Medo da Noite

Medo da Noite

A cada dia que passa, eu acho que começo mais a entender as regras desse lugar. Uma semana está para se completar, mesmo parecendo que já se foram meses. Especialmente as noites, essas sim são angustiantes. Por ser uma construção relativamente afastada da cidade, o silêncio aqui é algo assustador.
Enquanto me deito para tentar pegar no sono, eu posso sempre ouvir os choros abafados das demais garotas. Chorar é algo ruim, pois algo dentro de você não está lhe fazendo bem, está me machucando e você já não está mais aguentando a dor e precisa exteriorizar esse sofrimento que te mata por dentro. Mas segurar um choro, isso é pior ainda. Como não gritar de dor enquanto te espancam e gritar ainda mais implorando para pararem? É a mesma coisa com um choro: a incapacidade de manifestar o que lhe tortura é uma tortura maior ainda, uma forma inexplicável de sofrimento.
E o pior é que isso não coisa de uma noite ou outra, um choro longe do outro. Toda noite, é possível perceber que mais de uma garota está morrendo aqui. E não é morte física. Ainda se fosse seria muito mais fácil. É uma morte psicológica, uma morte mental. Morrer aos poucos, sofrendo a cada suspiro que se esvai, esperando que seja seu último sopro de vida. Mas a realidade é fria e indiferente demais com a gente por aqui e não quer se livrar de nossas vidas mortais. É uma entidade sádica que se diverte e goza vendo nosso sofrimento.
Algumas vezes ainda posso ouvir gritos. Não gritos de quem acorda assustado no meio da noite depois de um pesadelo terrível, mas sim de dor, de dor dilacerante. Esses gritos são seguidos de tumulto nos corredores, com os cães que trabalham para a Senhora Mornington correndo lá para cuidarem do problema. Enquanto isso, ficamos mudas em nossas camas, de olhos cerrados e o silêncio que aumenta mais nessas horas faz com que esse distúrbio seja ensurdecedor. Passos, gritos e dor que parecem estar batendo à minha porta e me fazer cobrir a cabeça de medo. E sei que as demais também. Ficamos mudas em nossas camas, cobertas em uma inútil tentativa de nos escondermos. Um luto mútuo, um silêncio compartilhado em homenagem àquela que não foi capaz de conter sua própria dor e que agora receberá muito mais dor ainda.
O grito aos poucos se torna abafado, como se estivessem tapando sua boca com algo. Os cães então pronunciam coisas como “segurem” e depois sempre tem um “levem”. Não sei qual dos cães diz isso, mas parece ser um cão chefe da matilha.
Mas seja lá o que acontece por lá, o silêncio volta a reinar e, de forma mais fúnebre ainda. O quarto sempre amanhece vazio, completamente impessoal e sem nenhum pertence ou marca que indicasse que houvera alguém por ali. Quase como se tivessem apagado toda e qualquer marca ou evidência do que aconteceu. Mas isso é mentira. Todas nós estamos marcadas… Irremediavelmente testemunhas, marcadas e sangrando a cada noite.
Eu nunca tive medo da noite, pelo contrário, sempre a amei. Ver a lua no céu, toda onipotente e indiferente ao que fazemos ou falamos para ela. Cercada das estrelas que a idolatram e veneram sobre uma treva tão profunda que domina o céu. Mas agora… A noite me dá medo. Medo de ser a próxima a não suportar minha dor sozinha e ser a próxima a ser visitada pelos cães no meio da noite.
Sir Lord, o ratinho que sempre me visita aqui me contou que elas são levadas para a próxima sessão de corredores. Ninguém e nada nunca voltou de lá, nem ele consegue entrar, e também nem tem vontade. Assim como nós, ele também tem medo, por isso nunca ousou ir descobrir o que a última porta de nossos corredores revela.
Mas uma coisa todas nós aqui dentro sabemos, aquele lugar será nosso próximo destino. Nenhuma garota que saiu daqui foi para outro lugar: todas que saem daqui, saem desse modo e sempre para aquela porta negra e assustadora. Nosso único destino aqui e não adiantar relutarmos contra essa idéia, todas iremos para lá um dia. A última porta mágica daqui, e última e final viagem que aqui seremos capazes de fazer: atravessar o portal para o nosso inferno.

((( Lady Fae no Asylum – Capítulo 05)))

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Medo da Noite

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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