A Natureza da Dualidade Humana

Nos últimos tempos, tenho percebido o quão me sinto atraído pelos vilões em algumas séries que acompanho e, isto começou a me intrigar. Estaria eu me entregando ao “lado negro da força”?

Passei algum tempo refletindo sobre este interesse perplexo e eis que me encontro com a resposta de minha admiração por aqueles antagonistas específicos: eles não eram simplesmente os vilões por terem escolhido isso, mas sim como consequência de ações de terceiros em suas vidas.

O maior exemplo que posso citar seria minha idolatrada Regina de Once Upon a Time. Depois de alguns episódios que revelam fatos de antigos de sua vida, descobrimos que ela era uma boa pessoa e que teve todas as razões do mundo para se tornar a pessoa vingativa que tornou.

Regina Mills – Once Upon a Time

Foi quando um novo lampejo de descoberta se fez presente em meus pensamentos, mostrando que também somos assim, passíveis de mudanças, de transformações, influenciados pela vida e pelas ações das pessoas que, de alguma maneira, marcaram nossas vidas, tanto para o lado negativo quanto para o positivo.

Todos nós vivemos nossas paixões, vícios e amores que passaram, passaram assim como as ondas que chegam de modo impactante nas margens de uma praia, destruindo os castelos que criamos com a areia de nossos sonhos e que depois recua de volta ao mar, deixando apenas nossas frustrações. Mas há aqueles que veem a mesma onda com o sorriso de quem está banhando seus pés em uma caminhada ao pôr do sol.

Podemos dizer que tudo nesta vida por ser algo bom ou ruim, basta apenas mudar o modo de ver, mudar sua perspectiva de vida. Um copo pode estar meio vazio par ao pessimista, mas estará meio cheio para o otimista.

Somos seres repletos destas visões opostas, seja com estilos musicais, preferencias culinárias, opções de vestuário, diversidade sexual ou mesmo com nossas emoções. E muitas vezes julgamos o outro apenas por não estar adequado ao nosso modo de ver aquilo, dizendo que ele está namorando uma pessoa que não tem nada a ver com ele, ou que não acredita que seu amigo está vestindo algo que você não aprecia. Mas na verdade o problema não é o outro, não é seu amigo ou a sociedade, mas sim conosco.

Não adianta odiarmos as cobras pro seu veneno e adorar as flores por sua beleza e fragrância, pois existem várias espécies de flores que são lindas, porém inodoras. Ou mesmo aquelas que são desprovidas de beleza, porém seu perfume é inebriante. Assim também somos nós, seres humanos, que nos apresentamos pelas aparências de sermos bons, mas em nosso cotidiano não conseguimos ser sempre a mesma pessoa, alternando nosso humor, gostos e opções. E mesmo sem que possamos nos dar conta disso, alteramos nossas atitudes.

Todos nós somos duas coisas ao mesmo tempo, não somos? Bem la no fundo, somos anjo e demônio, somos luz e trevas. A tensão entre os dois extremos que possuímos é o verbo ativo que rege nossas vidas. Em momentos somos mais mocinhos e, em outros, somos vilões. Mesmo que a razão e educação tenham nos domesticados a dados comportamentos, nossos pensamentos sempre irão nos puxas para o outro lado. Como quando sua amiga começa a namorar uma rapaz lindo, educado e com bom poder aquisitivo e você diz estar feliz por ela, mas no fundo fica se indagando porque isso aconteceu com ela e não com você. Relembramos todos os podres da pessoa e os usamos como comparação com nossas virtudes, sem nada dizer ou demonstrar, estamos nos entregando ao nosso “outro lado”. Claro que existem aqueles que não hesitam em mostrar suas duas facetam, enquanto outros pendem mais para um lado, ou outro.

Esta inconstância está enraizada na condição física e emocional do ser humano. Ora estamos alegres e animados, mas em seguida ficamos tristes e desanimados. E a Natureza é exatamente assim, o frio e o calor, o dia e a noite. Não existe modo de desvincular o ser humano de sua natureza e, por isso, o bem ou o mau não é uma opção, mas sim uma condição da Natureza Humana.

Somos seres oriundos de nossa própria dualidade, somos o grande problema para nós mesmos. Acusamos um demônio, o mundo e as pessoas que não cercam de estarem corrompendo nossas virtudes, de estarem nos influenciando para o lado errado, de deturbarem nossas vontades e nos levarem a outros caminhos que nunca teríamos optado por trilhar. Mas isto é mentira. É muito mais fácil jogarmos nossas culpas nos outros do que aceitarmos nossas responsabilidades.

Mas isto ocorre pois nós não conhecemos a totalidade de nossa própria natureza e de todas as coisas que existem. Não fomos ensinados a pensar assim, apenas a taparmos nossos olhos perante nossos erros e delegar nossas culpas a fantasmas que criamos. Culpamos as más companhias por nos inserir no mundo das drogas, mas foi nosso lado obscuro que deixou isso acontecer, foi a nossa culpa. Porém sempre culparemos o outro. O fim de um relacionamento sempre é culpa do parceiro, pois nunca vamos ver todos os pequenos erros que cometemos se transformarem na bola de neve que devorará tudo que foi criado junto com o outro.

Somos nossa própria dualidade, uma Dualidade dúbia talvez, que nos faz ser quem somos hoje e quem seremos no nosso amanhã. E eu gostaria de poder dizer que ela é má, uma corruptora de alma, destruidora de virtudes, mas eu estaria tentando me enganar. E chega um momento em nossa vida que ficamos cansados dessas mentiras que criamos para nos enganar, para explicar nossa infelicidade, nossas falhas e nossas frustrações.

Temos de aceitar que somos os causadores de nossas desgraças. Somos completamente responsáveis por tudo que fazemos e dizemos, seja para o bem ou não. A natureza de nossa dualidade é o monstro que habita em nossas vidas, assombrando nossos sonhos e alimentando nossos pesadelos. E é muito fácil ceder, basta um simples segundo e estamos pendendo para o lado negro de nossa natureza interior e as consequência serão sempre permanentes. Cabe a cada um de nós nos vigiar, nos equilibrar em cima de nossos muros mentais e racionais. Uma eterna vigília sem fim contra a natureza de dualidade humana.

Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas como o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve – Blaise Pascal

A Natureza da Dualidade Humana
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