Ecos de um Riso Familiar

 

Ecos de um Riso Familiar

Os olhos se abrem relutantes, mas logo hesitam em permanecem despertos. Uma forte luz parece querer cegá-los.
As mãos tentam entoa ir de auxilio para cobrir as retinas assim fragilizadas, mas percebem que não conseguem se mover. Não leve mais que isso para que eu perceba que estou toda presa. Meu corpo todo amarrado agora se encontra deitado aqui dentro desta sala diminuta, com azulejos brancos opacos e amarelados pelo tempo.
Estou sozinha.
Ninguém aqui e tento gritar, mas minha voz não sai. Na verdade, minha boca está incapaz de se abrir, como se algo a prendesse, como se linhas de costura invisíveis estivessem lacrando minhas palavras.
Meus olhos correm pelas paredes desse lugar que começa a me arrepiar. Sem portas e sem janelas, apenas o frio azulejo impessoal me faz tremer por dentro.
– Como entrei aqui? Onde estou?
“São eles, minha querida Fae!”
– Eles? Eles quem?
“ Os gatos, os gatos vieram acabar com nossa festa, minha querida rata…”
– Os gatos já estão aqui?
Mas nada pude ouvir, apenas o silêncio que perfurava meus tímpanos.
– Capitã? Ainda está ai?
Mas minha mestra não me respondeu, mas um barulho estridente rasga minha atenção. Uma gata caminha pela sala arranhando os azulejos e criando aquele abominável e torturador som. Ela sorria como se estivesse satisfeita em me ver ali daquele jeito.
Seu belo vestido negro decotado cria um grande contraste com as paredes alvas amareladas e seus pelos negros brilhantes devem ter sido lambidos por horas.
– Vamos Fae, me diga onde esconderam o queijo!
A voz dela era firme, chegava toar fundo dentro de mim e me fez hesitar de medo, mas minha certeza foi maior.
– Pode arrancar minha cauda, mas não guincharei nenhuma palavra que queres…
– Isso é o que veremos, seu animal. Acha que sua Capitã pode lhe ajudar? Sinto te decepcionar, mas aqui dentro você não tem ninguém para te ajuda.
– A Capitã nunca me abandonaria. – Eu retruco de imediato, mas sinto uma pontada de dúvida me atingir.
– Isso é o que vocês ratos pensam, mas mesmo sem saber, eu arrancarei outras coisas de você. Sua inocência é minha Fae, só minha…
Meus olhos piscam apressadamente, mas então nada mais consigo ver. Em um piscar de olhos, ela sumiu dali.
Ouço então risos ao longe e sons metálicos. A mesa onde estou deitada treme e logo sinto ela começar a se mover. Logo sinto que parece se expandir, ou algo embaixo ela que não sei. Apenas sinto-a aumentar de tamanho, puxando meu corpo com ela.
Uma sala de tortura!
Lentamente sinto meus membros sendo puxados, sinto logo a dor que começa me tomar. Me vendo no lugar das bonecas que eu tanto rasguei e arranquei pernas e braços. Mas agora, eu era a boneca a ser toda como brinquedo de tortura.
Eu grito.
Chego desejar que esse momento não dure, que tudo acabe logo para cortar essa dor e sofrimento.
Fecho os olhos quando a dor se faz mais intensa e grito. Um grito que vem de meus pulmões, arranhando minha garganta e me deixando sem ar.
Acordo suada em minha cama, com a garganta doendo e sem fôlego. Meus braços e pernas doem.
Olho em volta assustada e logo caio deitada novamente na cama; fechando os olhos aliviada, abro um sorriso.
— Foi apenas um pesadelo… Um pesadelo e dos terríveis…
Respiro aliviada, mas logo meus olhos se arregalam novamente e meu coração dispara. Meu corpo gela ao ouvir um riso conhecido e o som das unhas arranhando os azulejos do corredor…

 



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Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.