Açucar, água e máquina

Qualquer pessoa pode ser seduzida pelo doce e convidativo sabor do açúcar. Mas será que você conhece todos os elementos químicos que o compõe? Conhece o sabor de cada um destes componentes isoladamente?

E se você pudesse? Como seria ter essa habilidade de “paladar seletivo”? Talvez isso não devesse nem ser chamado de habilidade, é algo grandioso demais para ser rotulado apenas como uma habilidade. Necessidade. Sim, uma necessidade.

Será que essa necessidade gritante e prazerosa que temos ao degustar o açúcar é a responsável por plantar essa interrogação em nossos cérebros? Será que se você pudesse dissecar o que o açúcar realmente é, em cada um dos seus elementos particulares, sua experiência seria mais prazerosa ainda? Ou talvez isso acabe apenas lhe distraindo, levando a um ponto onde você não esteja mais saboreando ao açúcar em si, mas cada um dos seus compostos menos saborosos individualmente.

E então, cada um dos destes sabores estariam acariciando seu paladar, mas logos eles estariam tão intensos que começaria um conflito interno dentro de sua boca. Sim, cada componente químico do açúcar estaria brigando com os demais por sua culpa, querendo a sua atenção somente para ele, de modo egoísta, de modo egocêntrico. O tumulto começaria a crescer, cada um puxando suas papilas gustativas para si até o ponto em que o ar começasse a faltar em seus pulmões, até que o açúcar não fosse mais o doce e sedutor açúcar, mas sim alto terrível, confuso e infinitamente complexo, que começaria a infectar sua língua, seu corpo e, por fim, seu cérebro.

É este o momento em que tudo que você mais deseja é um copo cheio de água, para acalmar a briga em sua boca e cérebro.

Mas o que existe realmente na água? Claro, se até o açúcar, em toda sua perfeição, não é puro, não é único, mas sim resultante de um conjunto de elementos, será que a água também? Do que ela é feita e de onde ela vem? Qual a razão pela qual ela parece tão pesada agora que você a ingere? Pesada e espessa, como que se estivesse carregando um amargo, pesado e triste fardo.

Claro que a água passa por um longo e minucioso tratamento para que ela se torne apta para o consumo, extraindo suas impurezas e demais detalhes nocivos à nossa saúde. Mas nem todos os problemas são apenas físicos, os mais sofríveis são sempre os psicológicos.

As pessoas fervem o temperamento da água sem nenhum remorso, depois simplesmente a congelam sem notarem que seu coração também para. Ela é usada para retirar todas as impurezas, dores e pesos, levando tudo consigo ralo abaixo, criando mais uma cicatriz em seu peito. E depois de estar acabada, é arrastada entre detritos nos esgotos, sendo tratada como se ela também fosse um lixo. Mas a água também tem sentimentos e, mesmo depois que a levem novamente para um divã de psicanalise de uma estação de tratamento de água, as cicatrizes de suas batalhas e perdas já estão cravadas, sem retorno.

A água é uma vítima, que carrega tudo de ruim por onde passa. É amarguradamente deturpada pelas cinzas de pessoas e tempos a muito esquecidos e abandonados, é prensada por duras e impiedosas rochas em impunes sessões de tortura pública.

É simplesmente por tudo isso que lhe afirmo que a água é como o açúcar, pois o seu sabor não lhe pertence, é apenas uma consequência de sua composição e história, de tudo que carrega por onde passou, por onde viveu, por onde sofreu. É por isso que as vezes ela tem esse gosto viscoso, espesso, amargo, como sangue.

Sim, sangue também… A água pode ter sido manchada e ferida com sangue, próprio ou de outra pessoa.

Eles dizem que a Ofélia se afogou. Afogou a si mesma, afogou-se em sentidos, afogou-se em sons, afogou-se em vozes, afogou-se em infelicidade e sem ninguém para ouvi-la. Então a água deste copo pode estar carregando todo o sofrimento que em tempos passados afogaram a Ofélia.

Se o açúcar não é simplesmente o açúcar que conhecemos… Se a água não como imaginávamos que fosse… Isso quer dizer que nós também não somos quem achamos que somos?

BINGO!

Nós somos máquinas, todos nós…

E o que uma máquina faz quando começam a lhe designar coisas demais para serem realizadas? Quando muito carvão, muita tinta, muita informação é violentamente forçada dentro de seus canais? A máquina gagueja, ela se asfixia e, finalmente, ela se desliga, ela morre.

Adivinhe então o que eles fazem com as máquinas com problemas? Com as máquinas improdutivas ou que nunca mais poderão trabalhar como deveriam? Sim, pois mesmo uma máquina com desempenho abaixo do desejado também é defeituosa, falha, quebrada. E existe apenas um destino para elas.

Sete pecados, sete dores, sete perdas, sete palmos de distância para seu adeus.

Açucar, água e máquina

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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