Odeio Chuva

Odeio Chuva

Eu odeio chuva… Odeio dias chuvosos e molhados!
Hoje já é sexta-feira e essa chuva só faz aumentar ainda mais a sensação de frio e dor que já me domina por dentro os ossos e o coração.
Estamos todas da nossa Ala aqui na sala de convivência. Sim, eles às vezes costumam trazer a gente para cá quando alguma coisa por lá dá errado e nos deixam aqui ocupadas com uma televisão que só passa filmes antigos, melosos e sem nada que incite nossa violência interior.
Nunca vi tantas de nós em um mesmo local, nem mesmo nas horas das refeições… Mas mesmo restritas aqui dentro, não parece que estamos juntas. Cada uma em um canto, umas nos sofás, outras de pé próximas às janelas com grades, e umas poucas rolando no chão e pronunciando blasfêmias indistinguíveis. Eu estou aqui sentada perto do balcão das enfermeiras, vendo tudo de longe, calada e investigativa. Sentada aqui, posso entender porque este lado da grande sala foi escolhido para implantar a ante-sala das enfermeiras e seguranças: o lugar aqui fornece um ótimo ângulo de visão, e podemos ver tudo, todos e até consigo ler seus pensamentos mais secretos daqui.
A velha Donna, a moradora mais antiga do Asylum está lá sentada próxima da tela, assistindo à um melodrama em preto e branco, vendo finalmente a moçinha ganhando o beijo do seu grande amor, homem por quem ela sofreu o filme inteiro. Assim como Donna, outras em volta e entretidas com a ceninha melosa estão com os olhos cheios de lágrimas. Indago-me de que adianta tudo isso? Será que elas não percebem que é apenas um filme tolo sobre o amor ideal que todas querem encontrar? Todas menos eu, é claro. Amor é para os trouxas, para os infelizes.
Vick está lá em uma das grandes janela do casarão, com a testa pregada no vidro, olhos perdidos ao longe, abertos em busca de algo, fixados e estáticos no horizonte. Mesmo estando ainda de manhã, o temporal lá de fora nos dá impressão de que estamos afundadas na noite. Os grandes pingos que mergulham lá fora diretamente sobre a face de Vick não a intimida e ela permanece hipnotizada, perdida. Sinto que ela está esperando por alguém, alguém que ela sabe que está por chegar logo e a sua mente está completamente certa que em breve chega e os problemas dela serão resolvidos. Mas quem a Vick está esperando?
Um trovão ensurdecedor rasga o céu. Apesar da forte chuva, não estavam ocorrendo estes fenômenos, pelo menos até agora, e isso só me diz que a tempestade só está piorando.
Algumas garotas gritam de susto com o barulho, como se adiantasse alguma coisa expelir sons tão medonhos e apavorados. O engraçado é ver as reações delas depois. Algumas ficam perdidas, como ratos em um labirinto, com o perdão da comparação Sir Lord. A maioria coloca as mãos sobre o coração, dando leves batidinhas, ou então tapam os ouvidos, como se adiantasse alguma coisa tapá-los depois que o estouro já foi proferido. O mais engraçado são as tolas que abaixam a cabeça e usam suas mãos para esconder seus olhos…
Quando eu era pequena, eu costumava me esconder sempre que chovia. Depois de ver em um desenho infantil que os trovões eram os sons das brigas entre criaturas gigantes que batalhavam nas nuvens, eu comecei morrer de medo de que um deles viesse a pisar fora da nuvem e cair no meu quintal. Ele iria acabar vindo lutar comigo, já que não teria outra pessoa aqui embaixo para ele enfrentar, então eu tinha de me esconder.
Comecei usando a cama, correndo para debaixo dela, mas os raios que brilhavam no céu me assustavam, pois eu sabia que eram fagulhas das armas deles e que depois ia chegar o som da luta. Pular para cima da cama e me cobrir toda, inclusive a cabeça, e ficar de olhos fechados foi minha segunda tentativa de fuga. Mas a falta de algo físico e mais sólido ali me fazia ter impressão de que havia alguém do meu lado e eu acabava com mais medo ainda. A melhor saída foi entrar no guarda-roupa, pois só lá eu me sentia segura.
A chuva não mais me assusta hoje, mas, em compensação, quando se cresce começamos a ter muito mais coisas a temer em vida e eu desejaria que eu tivesse ainda um lugar para me abrigar e proteger quando eu tenho medo de algo.
Estranho como os dias de chuva como hoje são depressivamente melancólicos.
Eu posso olhar para cada uma aqui dentro e ver a tristeza e dor nos seus rostos. Mas só agora eu entendo o porquê disso, o motivo pelo qual a chuva nos entristece. Parada aqui, vendo todas elas e vendo as gotas jorrarem lá fora, eu compreendo. Ficamos melancólicas, depressivas, tristes e abatidas com a chuva, por um simples fato: pois quando olhamos para o lado de fora da janela estamos vendo nossas próprias lágrimas caírem.

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Odeio Chuva

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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