Carinho Intimo

 CARINHO INTIMO
 
Somos meras sombras de um dia passado, fantasmas de um pesadelo que tentamos enterrar inutilmente.
E a ironia disso tudo vem logo em seguida, quando abrimos os olhos e percebemos que o conto de fadas nunca existiu, nunca foi algo que poderia ter sido realmente seu, um sonho utópico que nunca poderia a vir se realizar.
E nisso me pego a fitar essa janela vazia e imóvel, perdida numa paisagem mais imóvel ainda, tão estática quando esse coração que aqui tenta sobreviver. Meus olhos se distanciam, tentando ver algo que possa amenizar a dor do peito, numa ânsia desesperada por alívio apaziguador.
Mas ela está lá fora, sentada no banco do jardim, também a me fitar.
Sua face triste e pálida parece me devorar e prender meus olhos. Tento inutilmente desviar minha visão, buscar outro ponto de fuga, mas aqueles olhos inchados parecem grilhões que não me deixam fugir.
Ela estendeu sua mão em minha direção, como se estivesse tentando pegar na minha. E pode parecer estranho, mas eu sinto como se ela estivesse realmente segurando minhas mãos, apertando-a, como se elas esticassem invisíveis e atravessassem as paredes e janela do Asylum. Mãos frias. Fecho os olhos instintivamente por frações de segundos e sinto uma brisa gélida acariciar meu rosto e meus lábios, arrepiando-me e, ao abrir novamente os olhos, não estou mais na sala de convivência dessa prisão, mas sim num vazio negro, sem chão, sem paredes. Um completo e mórbido vazio negro.
Uma lágrima escorre de meus olhos aqui nessa solidão.
Dor.
Muita dor.
Tenho vontade desistir de tudo.
E então posso senti-la me abraçar. Ela está atrás de me meu corpo, abraçando meu com ternura, envolvendo seus braços frios em volta do meu debilitado invólucro carnal.
Ela me solta então e caminha para ficar frente e frente com minha face entristecida.
Posso ver compaixão em seus olhos tristes. 
Posso sentir seus dedos congelados tocar meu rosto, segurando minha face.
Posso sentir meus olhos se fechando enquanto minha visão começa ficar negra e a última coisa que pude ver era ela se aproximando mais ainda de mim.
Posso sentir todo o carinho de seu beijo em meus lábios, inebriando-me, anestesiando-me.
Os lábios se afastam dos meus e abro os olhos lentamente. Ainda não consigo sentir-me, como se aquele gesto fosse uma droga entorpecedora. E enquanto acaricia meu rosto com o gelo de sua mão, a outra toca meu peito. Vejo sua mão entrar em meu corpo com facilidade, rasgando minha carne anestesiada, abrindo meu ser sem que eu possa oferecer resistência.
Dor.
Frio.
E então ela dá um passo, se afastando d mim. Em uma de suas mãos, meu coração dá o ultimo suspiro e posso entender tudo o que senti e vivi naquela visão insana. Mas seria mesmo uma visão ou a realidade? Realmente isso não importa mais, não vai mudar meu destino, minha sina. Nada pode, nem mesmo com tudo que tentei lutar, com todas minhas forças que usei para trilhar um novo caminho em busca da felicidade. A dama negra da morte se apossou da vida de meu espírito. Sou agora apenas um corpo que segue em putrefação, aguardando o dia que este também perceba que não tem existência que lhe seja de direito.
Carinho Intimo

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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