Desabafo Matinal

Hoje, ao acordar, senti-me aliviada, com a sensação de que curei-me de ti. Há anos a fio venho tratando com acuidade de um mal que só me fez bem. Todos os remédios que usei, até então, não passaram de placebos. Alguns momentos de alívio e uma intensa reação de efeitos colaterais.

Olhei para o lago artificial que ainda adormecia distante da minha janela. A água parada, de um tom azulado, trazia uma paz inexplicável. Era como se eu estivesse grávida de esperança por tempo indeterminado e naquele momento, havia dado a luz a um sentimento de liberdade.

No fundo, eu queria continuar no meu casulo, onde me parecia mais cômodo. Mas a metamorfose foi inevitável. O romper das amarras contidas por tanto tempo, trouxe uma nova tônica ao meu espaço sideral. No entanto, brindou-me com um vazio mórbido de ser.

Uma tênue reflexão perpassou a minha alma. E agora? A que sentimento eu devo recorrer como inspiração para os meus versos? Por certo, tristeza e desalento não seriam.

Um enlevo de saudade percorreu o horizonte do meu coração. Não, já não podia mais pensar em saudade no momento em que esse sentimento era hibernado.

A janela larga, com cortinas entre abertas me impulsionou a novamente olhar para o lago. Naquele momento, um veleiro branco deslizava suavemente pela água calma. Respirei aliviada, deixando-me envolver novamente pela paz que inundou a minha alma.

Apeguei-me a essa sensação.

Vesti-me da realidade cotidiana, retoquei o meu batom, peguei minha bolsa vermelha e saí apressadamente, deixando meus sentimentos, inoportunos de ser, deslizarem pelas águas calmas do lago artificial.

Desabafo Matinal

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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