Fluído da Felicidade Transbordante

 

Fluído da Felicidade Transbordante

Depois de algumas semanas de confinamento, as coisas que vemos parecem mudar, mudar o nosso ponto de vista sobre como o mundo que vemos.
As palavras começam a assumir mais força, assim como o mais simples e insignificante gesto assume proporções gigantescas. Um sorriso sincero lhe dá algumas horas de felicidade, mas o abraço… Ah o abraço! Faz você se sentir no paraíso, segura, protegida, como nunca poderia se sentir antes. O mínimo de afeta lhe faz mover montanhas.
Eu havia sido chamada para ver a Doutora Coruja. Ela é uma médica que comparece todos os dias por aqui para consultar as internas. Seus grandes olhos esbugalhados nos analisam a cada momento, entrando em nossas mentes e retirando tudo que ela quer. Tudo que falamos, tudo que deixamos de falar, é anotado em suas fichas e gravado em fitas, arquivando assim nossas memórias, medos e desabafos. Ela nos deita em um divã, na sua sala escura, direcionando apenas um abajur em nossa cara e outro em seu caderno de anotações, e ficamos praticamente vulneráveis ao seu frio interrogatório. Mas é tudo arquitetado: o lugar escuro e o jogo de luzes, o modo que ela lhe faz expelir seus pensamentos, a solidão que já sentimos, tudo se funde de tal modo que é fácil ela dizer que não estamos bem mentalmente e que precisamos de tratamento.
Mas como parte das obrigações, eu me deito e respondo tudo que ela me pergunta, já que não tenho outra saída, tenho de me entregar para meu inimigo.
– Coruja: Como passou a última semana?
– Bem, obrigada…
– Coruja: Tem certeza de que passou bem? Aqui consta que teve um surto e tentou se suicidar
Calo-me… Não tenho argumentos contra essa alegação, pois sei que não agüentei realmente e tentei realizar tamanho ato extremista.
– Coruja: Pois bem, o que me diz sobre o nome Tony?
– Era meu amigo.
– Coruja: Somente amigo?
– Acho que ele gostava de mim…
– Coruja: Acha? Não tem certeza?
Ela consegue escavar de um modo que ficamos vulneráveis ao seu ataque.
– Sim, ele gostava de mim.
– Coruja: O que ele lhe fez, Senhorita Fae?
– Uma noite ele tentou me beijar. Eu nunca tinha sido beijada antes, eu acho que eu tinha uns 15 anos…
– Coruja: – Na verdade eram 14 anos e 3 meses.
Olho para ela sem entender como ela sabia disso.
– Coruja: Continue. O que Tony lhe fez?
Hesito uns segundo, voltando a me acomodar no divã gelado e embaixo do holoforte em minha cara, para então continuar respondendo ao interrogatório.
– Eu estava voltando para casa depois das aulas… Ele estava caminhando comigo, como sempre fazia. Foi tudo muito rápido e quando vi, ele estava me encostando no muro, com os braço me prendendo ali.
– Coruja: E depois?
– Eu o vi vindo com a boca pra cima de mim… Eu não queria aquilo…
Sinto-me fraca em contar sobre isso, como se algo dentro de mim fosse sugado. Hesito em continuar, mas a Coruja me encara, me faz prosseguir.
– Eu estava confusa, com medo. Não sabia o que fazer. Mas deixei-o agir. Senti os lábios quentes dele tocarem o meu. Fechei meus olhos e senti o cheiro dele que começou a me inebriar ao mesmo tempo quem seus lábios abriam os meus.
Paro e fecho os olhos relembrando a cena e a Coruja com certeza viu meu sorriso e meus dedos que levei nos lábios, acariciando-os enquanto me recordava da cena.
– Ele era forte e seus braços me envolviam gostoso. O corpo dele prensou o meu no muro e pude sentir o calor emanando dele. Uma mão dele tocou meu rosto enquanto sua língua tocava a minha. Era tão gostosa aquela sensação, de ser beijada por um homem, meu primeiro beijo…
Novamente as palavras fugiram de minha boca, me silenciando e contemplando às imagens que brotavam da minha memória.
“ Pare com isso, não continue a contar para ela suas fraquezas…”
Eu ouvi minha Capitã, me aconselhar, mas era tão distante, eu estava tão perdida nas memórias que nem dei atenção a ela, infelizmente.
Mas logo minha satisfação e êxtase são cortados. Sento rapidamente no divã, virando para a Coruja. Eu sentia meu coração pulsar rápido, sem freios e meus olhos saltarem para fora enquanto minha risada explode.
– Hahahahaha
Como era satisfatório rir assim, me fazia sentir viva e feliz. Mas eu vi que a doutora esperava mais respostas sobre isso. Ainda viva, pulsando felicidade e nostalgia, eu subo de pé sobre o divã dela, quase saltitando de felicidade então falo alto, quase gritando.
– Mas eu o matei! Tive de matá-lo!
E agora me recordando da hora em que contei para ela, confesso que foi engraçado ver a cara dela. Mas eu caio então de quatro sobre o divã, virada de frente para a doutora. Minha felicidade explode dentro de mim e não consigo conte-la, que transborda em forma de saliva e lágrimas.
– Eu não podia deixar ele vivo. E se ele não gostasse de meu beijo e falasse mal de mim para alguém. Por isso eu o matei assim que ele me soltou. Ele ainda sorria enquanto acariciava meu rosto quanto enfiei minha caneta em seu abdômen.
A Coruja me olhava assustada, minha alegria seria tão ruim assim para ela?
– Eu ainda me lembro dos olhos dele nos meus, sua boca se abrindo e tentando me perguntar o motivo pelo qual fiz aquilo. Ele se afastou com as mãos agora vermelhas, assim como sua roupa que rapidamente se tingia de rubro.
“Eu ordeno que pare com isso! Sou sua Capitã, me obedeça!”
Mas eu não conseguia, eu estava bem em contar tudo que nem obedeci minha Capitã que gritava dentro de mim”.
– Ele então caiu, na minha frente, segurando meus pés. Eu dei risada e pisei na mão dele. Um rio começava agora nascer em seu corpo, fluindo livremente agora, agora que não mais estava contido nas limitações físicas daquele perfeito corpo masculino.
Salto na direção da doutora, ela não estava feliz assim como eu, mas ela tinha de ficar… Ela tinha de ficar feliz, eu tinha de faze-la ficar feliz. Mas ela não queria ficar feliz comigo, e ela me olhava assustada enquanto meus olhos vidrados gritavam junto com o riso que explodia de dentro de minha boca e alma.
Mas ela não queria… Ela tentou se afastar da gente, minha Capitã… Ela não queria a nossa felicidade e isso é errado. Ninguém pode recusar a nossa alegria e ela ia ver isso, da pior maneira possível.
Então a porta se abre. Eu ainda perto da doutora e ela sentia minha felicidade pingar de minha boca e cair sobre a face dela.
Não consegui fazer mais nada, pois algo me acertou na cabeça por trás, e eu vi tudo escurecer, aos poucos, até ser tomada pela treva profunda. E agora estou aqui… Nessa sala com paredes de almofadas, amarrada nessa roupa como se eu fosse um animal.
“Eu lhe avisei querida, nem todos são capazes de entender a felicidade alheia.”
A Capitã tem razão e me calo, ouvindo sua voz da sabedoria a me guiar.
“Nunca espere que lhe entendam, pessoas não são compreensíveis e sempre lhe rotularam como perigosa quando seu modo de pensar e ser lhe é diferente dos padrões que eles possuem.”
Deito no chão macio ainda deixando minha alegria escorrer umidamente de minha boca.
“Apenas confie em vocês, e todos ao seu redor serão seus inimigos sempre. Esta é a lei da sobrevivência. Você está certa e os demais não.”



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Fluído da Felicidade Transbordante

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

2 thoughts on “Fluído da Felicidade Transbordante”

  1. Aí é que está a questão… Será que tudo foi desse jeito mesmo?

    Minha intenção com a Fae é deixar cada um interpretar do seu modo e tentar descobrir o que é real e o que não é. Tem textos e trechos onde ela se mostra completamente sã, lógica e tentando instigar e fazer acharem que ela é louca sim; mas em outros ela parece completamente insana. Esta é a questão… O que é o que em tudo isso…

    Mas espero que mesmo com o choque, tenha gostado ^^

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