A Lady de Shallot (Versão para Homens)

Lady de Shalott, amaldiçoada, vivendo em uma masmorra, sua vida se resume a ficar dentro da masmorra, olhando pela janela por um espelho, para um mundo que nunca poderia alcançar, um mundo que parecia nem ser o mundo que ela vivia, um mundo vivo, cheio de alegrias, pessoas e coisas a se fazer e do qual ela não fazia parte. Anos e anos passaram com seus olhos no espelho, tentando ver mais e mais do que acontecia la fora, um dia algo diferente aconteceu, um homem lhe chamou a atenção, o primeiro entre tantos que ali haviam passado, e ele começou a passar sempre por aquele caminho, sempre por seu espelho, sempre por seus pensamentos.

Se um dia ela havia pensado em amor com certeza não acreditava que pudesse acontecer tal coisa consigo, dentro daquela masmorra úmida e malcheirosa, sem esperança de alcançar outro ser humano, mas aconteceu, tão repentinamente, tão intenso, tão vivo, vida, algo que para ela já estava em segundo plano, pelo menos a dela, ela queria, ela ansiava por seu príncipe, ela ansiava por Lancelot.

O anseio se tornou desespero depois de ver tantas e tantas vezes sua face refletida, seus olhos tão intensos e vivos, sua pele tão macia, tudo tão perto e tão longe, seu coração já não aguentava mais de tanta dor, de tanta vontade de encontrar seu amado, a maldição que havia sobre ela não existia mais em sua mente, apenas Lancelot existia e apenas a vontade de ver ele restou em seu corpo, andou, ultrapassou a porta, agarrou-se ao barco e com todas as forças restantes em seu corpo, remou o mais rápido que pode, mas nem toda força, amor e paixão que havia em seu peito foram suficientes para vencer as ondas e a correnteza e o dia que havia nascido tão belo naquela manhã agora só restava uma fria escuridão sem nenhum sinal de qualquer luz.

“Lady de Shalott, Lady de Shalott” disse uma voz em sua mente “É chegada a sua hora, hora de enfrentar seu destino e existir ao lado de outras ladys”

“Não, não, eu ainda preciso fazer algo.” Respondeu a Lady.

“Então se ainda quer uma chance, tens que responder-me uma pergunta do fundo do seu coração.” Disse a voz gélida e seca.

“Eu quero, por favor.” Disse a Lady implorando para que lhe fosse dada outra oportunidade de saborear a vida.

Depois de um breve momento de silêncio a voz fria disse: “O que é o amor?”

Lady de Shalott ficou por instantes intermináveis em busca da verdadeira resposta, aquela que em seu coração vivia que em seu peito restava.

“O amor é um sentimento que nos faz ultrapassar todas as barreiras da vida, possíveis e impossíveis para alcançar a felicidade de quem se ama, pois nada mais importa se não ver a pessoa que amamos feliz, não é?” disse um tanto insegura por fim.

Silêncio, um silêncio que perdurou segundos infinitos na mente da Lady de Shalott.

“Tens um dia para achar seu amado, depois deste dia terá que voltar para a masmorra, mas entenda, este dia fora terá um leve preço a ser cobrado no final de sua viagem. Agora vá criança.”

Um “obrigada” soou como um eco dentro da sua mente e tudo que havia se tornado escuro permaneceu escuro, tudo que, era frio, permaneceu frio, e o medo de nunca mais ver a luz tomou conta da Lady de Shalott, mas foi então que ela notou que não era mais dia, não era mais quente e ela conseguia ver o chão, que estava muito perto do seu rosto, a areia havia entrado em seu corpo e ela estava toda molhada, as ondas batiam em seu vestido e seus olhos ardiam. Foi difícil ficar de pé, mas nada mais a impediria de ir atrás de seu príncipe.

O sol nasceu bem a sua frente enquanto caminhava para Camelot, a floresta tinha um aroma incrível, rosas e terra molhada, com um leve cheiro de mar, cheiro que antes era único agora misturado a outros odores não parecia tão insuportável mais.

Quando Camelot apareceu diante de seus olhos, de verdade, não mais aquela Camelot que ela sonhava e que em seus sonhos era linda e com um estranho sabor de ameixas frescas, agora ela via e sentia o cheiro fétido do esgoto a céu aberto, o delicioso gosto de ameixa fresca que sentia em sua boca agora era trocado por um gosto ácido, gosto dos sucos gástricos do estomago, sentia uma ânsia quase insuportável e quando achou que não aguentaria mais aquele cheiro, aquele barulho ela se esqueceu de tudo, era Lancelot, a sua frente entrando em um dos muitos estabelecimentos daquela movimentada rua de Camelot.

Os homens eram feios, imundos e mal cheirosos, e ainda mexiam com ela, tentava levantar seu vestido, o hálito deles era pavoroso e a cada segundo mais que passava naquela taberna mais ela queria voltar para sua “casa”, para seu canto de paz e sossego, mas precisava de Lancelot, queria Lancelot, mas a coragem lhe faltava.

Depois de muito a coragem veio, não sentiu seu corpo se movendo, não sentiu suas pernas e pés andarem, não sentiu o peso de cada passo, não sentiu nada, sua cabeça girava e nem sabia ainda o que iria falar para ele. Quando parou em sua frente sentiu nele, o mesmo hálito de havia sentido antes nos outros homens, além do hálito fétido, havia também aquele calor vindo dele, aquele cheiro quente de suor, que predominava naquele lugar, aquele cheiro azedo tomava conta de tudo a sua volta e impregnava em suas narinas.

Lancelot estava bêbado, como todos ali dentro, e o que ela não via de longe é que havia mais duas mulheres na mesa com ele, uma com a mão dentro de suas calças.

“Pois não madame” disse Lancelot, tentando em vão lançar o seu charme, que bêbado era totalmente um anti-charme, principalmente para uma moça bastante sóbria.

Por alguns segundos ela ficou só olhando para ele, não acreditava que aquele era seu príncipe encantado, não acreditava que aquele homem libertino, bêbado e fétido era o homem por quem havia se apaixonado e assim como havia lido milhares de vezes em seus livros, passaria pelo dragão e a tiraria da masmorra, agora ela entendia porque chamavam estas histórias de contos de fadas, porque fadas não existem, e o que havia nessas historias também não existiam.

“Desculpe-me milady, esta procurando por alguma coisa, ou alguém? Acredito que se precisar de alguma coisa eu posso lhe ajudar.” Disse Lancelot antes de ver a adorável e bela moça sair correndo daquela taberna, e desaparecer no meio da multidão nas ruas de Camelot, não sabia de onde tinha vindo tal moça, mas se sabia de algo é de que nunca mais a veria de novo, por sorte dele estava muito bêbado e no dia seguinte, não, nos próximos minutos esqueceria-se daquela mulher, afinal, que mulher? Ele voltou para a taberna e agarrou as duas moças que estavam em sua mesa e nunca mais voltou a pensar na Lady de Shalott.

As lágrimas atrapalhavam sua visão e dificultavam em muito sua corrida, caiu diversas vezes no chão e suas mão já estavam ensanguentadas de tantos machucados, seus joelhos ardiam a cada passo que dava, podia sentir o sangue quente escorrendo deles, quando finalmente chegou à praia já era noite e estava ainda mais frio que na noite anterior, seus olhos ardiam e coçavam, mas ainda não estava em casa, tinha muito a remar ainda e muito ao que enfrentar, mas o barco que ela achou que a havia trazido a terra firme não estava mais ali, nenhum sinal dele a não ser algumas madeiras espalhadas pela praia, quando pegou um escrito Shalott ela percebeu que não havia mais barco, e não havia mais esperança para ela, logo iria dar um dia que estava fora e dessa vez não restaria nada a ela a não ser a escuridão e o frio.

Mas havia feito tanto naquele dia, havia andado por pedras que machucaram seus pés, enfrentado a cidade, os homens fétidos, enfrentado a vergonha e o medo, o caminho de volta, as plantas, todo aquele sangue derramado, não seria em vão, tomou coragem mais uma vez, se despiu por completa e se jogou no mar, à noite, com apenas uma luz fraca vindo da masmorra para guiar ela, enfrentou o medo, escuridão e o desconhecido por debaixo daquelas águas.

Sol, calor e uma cama macia, Lady de Shalott acordou em sua cama, e não se atreveu mais a olhar para fora, tudo foi como um sonho, se não fosse o fato de seus ferimentos terem infeccionado poucas semanas depois e devido a isso ela perdeu o movimento das duas pernas do joelho para baixo, como disse a voz gélida e seca, este dia fora teve seu preço que foi cobrado. Nunca mais Lady de Shalott conseguiu andar de novo e nunca mais ela tentou sair da masmorra que era sua prisão e seu lar.

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Está é apenas uma obra de ficção, que não busca realizar fortes críticas sobre machismo, feminismo, buscando apenas ser um texto de leitura “agradável”.

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.