Inspeção na Cela

Inspeção na Cela

 
Algumas vezes me sinto impotente, incapaz de seguir meus desejos e concretizar minhas vontades. Isso é realmente deprimente, é absolutamente frustrante.
Depois de acordar de uma noite conturbada, esse nada dentro de mim não para de gritar. Mesmo enquanto tento ocupar minha mente nessa cela em que vivo, eu podia ouvir minha Capitã gritar, espernear, chorar…
É difícil não dar ouvidos ou atenção para alguém que, por tantas vezes, lhe ajudou a sair do buraco. Mas todos erram, todos podem cometer erros, e até ela pode estar enganada não é? Será que minha Capitã está errada?
Mesmo assim, reúno as poucas folhas de papel em branco que me restam para tentar exteriorizar o meu vazio, rascunhando belos desenhos, com corações e flores para adornar uma linda poesia que reverbera em mim. Todos vivem falando que eu devia mudar, que devia deixar as coisas ruins de lado e eu estava decidida a fazer isso, decidida. Decidida a fazer algo belo aqui, para me inspirar, me nutrir e servir de guia. Guia de como viver, como ser, como tudo deveria ser. Por isso tenho de anotar tudo, antes que eu esqueça como a perfeição que tenho que atingir seja, ou antes que outras coisas possam me ocorrer aqui.
Quem sabe algo me aconteça e então tenho um registro físico para a posterioridade. Nunca se sabe o que os cães de guarda desse lugar podem fazer. Fome, instinto, loucura, e num segundo, você pode estar morta. Eles parecem dóceis, simpáticos, cuidando de sua segurança contra invasores e impedindo que você faça algo contra você mesma. Mas são apenas cães de guarda, animais, e mesmo trabalhando para Senhora Mornington, ainda sinto que confiar demais nos sorrisos desses animais é entregar seu coração e sua vida de bandeja para o banquete.
E nesse exato momento, um deles passa pela minha cela, procurando pelos cantos de meu quarto por algo que pudesse representar um perigo contra minha vida. Simplesmente desempenhando o trabalho dele, vigiando. Até parece que tenho como esconder algo aqui que eles não possam encontrar nas constantes inspeções.
Eu fico congelada, imóvel, com papel e lápis na mão, observando-o.
 Sentada em minha cama, que por sinal é a única coisa que tenho agora em minha cela, recuo até o canto, onde uma fria parede me impede de afastar mais. Fecho as pernas, unindo-as ao meu peito, numa tentativa de encontrar abrigo, de me defender dos dentes afiados que o sorriso aparente oculta.
Respiração ofegante. Pulsação acelerada. Dor dilacerante.
Tenho vontade de gritar, de fugir daqui, mas seria em vão, os cães se alastram, inundam todos os corredores desse lugar, todos obedecendo às regras da tirana que os contrata para o serviço. E nós, internas, somente podemos respeitá-los através do medo que despertam em nós.
Uma gota cai sobre o papel que estava abrigado, comprimido, entre minhas pernas e meu peito. Uma gota que borra as letras que me serviam de fuga, fuga, fuga… Fuga… Palavra tentadora. Eu podia fazer isso, correr, buscar por paz, por meu canto, pelo guarda roupa que me protegia nos dias de chuva contra os trovões. Ah como sinto falta dessa época fácil de viver, quando se é uma criança sem problemas, quando seu único medo é o de crescer.
Eu podia atacar o cão que agora caminha para fora de minha cela, jogar um pedaço de carne envenenada. Cães amam carne. Mas não sou assassina, não mais, não mais, não, mas…
Balanço minha cabeça negativamente, afastando a sensação ruim da vigia hostil. Eu estava sozinha de novo, segura, comigo, com minha Capitã. Ela sim me ama, ela sim cuida de mim.
E então eu me desespero quando volto a tomar meus papéis na mão. Eu estava escrevendo um lindo soneto, adornado com corações e flores em um lindo dia de primavera, nos campos coloridos que eu via nos filmes e nos meus sonhos. Mas aquela gota caiu no centro da folha, caiu sobre o grande coração que eu havia desenhado e que unia as palavras de minha poesia.
Tento secar a umidade amarga que ameaçava minha obra, mas no desespero, o debilitado papel se rasga. Um buraco, um buraco se abriu bem no meio do desenho do coração perfeito.
Olho com tristeza para o papel, para a bela poesia não terminada, para o coração ferido. E agora, o desenho escorre, escorre quente e rubro, escorre pelo papel, escorre, desmancha, apaga.
Tola… Como fui tola… Cães são cães, animais selvagens, feras, que só sabem atacar, ferir, deformar suas vítimas para que se cubram e se escondam embaixo dos lençóis.
 
 
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Inspeção na Cela

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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