Ofélia de Shakespeare

A peça Hamlet é considerada a obra mais densa de Shakespeare, devido a intensidade dramática da trama e da profundidade de seus personagens. O personagem principal é, obviamente, o jovem príncipe Hamlet que recebe a visita do espírito de seu pai recém-falecido que vem lhe contar que foi assinado pelo seu próprio irmão, tio de Hamlet, o qual desposou sua mãe em menos de dois meses do falecimento de seu pai.

Irado pelas revelações da aparição de seu pai, Hamlet resolve criar um plano para desmascarar seu tio. E em seu processo de vingança Hamlet utiliza o artifício da loucura para por em prática o seu plano. Perante todos Hamlet foi tomado pela loucura e por isso seus atos insanos tornam-se aceitáveis por um certo tempo, pois justificam-se pela própria loucura.

Hamlet ora sofre, ora se regozija com sua loucura encenada. E ao mesmo tempo também brinca com a lucidez de todos que estão ao seu redor, como é o caso da personagem Ofélia. Hamlet em sua vingança fantasiada de loucura nega o amor de sua amada Ofélia e em uma outra cena trágica assassina o pai da jovem pensando que estava a matar sei tio.

Ofélia longe do irmão Laertes se vê rejeitada pelo seu grande amor e órfã em vista do assassinato de seu pai. A jovem que estava sendo atormentada a muito tempo pela loucura de Hamlet, por fim cai ela mesma na loucura, mas numa loucura real e corrosiva que a leva a perder totalmente o senso de realidade. Aqui entra um dos grandes paradoxos dessa obra. O quanto a loucura encenada de Hamlet levou Ofélia a cair em sua loucura fatal?

A jovem e bela Ofélia atormentada pela sua loucura é, enfim, levada a afogar-se num rio. Um afogamento acidental ou um suicídio? Essa é uma das mais interessantes discussões nesta obra de Shakespeare. A Rainha ao dar a notícia do falecimento de Ofélia ao seu irmão Laertes diz: “Acumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte, tua irmã suicidou-se, afogando-se.”. Mas na narrativa que se segue a Rainha narra o acontecido e ali podemos notar uma leve atenuação dos fatos.

“Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem se reflete nas águas cristalinas. Tua irmã aproximou-se daquele sitio, sempre tecendo grinaldas de rainúnculos, ortigas, malmequeres, e dessas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas castas donzelas denominam poeticamente “dedo da morte”. Quando procurava ornar com as suas inocentes grinaldas as argênteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se a uma sereia, cantando incoerentes trechos, inconsciente do próprio risco, como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e tornou-se cadáver levado pela corrente.” Fonte: Peça Hamlet de Shakespeare em Wikisouce

 

Ophelia by John Everett Millais
Ophelia by John Everett Millais

 

A personagem Ofélia é ao mesmo tempo secundária e fundamental à trama. O suicídio era um tema delicado a ser discutido devido a predominação da igreja católica na época, mas Shakespeare através da morte trágica e dúbia da doce e jovem Ofélia cria um espaço para uma discussão crítica porém sutil sobre o tema. Ironicamente, em minha opinião, o simples coveiro que está cavando a cova de Ofélia apresenta para o seu colega o raciocínio mais simples e direto sobre o tema:

 

“Ouve-me ainda; a água está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem vai encontrar a água e se afoga; forçosamente morre por seu motivo próprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a água que vem encontrar o homem, e ele se afoga, então já não é ele que procura a morte; ergo, aquele que não é culpado na sua morte, não encurtou voluntariamente á vida.”

 

Fora do contexto da obra de Shakespeare a personagem Ofélia foi ainda mais enaltecida, ela se transformou na imagem de uma ninfa das águas caudalosas de um rio rodeado por árvores e flores, uma bela jovem que foge de sua loucura entregando-se a um sono plácido enquanto permanece deitada num berço de águas. Ofélia representa uma alma atormentada que foge de si mesma entregando-se a um sono que a conduz ao esquecimento, a morte.

A seguir, um trecho do poema Ophelia de Arthur Rimbaud, considerado um dos mais belos poemas sobre esta personagem Shakespeariana:

Ophelia por Arthur Hughes
Ophelia por Arthur Hughes

 

 

Morreste sim, menina que um rio carrega, Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve ! – É que algum vento montanhês da Noruega Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

-É que um sopro, liberta a cabeleira presa, Em teu espírito estranhos sons fez nascer E em teu coração logo ouviste a Natureza No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido, Rasgou teu seio de menina, humano e doce; – E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido, Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor : – que sonho, que pobre louca ! Ante ele eras a neve, desmaiado à luz; Visões estrangulavam-se a fala na boca, O Infinito aterrava os teus olhos azuis !

 

 

 

 

 

 

 

 

O quadro de John Everett Millais é uma das mais famosas representações de Ofélia, mas no mesmo período Arthur Hughes, também participante da Irmandade Pré-Rafaelita juntamente com Millais, produziu diversos outros quadros representando suas versões de Ofélia.

Ophelia por Arthur Hughes
Ophelia por Arthur Hughes

 

Ophelia por Arthur Hughes
Ophelia por Arthur Hughes

 

Ophelia por Arthur Hughes
Ophelia por Arthur Hughes

 

Agora vejamos alguns trabalhos fotográficos encontrados na internet sobre a personagem Ofélia. Tais fotos foram retiradas da internet e muitas delas careciam de fontes, por isso colocarei apenas comentários em algumas delas.

A metáfora de Ofélia no filme Melancholia.
A metáfora de Ofélia no filme Melancholia.

 

Versão de Ofélia na revista Vogue
Versão de Ofélia na revista Vogue

 

Propaganda Chanel
Propaganda Chanel

 

Cena da série Desperate Romantics em que Millais pinta o quadro Ophelia
Cena da série Desperate Romantics em que Millais pinta o quadro Ophelia

 

Ofélia pela fotógrafa Elena Kalis.
Ofélia pela fotógrafa Elena Kalis.

 

Ofélia por Desirée Dolron.
Ofélia por Desirée Dolron.

 

Ofélia pelo fotógrafo Gregory Crewdson.
Ofélia pelo fotógrafo Gregory Crewdson.

 

 

 

Ofélia de Shakespeare

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.
%d blogueiros gostam disto: