Palco Primordial

Palco Primordial

As cortinas se abrem e me vejo sozinha no palco. As luzes todas apagadas e um pequeno brilho da lua impede que eu seja cegada pela escuridão que me ronda.
Não sei se ainda estou sozinha, mas me sinto como se estivesse. Embora eu saiba que logo atrás da cortina onde me escondo existem muitas pessoas, me sinto ainda como se elas não estivessem ali, como se a minha solidão ainda persistisse embora eu tente não estar.
O frio então cobre meu corpo empalidecido com seu espesso manto e, no meu âmago, posso senti-lo adentrar meu corpo e fazer residência em mim. Posso sentir seus dedos tocarem meu rosto e, depois de tanto tempo, minha face novamente sabe o que ser acariciada. E teu gélido sussurro adentra meu ouvido e rapidamente sai em forma de uma quente lágrima que escorre involuntariamente.
Não deitar me deitar no chão, sob o piso de madeira antigo… Nem mesmo minha vã tentativa de encolher meu corpo, abraçar minhas perna e levar minha cabeça próximo à meus joelhos… A tentativa de assumir a posição fetal não mais me inspira proteção e segurança. Isso funcionava antes, quando eu acreditava que eu ainda era uma pessoa.
E meu corpo treme.
Minha mente geme.
Minha sanidade oscila.
Não quero perder a lucidez, mas também não quero que meu corpo sofra de uma hipotermia psíquica. Mas essa solidão, todas essas lágrimas, esse vazio que me preenche…
Você não pode achar que pode ser como eles, e já devia ter percebido isso…”
Eu apenas posso permanecer de olhos fechados e deixar com que mais lágrimas limpem minha dor.
Não adianta tentar se adequar, este mundo não lhe quer.”
– Mas eu só queria um lugar, um abrigo, um lugar onde eu pudesse ao menos viver em paz. Já não espero sequer que eu possa viver feliz, apenas viver, e viver sem esses monstros que me seguem, me torturam.
As pessoas aqui não lhe aceitam e não existe um lugar assim para monstros como você,”
– Eu… Eu não sou um monstro!
Olhe para si mesma e veja se é capaz de repetir isso com certeza.”
(Silencio)
Você agora pode compreender tudo que sempre tentei lhe contar. Mas você nunca me deu ouvido não é?”
– Eu não achava que seria verdade, eu acreditava que tudo podia mudar e…
E coisa nenhuma. Eu também devia te abandonar, só por desaforo.”
– NÃO! Por favor, não me deixe.
Estico minha mão aos prantos. Uma visão decadente… O palco escuro com apenas um luz em mim. Caída ao chão, implorando por companhia e chorando…
Satisfatório essa sensação! Você me ignorava, me negava e a tudo que eu tentava lhe dizer e ensinar. E olhe para você agora. Sozinha, chorando, implorando para que eu fique com você.
Abaixo a cabeça, segurando o choro, tentando retomar folego para continuar conversando sem soluçar.
– Eu estava errada. Me perdoe!
Assim está melhor. Reconfortante a sensação de dependência? Sentindo o amargo gosto em sua boca agora?
Somente posso levar meu olhar para o chão, inclinando para o lado. Essa sensação de perda me devora. Ela venceu e só agora percebo que eu só tenho ela, que nunca tive nada nem ninguém, só ela…
Eu posso aliviar sua dor. Posso tirar esse vazio que lhe consume, essa solidão que te dilacera. Posso te curar, te deixar forte, e nunca lhe abandonar.”
Subo o olhar. Ela está tão linda, onipotente parada à minha frente. E eu, um lixo estirado aos pés dela.
Deixe que eu cuide de você. Nunca mais estará sozinha. Basta me assumir. Você quem decide o que será de você de agora em diante. Quer continuar sozinha, sendo vista como monstro, sofrendo e chorando sozinha? Ou quer ser forte e me ter sempre com você? Mas tem de escolher agora. Vem comigo ou fica?”
Ela estica seu pálido braço para meu corpo gelado no chão. Posso sentir o calor que emana dela. Ela é tão linda, tão delicada, mas suas palavras e seu jeito são tão fortes, tão segura… seu sorriso é cativante. Quero poder sorrir de novo.
Levanto então meu braço e minha mão toca a dela. Um calor começa então percorrer meu corpo enquanto ela me levanta e me abraça.
Fecho os olhos e me sinto aquecida. Sinto-me viva. De alguma forma que não sei explicar, ela parece limpar minha alma, fortalecer meu ser. Posso senti-la dentro de mim, cuidando da sua querida amiga. Uma amiga… É, agora tenho uma amiga de verdade, inseparável.
Bem vinda à sua nova vida!”
E meus olhos se abrem para o novo mundo à minha frente…
Acordo então em meu quarto aqui dentro do Asylum ainda. Meu coração disparado e esse sentimento ainda duradouro, mesmo com o pesadelo terminado.
Se lembrar do passado lhe faz tão mal, minha querida?”
– Apenas quando me lembro do monstro que eu era antes de te encontrar, Capitã…

((( Lady Fae no Asylum – Capítulo 07)))

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Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

3 thoughts on “Palco Primordial”

  1. Bom, passando aqui para responder ao comentário no meu blog… Sobre a compra de roupas. Cheguei a pensar eu sugerir compras pela net, já que encontrar os modelos que quer nem sempre é possível. Porém, deve ser complicado comprar roupa pela net, né? Você corre o risco de pedir um número e, como não pode ver a roupa, ter que trocar depois. Só dor de cabeça. Igual comprar sapato pelo catálogo da Avon XD