Nudez de Uma Máquina

NUDEZ DE UMA MÁQUINA

Sempre ouço dizer que não somos os personagens solitários que parecemos ser, mas sim que somos algo com milhões de máquinas dentro de uma máquina maior, com um grupo de mecanismos e engrenagens que nos dizem que somos uma pessoa, um indivíduo, uma personalidade. E isso nada mais é para acalmar a inconveniência de uma provável experiência que podemos passar, que somos publicamente expostos: quem realmente somos. Mas a questão crucial de tudo isso é que tudo é uma ilusão, que não somos quem insistimos ser.

E o que seria então se uma dessas nossas máquinas, uma dessas nossas infinitas facetas, decidir morrer? Existe apenas, então, uma única forma de suicídio, ou é possível que várias partes de nossa máquina não visíveis, porem não menos importantes, possam também morrer enquanto nosso corpos, nossas outras partes mecânicas, sobrevivam?

Nunca obtive sucesso em nenhuma das tentativas de minha vida, mas posso assegurar que tenho peças e partes de mim que estão morrendo a cada dia. Estou cheia de suicídios, de corpos em decomposição, de esqueletos frágeis, infestando as partes vivas que ainda possuo em mim. Estou morta, embora eu não esteja realmente assim para os demais.

Algumas vezes consigo me ver como um órgão pulsante, mantido vivo dentro de um frasco de vidro com eletrodos, determinado e forte, embora nascido sem a necessária concha humana, mas ainda triste por não tê-la. Mas por quanto tempo ainda poderão me manter viva assim, com todas essas drogas que me mantém pulsando? Um ano? Dois? Mais? Ou ainda pior, para sempre?
E o que seria do “eu” que existe do lado de fora de minha imaginação? Pode aquela que nunca vive, morrer? Ou é simplesmente mais uma coisa que sou incapaz?

Desejo que minhas paredes forem blocos de cimento e eu não poderia, então, ver o mundo que grita do lado de fora de meu corpo, mundo do qual não sou apta a fazer parte. Estou cansada destas paredes de vidro, e ainda mais cansada de perguntas.

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

3 thoughts on “Nudez de Uma Máquina”

  1. Um feixe de sentimentos densos que geram perturbação profunda nos recôndidos da reflexão… Quantos se encontram enclausurados e não se dão conta disso? Texto profundamente tocante e revelador!

  2. Muito legal my Lady, BUT, não podemos nos esquecer que assim como partes, eus, de nós morrem, outros tantos nascem, da mesma forma.
    Tem uns autores que falam destes novos tempos onde a vida é muito acelerada e alguns “eus” ou máscaras, eu sinceramente prefiro o termo: Personagen, entram e saem de cena em menos de 1 minuto, mas eles não morrem, nós só penduramos este personagem no cabide (pq colocar e tirar do armário pode ser interpretado com outro sentido) E no momento q precisamos reavemos este personagem e ele volta a cena, entrando no palco pra cumprir com seu papel neste grande espetáculo que é a vida em sociedade.

  3. E quando não se quer mais encenar para a plateia? Quando tudo que se sonha é não mais ter de vestir personagens para agradar os outros? Não todos suportam uma vida assim, amigo. Existem pessoas que sofrem a cada dia quando são “obrigadas” a fingir um sorriso e que não são capazes ver a vida por esse lado aí. Pessoas cujas engrenagens que ainda estão vivas, estão enferrujadas. E como máquinas não se reproduzem, impossível que estas partes sobreviventes deem origem a novas peças…