tornei mais forte, apesar desse adjetivo ser apenas um disfarce, uma fachada, uma máscara que uso para que todos não vejam que ainda sangro com minhas feridas.
Ninguém realmente se importou comigo em toda minha vida, e até hoje isso é assim…
Meus pais nunca me quiseram, nunca me desejaram. Eles trabalhavam fora e eu ficava por ai, cada dia com uma pessoa, sendo um estorve, uma problema que repassavam para os demais, dia após dia. Ainda sinto a dor daquela vez, de quando ainda bebê, me arremessaram para cima da cama do outro lado do quarto. Eu sentia dor, mas como ainda não sabia falar, apenas chorava. Mas a dor apenas aumentou quando foi feita de lixo, descartada, jogada longe como uma boneca quebrada; fazendo com que ela fosse infindável, que me acompanhasse até hoje e sempre.
Amigos reais? Para que isso? Nos livros eu tinha tantos deles que não precisava me importar em tentar ser amiga de algum real. E eu nem precisava ser amiga de quem me xingava, me humilhava e ignorava. Páginas, capítulos, mundos e vidas novas me envolviam com seus braços calorosos e convidativos, me protegendo do mundo lá de fora, meu abrigo…
Ah sim, abrigo… Meu quarto… Este sempre foi minha maior fonte de proteção. O meu lugar sagrado, minha fortaleza. Onde eu me fechava para mergulhar nas páginas de cada novo mundo. Onde eu podia dormir, sonhar e ser alguém de verdade, onde eu podia me sentir amada e querida.
Mas agora, cá estou eu, nesse quarto minúsculo, impesssoal, frio. Cá estou eu nesse lugar, cercada de pessoas loucas, com visões distorcidas do mundo e da vida, e acham que sou uma deles…
É tão triste se ver em um local assim, esquecida aqui dentro…
Desde o dia que ele me deixou, as coisas foram piorando para mim. Os dias foram ficando cada vez mais escuros e a cada passo que eu dava tentando me salvar, apenas mergulhava mais no pântano negro que minhas lágrimas deram origem.
Blasfemando contra o calor…
Acalorando outros corpos…
Incorporando uma mentira…
Mentindo sobre o que sentia por mim!
Justo quando me senti protegida para me abrir, para sentir que havia alguém que poderia evitar que meu coração petrificasse, ele me joga no fosso. Foi isso que ele sempre quis. Ele sempre desejou que eu o salvasse, que lhe desse uma vida, que lhe fizesse ser uma pessoa e não uma um boneco de trapos e, então, novamente sou descartada.
Bom, isso não importa mais, agora estou protegida contra esses sentimentos mortais. Banhei-me com seu sangue e agora estou vacinada, não mais verterei lágrimas em vão por alguém que as colhe com navalhas afiadas.
Minha nossa, já estou aqui sentada faz meia hora!
Tenho de me levantar, logo as enfermeiras vêm me buscar para o desjejum… E, contrariada, sou forçada a erguer meu debilitado corpo físico, voltar a assumir controle sobre ele, voltar a residir nesse invólucro frígido.
O sol ainda bate em minha pele. Parece que a luz tenta a todo custo penetrar em mim, me aquecer.
“Feche os olhos, sinta-o!”
– Hum? Do que está falando Capitã?
“Não tenha medo, minha jovem discípula. Tudo pode lhe assustar, mas a vida é feita para ser aproveitada… Deixe apenas uma fresta dessa luz lhe tocar de verdade”.
E assim, guiada pela minha Capitã, viro para a janela, de onde essa luz do Sol tenta me tocar.
Fecho os olhos.
Um calor agradável em meu peito.
Sinto uma luz dourada entrar pela janela, tocar meu peito e me envolver em um caloroso abraço.
É um sentimento de êxtase que me domina, faz meu corpo e minha mente se desligarem.
Sou levada com um sorriso que voltou a brilhar quando ele me tocou.
Sim, ambos provamos um sorriso verdadeiro agora, não mais fingido.
E assim ficarei gora, envolta por essa luz, esse calor que imunda minha alma, que se emaranha em meu corpo e devolve a vida.

 

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Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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