Portais Mágicos

PORTAIS MÁGICOS

Esse lugar é inquietantemente perturbador.
Esses corredores, todos perfeitamente mobiliados e requintados, são mortos. Completamente mortos. Não temos ninguém por aqui, somente eu e minha treinadora. Será que sou a única pessoa aqui para ela domesticar?
Eu continuo seguindo-a, apesar da minha Capitã ter agora se silenciado em minha mente. Que pena que ela ficou quieta, é tão bom ouvi-la, me deixa menos solitária…
A senhora Mornington para numa mesa que fica ao lado do lance de escadas que sobe. Eu ainda olho para cima para tentar ver se tem alguém vivo por lá, mas mesmo inclinando a cabeça, as escadas se retorcem em torno delas mesmas, e não dá para ver nada, além das escadas que sobem, sobem e sobem. A Treinadora me olha com reprovação e rapidamente recomponho-me ao lado ela.
Na mesa de mogno envelhecido, existem várias pastas amarelas de papel e a maioria repleta de papéis brancos. De uma gaveta ela retira uma pasta vazia e insere os papéis que ela leu sobre mim.
– Venha garota, esse lugar não é para criaturas como você!
Apenas aceno afirmativamente com a cabeça. Melhor não dizer nada para ela não é?
E ela caminha mais adiante, comigo a seguindo. Passamos por mais várias portas, todas fechadas. O que será que ela tem por trás dessa portas?
Eu a sigo por milhares de quilômetros, até que o corredor termina com duas portas laterais. De um dos bolsos de seu vestido, ela retira um grande molho de chaves. Tem tanta chave lá que daria para abrir as portas do mundo inteiro! Ela abre a porta da nossa direita e me deparo com outro gigantesco corredor que parede não ter fim.
O primeiro portal mágico daqui. Bom, eu até diria que seria o segundo, pois tinha aquele grande portal mágico feito com barras de ferro na entrada desse lugar, mas não fui eu quem passou por ele, foi a carruagem em que eu estava, e não eu.
O primeiro portal mágico se abre e revela um mundo diferente do belo corredor anterior. Aqui as mobílias já desapareceram. Aqui as paredes são vazias, sem nada além das portas para alegrar e distrair os olhos. Ah sim, as portas aqui são brancas, ainda de madeiras, mas brancas.
É um clima de desolação, solidão que parece apertar o meu peito, que me faz querer fugir…
Os passos do salto da mulher ecoam no silêncio do corredor, quase a ponto de estourar meus tímpanos.
E todas essas outras portas? Até tento olhar, mas todas fechadas, nenhuma frestinha sequer aberta… Apesar de que algumas delas têm umas placas interessantes. Imagino o que tenha de útil na Sala de Medicamentos, já a Sala de Facas e Armas Mortais deve ter muitos brinquedos interessantes. Mas claro que temos aquelas salas que eu não gostaria nunca de visitar, como a sala de Tratamento de Choque, a Sala dos Coelhinhos Brancos ou a Sala Hippie.
Hmmm… Frigorífico… Frigorífico? Aqui?
“Sim… E se lembre bem daqui… Depois de usar os brinquedos da Sala de Facas e Armas Mortais, é para essa sala aqui que você deve trazer suas amiguinhas.”
* Você de novo Capitã? Achei que tinha ido embora. *
“Eu nunca irei te abandonar minha querida tripulante. Você está no meu navio e cuidarei de você.”
*Obrigada*
– Fae? Está me ouvindo garota?
– Perdão senhora Mornington, estava distraída. (Falo eu em voz baixa para não desagradá-la).
– Distraída vendo a cozinha? Vai ter de esperar a hora das refeições garota!
– Sim senhora, me desculpe.
E a Senhora Mornington me pega pelo braço e me puxa, voltando a me levar pelo resto do corredor!
A mulher logo solta meu braço quando percebe que novamente a estou seguindo. E logo o gigantesco corredor também chega a um fim e, assim como o outro, tudo se resume a duas portas laterais. Mas a senhora Mornington tem as chaves, as chaves encantadas que abrem os portais… É isso! Como não percebi isso antes!? Ela não é uma treinadora de pessoas, é uma bruxa, uma bruxa que tem muitas magias e itens mágicos, assim como essas chaves mágicas…
Toda a porta brilha forte, raios de luz explodem dela e todos se voltam para a fechadura da porta. Chave e luz, juntas, abrem finalmente o segundo portal mágico desse lugar.
O brilho era tanto que fiquei meio cega, parada aqui desse lado ainda. A mulher, que já passou, agarra novamente no meu braço. Não pude vê-la, mas sei que era ela, só ela segura forte assim no meu braço. E sou puxada através desse portal dimensional para a outra dimensão paralela.
Só depois que a Senhora Mornington fecha o portal, que começo recuperar minha visão. É outro gigantesco corredor, talvez o maior deles. Mais largo que os demais e repleto de portas, muitas, dezenas, centenas delas, quase uma ao lado da outra. Lá longe, onde os olhos se perdem na vista, ainda consigo ver que o corredor termina, mas talvez ele não termine de verdade… Pelo que acho que vejo, ele se divide em dois… Sim, o corredor continua para os lados… Ainda largos, frios e vazios.
Esse é o pior lugar daqui. O pior corredor que esse lugar tem, comparado com os demais que já vi… As paredes são brancas, repletas de marcas de sujeira, de mãos sujas. Toda a parte inferior dele está descascando. Acho que foi umidade demais. Os pisos são brancos, mas opacos e sem vida, todos riscados e chorando.
Chorando?
Ah sim, eu pisei no seu pé… Desculpe-me Senhor Piso, vou tomar mais cuidado.
– Fae? Empacou de novo garota? Não está me ouvindo não é?
– Mil perdões senhora, eu estava…
– Nem adianta eu tentar perder meu tempo com você e explicar nada, não é garota? Depois mando alguém vir lhe ditar as demais leis do meu Instituto.
Humm… Tem mais gente aqui que tenho de obedecer… Entendi…
– Aqui ficam os quartos.
Ela para na frente de uma porta branca, logo uma das primeiras depois que entramos. Retira suas chaves mágicas novamente do seu bolso sem fundo. Ela procura por uma chave em específica, acho que ela vai usar sua magia de novo para abrir o terceiro portal, e acho que será o terceiro e último que verei dessa vez. Quantos portais mágicos ela tem aqui? Pela quantidade de portas que já vi, são muitos. Mas vendo bem, cada porta que passei leva à outro corredor com mais portas, certo?
“Certo Fae, certinho…”
E essas novas portas levarem à mais corredores? E esses outros corredores terão novas portas então… E essas novas levarão à portas corredores, então os corredores são novas portas com corredores novos e elefantes novos na portas e…
Droga!
Eu perdi…
Ela já usou a magia dela e o novo portal está aberto já. Mas, essa porta não levou para outro corredor…
Uma pequena sala com paredes, pisos e teto brancos. Uma cama com um fino colchão em um lado e um pequeno criado com uma gaveta do outro com um pequeno espaço entre ambos e a sala já está cheia.
– É aqui o seu quarto Fae.
“Não entre aí, ela está mentindo. Não vê os ganchos de aço pendurados na parede? Está vendo que todos têm vacas mortas penduradas exceto um? Esse aqui do canto…”
Olho para o alto… Verdade… E não tem cama e nem criado…
“Eles vão te matar Fae, te pendurar nesse gancho e te vender para o açougueiro da farmácia! Fuja, Fuja rápido!”
– Vamos entre logo garota! Não tenho tempo para ficar perdendo com você!
E a senhora Mornington me empurra para dentro, me joga lá e caio sentada no chão. Ela então fecha o terceiro portal e estou lá caída, somente posso vê-la selar minha vida…
– NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO…
((( Lady Fae no Asylum – Capítulo 02)))



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Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.