Preciso me matar

“Preciso me matar.”

Este foi o primeiro pensamento que me veio à mente quando acordei hoje. Foi instantâneo e imediato: despertei e a frase surgiu.

No entanto, não posso dizer ter sido pego de surpresa; talvez a única “vantagem” de enfrentar a depressão há décadas é a habilidade adquirida com a experiência de perceber quando uma nova crise se aproxima. Às vezes, é até possível evitá-la.

Às vezes.

Ainda assim, nestes momentos, o despertar é um dos momentos mais difíceis do dia; é como se, depois de horas de alívio, você fosse sacudido de volta à realidade e levasse um soco ainda de olhos fechados, recordando como tudo é cinza antes mesmo de lembrar que cores existem.

“Preciso me matar”. A ideia veio sem necessidade de motivações, como se fosse uma simples e indiscutível constatação. Abrir os olhos, sair da cama, tomar banho, café da manhã e iniciar o dia representariam tarefas árduas demais; o mais simples seria morrer. E quem afirmava aquilo não era um inimigo ou um desconhecido – e é difícil não dar ouvidos a si mesmo.

Esta é uma das estratégias mais eficazes da depressão: te convencer de que seu impulso autodestrutivo é… bom… seu. Porém, isto não é verdade – ao menos, não completamente. Ainda que o “preciso me matar” tenha surgido em minha mente e com minha voz, tratava-se de uma imitação talentosa partindo de uma farsante: esta doença traiçoeira. Ao assumir minha voz, sua esperança é a de que eu aceite a realidade e a inevitabilidade do impulso, que abrace a sugestão como se minha fosse.

O difícil, nestes momentos, é perceber que não é – e reconhecer que há uma estranha, uma espécie de vírus, atuando através de minhas sinapses, interceptando as (neuro)transmissões e plantando suas insinuações sob a forma de pensamentos que soam originais.

Claro que reconhecer isto não preenche o vazio escavado pela doença e não traz, por si só, alívio. Despertar com o desejo de morrer é algo que cobre tudo de nuvens escuras que não se desfarão apenas por força de vontade ou pela identificação da tentativa de homicídio perpetrada pela depressão.

Ainda assim, ser capaz de perceber a farsa montada por esta para nos eliminar é essencial para que sobrevivamos.

Um dia de cada vez, pelo menos.

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