A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (04)

Continuação… Parte (04)

Após o incidente com o Grifo e o bolinho de aniversário, o rapaz e o novo estranho seguiam viagem rumo ao leste, seguindo a intensidade do frio conforme a escuridão.

Você olha para o céu como se soubesse oq tem lá.

As estrelas são bem grandes, olhe! São tantas cores e aqui é tão escuro, como podem não conseguir iluminar?

Sempre quis colocar uma mochila nas costas e viajar o mundo… Conhecer tudo…
Pois olha eu aqui nesse mundo todo maluco.
Eu consigo me sentir em paz aqui, você pode sentir?
Um dia ainda quero aprender a voar, só para no meio dessas estrelas ficar.
Deve ser lindo ver isso de perto, se eu fechar um olho e enchergar só com o outro e esticar meu braço, tenho a impressão de alcança-las, rsrsrs é engraçado…
Tente pra vc ver!

💧

Oq foi? Falei algo que não deveria?
Me desculpe, deveria manter silêncio.

Estas estrelas já estiveram aqui Helquim, sabia?
Todas as cores que você vê lá em cima, estiveram aqui em baixo também um dia…

Uau! (com os olhos arregalado e refletindo em seu brilho aquele céu tão sortido) Como isso é possível?

Com coragem Helquim, coragem.

Não entendo…

Dentro de um coração cabe o infinito, nele tudo é possível.
Me lembro desse lugar sem uma só planta, só tinha a terra bem fofinha e uma casinha pequena.
Mas um dia o broto de um verde bem clarinho foi cresendo com a promessa de ocupar tudo isso, aos poucos essa muda virou várias, várias outras, e cheia de mudinhas ficou a terra fofa. (Rsrs)

Você conta de um jeito engraçado, fala rimando… Eu gosto disso, até te vi dar um sorriso!

Ninguém está sorrindo aqui Emoticon squint

Você sorriu sim, sorriu que eu vi!
Mas tmbm olha pra esse céu, da vontade de sorrir ainda mais se pensar que tudo isso estava aqui.

Emoticon squint

Continue, me conte…
Eu quero saber mais.
Desfaça essa cara rapaz rs.

Bruno olha pra ele com a estranha sensação de conhece-lo realmente, pensamentos e respostas quase saem juntos novamente.

(Eu me sentia mais velho e responsável com aqueles olhos castanhos apertadinhos refletindo o infinito me olhando, ele me chamar de “rapaz” soava estranho) Estas estrelas foram caindo e algumas mudas foram atingindo, as que acertavam enchiam de luz, era de uma luz forte e tudo bem colorido, tão fácil quanto magia tudo virou uma floresta que a noite como esse céu se ascendia.
Era o lugar mais incrível que os pés de alguém tocou.
Uma terra mágica e cheia de vida, um canto único pra alguém especial, que ironicamente nunca se sentiu especial.

Oq mais?

Você precisa de mais?

Não, isso é incrível, mas oq vem depois?
Oq aconteceu nesse lugar?

Nada que um coração possa se alegrar, vamos, levante.
Temos que partir.

Partir!?
Não, partir não…
Vamos ficar aqui.

E com essas frases vançou no braço dele como se fosse o segurar.
Ele parecia temer sair daquele lugar, mas foi quando algo estranho aconteceu…
Como um fantasma ou algo do tipo, Helquim passou como alguém transparente, se disequilibrou e caiu naquele chão de pedras ásperas frias.

Mas que diabos é vc?!
E porq avançou em mim desse jeito?
(a imagem dele caindo me deixou mais apavorado do que a dele sumindo, quase que por um instinto tentei socorrer como se fosse um pqueno menino)

Sou tão real quanto você, pelo visto só não posso tocar em você.
Vamos ficar, olha só pra isso! me deixa lembrar desse pequeno infinito. (💧)

Do que você está falando?

Eu não sei, eu não posso dizer, mas porq partir?
Posso ficar aqui com vc!

Eu não sei quem é você ou o que faz aqui, tudo oq sei sobre você é o que me disse Helquim.
Eu só posso te ver e ouvir mas não pode me tocar, quem garante pra vc que está mesmo nesse lugar?
Voltar no lugar aonde eu mais quis estar e encontrar uma floresta tão escura e destruida que mal lembra o lugar q viví é muito mais dolorido do que o seu medo de sair.

O frio na sua pele também toca a minha, se aqui está você porq eu também não estaria?
Pode existir nada no Leste em que vc quer chegar, vamos ficar aqui olha esse lugar…

Nesse momento uma lembrança sozinha foi retornando, era ele sentado em frente a uma mezinha, cortando muitos laços e fitinhas e em pequenos rolinhos de papéu um por um amarrando.
Em um estava escrito…

“Seja como lobo todas as noites ou homem durante o dia, te guardarei como se fosse a minha própria vida”

Esta lembrança causou um estrondo, um barulho tão forte que um terrível tremor foi sentido em todos os cantos, as estrelas que antes estavam naquele cantinho do mundo tão visíveis e coloridas, foram todas apagando e sumindo uma por uma, até não restar umazinha.

Vê Helquim, nada mais brilha nesse lugar, é um mundo fadado a nunca mais brilhar.
Quem sabe até acabar…
Enfim, você hoje esteve muito falante, agindo até como se me conhecesse, tá com muita liberdade em… Emoticon squint
Vambora ou vai ficar aqui?

Helquim sem dizer nada apenas olhando para a escuridão acima como se ainda procurasse as estrelas coloridas começa a seguir seu parceiro pela escura trilha.

Tão rápido quanto o vento, corre Luscious pela floresta apenas com a coragem como sua amiga.
A Féra está ferida, e tem nos olhos saudades de quem era e dias vividos com alegria.
Sua essência brota em uma aura dourada iluminando o caminho que corria.
Então era isso, o Grifo revelou a essência da Féra, que por um amor que ocupava tudo nele, por fora e por dentro corria pela noite pra enfrentar seu destino.
O peito ardia e a saudade feria com lembranças que para sempre ficariam.
Do amor que viveu
Do amor que lutou
Do amor que sentiu e pra sempre lembrou.
Do carinho no olhar
Do sorriso sem jeito
Dos olhos castanhos e o mexer no cabelo.
Da risada gostosa
Da vóz tão bonita
Das lágrimas naquele rosto que como um Heroi protegia.

Luscious era a parte mais nobre daquele peito, a grande e destemida Féra, estabanada e meio sem jeito, se revela agora o Heroi dourado de seu próprio reino.

Joana a menina sem rosto, vê de longe o brilho do velho amigo se destacando na escuridão, vindo em sua direção.
Aquilo é diferente de tudo o que ela viu, e ao contrário do que muitos podem estar pensando, Joana sabe que aquilo não é bom.

Da janela de sua casa ela estende a mão na direção de Luscoius e com força e determinação usa a magia vinda do coração…

“Acalma-te coração que um dia já foi valente
Eu conheço a tua dor pois de você sou parte e mente.
Acalma-te coração de Féra, a sua dor também é minha, não à noites e nem dias em que você esteja sozinha, pois suas lembranças também são as minhas.
Acalma-te coração que pulsa vivo e quente, pois com sua luz o meu também se ascende.”

A longa distância Luscious da um salto de quilômetros, caindo bem na frente da janela da menina, e com aqueles olhos brilhantes ele diz:

  • Fazendo magia, pequenina?

  • Luscious! Me assustou…
    Porq você está assim?
    Que brilho é esse, está diferente posso sentir.

  • É chegada a hora coleguinha.

  • Você não está bem, e se você não está bem eu não estou bem.
    Sou parte de você tanto quanto você é de mim, o que esconde?

Com as mãos no fucinho de Luscious ela sente o calor do amigo, o rosto molhado mesmo com o brilho.

  • É chegada a hora pequenina, as tintas da esperança logo logo terminam, e essa história não será mais escrita.

  • Mas isso não significa nosso fim.

  • Nunca!
    Apenas não será mais escrita, mas enquanto existir tinta temos que mostrar a Helquim o mapa desta ilha.

  • O Grifo veio aqui, não o recebi.
    Grande dor me fez sentir.

  • Não a culpo, mas ele é sozinho.
    O fragmento de verdade em alguém tão…
    Bom, em alguém tão… que no final dessa história você vai ver.

  • O bem sempre vence Luscious, o bem sempre vence.
    E se não venceu… Significa que ainda não acabou.

  • Exatamente pequenina, exatamente!

  • Eu estou com medo Luscious, não gosto disso…

  • Joana, deixe a Luz sair, só com ela você poderá fazer o bem que está por vir.
    Achernar tem um plano e mais uma vez, uma última vez precisará de você e de mim.

Luscious olha para a pequena com uma emoção no olhar que ela sabe decifrar, triste e igualmente emocionada a pequena abre o guarda roupas, tira dele uma jaqueta de couro preta, no estilo motoqueira.
Por cima de seu vestidinho ela veste a jaqueta, olha para as mangas sobrando em seus punhos, é grande para ela, então de quem seria?
A menina faz um gesto com a mão e com mágica, sua vitrola antiga começa a tocar Enya – Silver Inches.
Nesse momento a menina passa as mãos no próprio rosto com uma aura vermelha de pura magia.
Seus olhos, contornos e boca, voltam a dar luz ao rosto da moça.
Com um choro sentido ela começa a se abraçar, sentindo a jaqueta fria tocar sua pele na saudade de um dia que ela não pôde provar.
Joana se ascende de baixo a cima, uma aura vermelha contorna a menina que agora se põe a falar:

  • Todos os seus sonhos eu ouvi e encoragei,
    Desenhei em suas lembranças com cores nobres que só em você usei.
    No meu pequeno faz de conta ilusão quis se tornar, me deixando na solidão… Foi o que fez ao se curar.
    Não tenho ouro, não tenho prata, bem material só lápis e borracha.
    Mas riqueza nenhuma compra no mundo algo igual ao que por ti eu sentia.
    Era puro e sem dor, não tinha cobrança ou mentira, só tinha a saudade de te ver mais um dia.
    Lápis e tintas é oq tenho nas mãos, mas pra alguém como você é pouco, que assim seja então…

“Volte luz no coração do alguém que aqui sou eu,
Parte viva e emoção de um alguém que ele esqueceu.
Volte luz ao meu ser, mais uma vez me faça brilhar, uma última vez, um último brilho, custe a mim o que custar.”

E castando essa magia a menina brilhava como uma fada, de tão linda.
Vermelho era a cor da menina que agora vestindo a jaqueta e seu vestido de bolinha, montava em Luscious deixando sua casinha.
Com os olhos azuis grandes e espelhados, Joana vê ao longe sumir com a distância sua casa, seu pequeno reino encantado.

São dois agora os pontos brilhantes em toda aquela escuridão, um vermelho e outro dourado.
Em cima de Luscious, Joana montada observa o rastro na escuridão.
Por onde passam e aquele rastro de luz fica, mesmo que por poucos segundos as coisas voltam a ter cores e vida.
Joana se descontrola e com um grito chama Luscious e chora:

  • Luscious veja! É vida!
    Mas eu estou sumindo… (💧)

  • Sim Joana é vida, é a nossa força de vida.
    Segura firme pois juntos somos mais fortes, juntos temos mais vida, temos que ir mais rápido!

  • Aonde estamos indo?

  • Buscar o Rei, buscar o Rei Dormente.

Você tem na boca o poder de mudar um mundo, na ponta da língua as palavras que curam, constroem ou destroem tudo.
Estes foram os pensamentos que vieram a mente do estranho visitar.
Deitado ali, no chão gelado, coberto com a blusa que trazia consigo.
Um travesseiro de folhas arranjado é o que lhe apoia o rosto enquanto olha para o rapaz parado na beira do penhasco.
Bruno está na beira do penhasco olhando para o vazio daquele mundo.
Em sua frente um precipício sem fim, nada no horizonte além de escuro e frio.
O estranho permanece deitado, observando sem fazer ruidos, fingindo que está dormindo ele continua a observar.

Pensamentos tomam o palco principal nessa hora de tanta solidão…

  • Não vejo o horizonte, o quê deve ter lá na frente ou aqui em baixo?
    Seja o que for não deve ser tão vazio quanto estou me sentindo nesse momento.
    Vim para cá encontrar um Eu mais forte, um Eu como devo ser.
    Agora, nesse momento não sinto mais a Razão comigo, ele disse que estaria comigo mesmo que eu não o ouvisse, mas hoje, agora e aqui, eu me sinto emotivo novamente.
    Sinto a emoção de cada árvore dessa que um dia já sorriu, já viveu.
    Sinto a ausência do vendo cheio de vida com o calor da tarde.
    Sinto a falta do calor do sol, o calor por dentro.
    Eu sinto.
    Não queria sentir, mas sinto.
    Sinto tudo tão vivo e a flor da pele que quase posso ver meu coração só com oq sinto.
    Sinto falta desse lugar, falta de como era, falta do verde, falta da cor.

O rapaz concentrado em seus pensamentos e no precipício a sua frente, não percebe que algo está a acontecer ao seu redor.

  • Tinha alguém aqui comigo, alguém que me deixou sozinho.
    Será que eu sou tão ruim assim como companhia kct?
    Talvez isso aquela Feiticeira possa me responder, a Féra, até a menina Joana, eles dizem me conhecer, talvez possam responder.
    Aonde está a Razão quando mais preciso dela…
    Quem estava aqui comigo?
    Quem de deixou sozinho?
    O que eu fiz pra ficar aqui sozinho inferno?
    Não quero passar minha vida toda com essas perguntas.
    Espero que o tal Rei possa responder…
    Porq eu estou cansado, esgotado, exaurido…

Neste momento uma massa de ar bate no peito dele, e com ela um impulso de verdades:

  • Estou cansado de chorar, cansado de andar, cansado de brigar, cansado de escrever.
    Estou cansado de lembrar, lembrar do som da sua vóz, do seu sorriso, de como era estar com você.
    Queria nesse momento me lembrar do seu rosto, mas perdeu a identidade quando você virou Mentira.
    Quem é você?
    Quem é você?
    Quem é você?
    Quem é você?!
    Quem é você, que entrou no meu mundo, derrotou meus dragões, derrubou meus muros, entrou em minha casa e bagunçou tudo!
    Quem é você!?
    Quem sou eu…

Todo o seu corpo ficou quente, com o calor do Sol na palma das mãos ele fechou os olhos e erradiou calor e vida, estava rodeado por borboletas azuis fluorescentes no momento em que acontecia.
As mesmas borboletas que antes devoraram a pequena criança, e que em um outro tempo eram azuis e lindas, alí estavam aos bandos…
Formavam um espiral em sua volta, quanto mais perto chegavam, mais brilhantes e azuis ficavam…
Era como se dele viesse a força que elas precisavam para voltar a ser o que já foram um dia.
As borboletas dançavam e ascendiam, formando um espiral de cor e magia.
Por um momento ele consegue ver novamente um pedaço de tudo o que aquele lugar teve de bom um dia.
Seus pensamentos e falas cessam durante esse mágico momento.
Seus olhos brilham em um negro extremamente sombrio, com total ausência de vida.
Os mesmos olhos que a instantes atrás eram verdes, agora em um vil negro assumia.

Aquilo deixa o estranho que até então fingia estar dormindo, intrigado.
Olhar o rapaz daquele jeito lhe causa medo, e ao mesmo tempo é algo fascinante.

O Rapaz olhando para as borboletas que estão voltando a sua antiga forma, todas unidas em uma dança mística.
Com as mãos tão acesas quanto o sol, ele também começa a dançar, cantando com um ar muito estranho naquele momento:

“Et my baby walking downtown
Caught my eye with his black, heart-shaped tattoo
I can see what’s professional
He knows just how much to be cool
I never knew he was a dancer
Now he’s walking me in circles across the floor
Hold on to me cause I’m going blind
I’m not feeling lonely anymore

Let’s go, let’s go deep inside
Am I the only one believing that this could be something beautiful?
Don’t try, don’t try to hide
The darkness you reveal could make you come alive

Come alive, come alive, come alive

I’m just giving you a hard time
Never knew you were an inner beauty
Only thought you were a pretty face
Pick me up and take me out tonight
You could meet me at the highline
We could act like we are tourists in New York
The city lights up like a diamond there
I think you could shine as bright

Let’s go, let’s go deep inside
Am I the only one believing that this could be something beautiful?
Don’t try, don’t try to hide
The darkness you reveal could make you come alive

Come alive, come alive, come alive

Let’s go, let’s go deep inside
Am I the only one believing that this could be something beautiful?
Don’t try, don’t try to hide
The darkness you reveal could make you come alive
Come alive, come alive, come alive, come alive

The darkness you reveal could make you come alive (come alive)
The darkness you reveal could make you come alive (come alive)
The darkness you reveal could make you come alive (come alive)
The darkness you reveal could make you come alive (come alive)”

  • The Pieces – Come Alive.

Saltitando diabolicamente para um lado e para o outro, já nem parece mais a mesma pessoa no final da música.
Brincando naquele pedacinho de passado vivo, ele é a única coisa que não combina alí.
As borboletas percebem algo errado, antes que fujam, erguendo as mãos ele ateia fogo em todas.
Sem disfarçar a satisfação no sorriso malicioso ele continua dançando uma valça mórbida enquanto todas as borboletas vão caindo mortas e queimadas.

Olhando ao redor, o pequeno espaço que a pouco ganhou vida, ele agacha colocando a mão no chão e queima todo o resto.

Olha para frente e vê Helquim deitado, ainda “dormindo.”
Nesse momento o coração do estranho gela.
O rapaz se levanta do chão, segue caminhando em direção a Helquim.
Chega bem perto, e sussurra no ouvido do estranho:

  • Ele pode não saber, mas Eu sei quem Você é.

Aquela frase arrepia todo o corpo do estranho que naquele momento realmente queria estar dormindo.
Bruno se afasta e deita em cima das borboletas queimadas, alí ele dorme.
Se naquela floresta existisse luz do dia, então logo amanheceria, toda aquela cena sem explicação lógica confunde a cabeça do estranho, quê agora não iria mais dormir, e sim, pensar.
Movido por algo novo, o estranho depois de tanto pensar, se levanta e vai deitar-se junto dele, divide a blusa que servia de cobertor e ali descansa, na cama de borboletas mortas.

Aquela noite em particular foi a noite mais fria e triste de toda a história do lugar.
Por mais que seus sentimentos, personalidades estivessem movendo-se independentes, nada conseguiu evitar o que aconteceu com aquelas borboletas.
Nada conseguiu evitar aqueles olhos.
Nada conseguiu evitar aquela dança.
Nada conseguiu evitar a energia que se moveu de dentro para fora.
Nada evitou.
Mas o que seria aquilo, ou o que causou aquilo?
Uma força tão perversa estava por vir e aquele tinha sido o anúncio.

Estou aqui sentada, enquanto escrevo observo muitas coisas acontecerem.
Não sei que idéia você faz a respeito da minha imagem, nem da minha vóz, mas posso te garantir que sempre terei o aspecto que você imaginar.
A Esperança vem das profundezas, é a velha que nunca dorme, a senhora que ama chá, que escreve com letra bonita, é a idosa que só escreve a lápis.
Eu sou aquela que te conhece de verdade, aquela de quem você não se esconde, ouço seus gemidos quando está sozinho, o homem se moderniza, tem internet, Facebook, instagram…
Pegou o hábito de colocar os sentimentos ao lado de sua modernidade, não Eu.
Eu sou a única que você não mudará, sou a única que não importa o que escreva, o que filme, o que ilustre, a mim não vai ludibriar.
Eu gosto de chá, gosto de luz fraca para escrever, gosto de ter os pés quentes, e de olhar para o que estou escrevendo antes de rabiscar.
Essa história pode não ter um final feliz ainda, mas não deixa de ser uma história bonita.
Afinal, quem cria um universo pra explicar um amor hoje em dia?
Você acha que tudo está como deveria estar, mas se esquece de que sentimentos são anteriores ao homem.
Antes do homem ser criado, sentimentos já existiam.
Foram agregados ao coração humano, mas são tão antigos quanto a idéia de criar o ser humano.
Estou velha, fora de moda…
Mas não existe no universo velha mais antiga.
Lutei todas as batalhas que existiram desde o nascimento dos dias, e só venceram os que me conheciam.
Essa história é uma história bonita.
E diferente do que parece, tmbm não é sobre o protagonista.
Essa história conta detalhes sobre um lugar que existe, uma pessoa que não aparece, sentimentos perdidos, personalidades de duas vidas.
Ah meu caro, a vida é longa…
Diferente do que pensam, a vida é longa.
Meça a vida nas noites em que sua única companhia for as dores de lembranças um dia vividas.
Meça a vida em dias que o relógio para ou tiver preguiça de caminhar.
Meça a vida quando lembrar dos erros for a coisa mais inevitável do seu dia.
Lembre-se de medir o quão longa pode ser a vida quando arrependimentos te mandarem me procurar, quando te disserem, Esperança.

Com mãos quentes o jovem agora acorda e vê os olhos de Helquim arregalados o encarando.

  • Porquê está me olhando assim?
    Aliás porq está deitado aqui comigo?
    Por falar nisso, o que é isso tudo queimado?!

O estranho não responde mas continua olhando para ele.

  • O que é isso cara, o que vc fez aqui Helquim?

  • Eu fiz?
    Tem certeza que foi eu quem fez alguma coisa?

  • Se não foi você quem foi então?
    Meu Deus que horror, por quê eu dormi nisso?

  • Você não se lembra de nada?

Ele para com a agitação por um momento e se concentra em pensar…
Nada vem.

  • Não importa, o que importa é que precisamos encontrar o lugar aonde você quer chegar, e rápido.

  • Porq?
    Porq está falando assim?

  • Porq você não merece isso.
    Você não merece nada disso, nem ser como ficou ontem.
    Você não merece.

  • O que aconteceu aqui Helquim?

  • Você precisa ir embora desse lugar, e rápido.
    Vamos, vamos atrás do seu Rei Dormente.

E assim seguiram caminho pela floresta, sumindo na neblina.

Luscious correndo o mais veloz que pode cortando a neblina com cor e vida chega finalmente aonde estaria o Rei da Floresta de Helquim.

  • Joana desça, chegamos.

  • É aqui?

  • Sim, é aqui.

  • Eu entendo, agora posso me lembrar…
    Nunca pensei em voltar a este lugar.

  • Eu também minha amiga, eu também.
    Nosso Rei está lá dentro, preciso entrar, você me espera aqui.

  • Eu não vou ficar sozinha aqui fora, além do mais, sozinha essa floresta vai exaurir toda a minha força de vida, vou desaparecer lembra?

  • Prometo que será rápido não viemos pra ficar, vou ser muito rápido.
    Fique aqui.

E assim Luscious, o Valente e Destemido guerreiro se aproxima de uma casa velha, deteriorada e cheia de galhos a invadindo.
Ao chegar próximo da porta, ela se abre.
Joana tenta ver o que acontece mas não consegue, Luscious é grande.
Instantes depois Luscious se vira e vem na direção de Joana com os olhos muito abatidos e um pesar no rosto extremamente angustiante.
Em seu colo uma criança.
Joana não entende nada, e sem entender continua, nervosa e bem ansiosa ela pergunta a Luscious o que seria aquilo:

  • O que aconteceu, o que é isso, ou melhor quem é essa criança?

  • Você não se lembra?
    Esse é o nosso Rei Joana, não se lembra?

Joana assente com a cabeça como se não estivesse entendendo o que está acontecendo ali.
Então Luscious respeitosamente diz olhando para o menino:

  • 🐜 Majestade…

E em seguida a criança tira o rosto que estava escondido no pescoço quentinho de Luscious e olha para Joana, a menina começa a tremer de cima a baixo e cai de joelhos.
Um olho castanho, o outro verde.
Cabelo liso, preto como a noite.
Nariz redondinho, boca pequena e carnuda.
Este era o rosto do Rei menino.
Luscious se abaixa e a criança toca o rosto de Joana lhe trazendo vivas memórias…

“Desesperado, triste e sozinho ele avista de longe um furioso ciclone de tamanho inimaginável, que se formou e vem destruindo tudo em seu caminho.
Nesse momento ele chora por ver tanta destruição em um lugar tão bonito.
Com lágrimas no rosto a luz em seu peito oscila, é o coração todo machucado, ferido, humilhado, segurando a porta em que a Razão empurra furiosa tentando derrubar.
O Coração escora uma porta com as costas, olha para uma criança linda, um garotinho de cabelo escuro, um olho verde e o outro castanho, assustado e com medo daquilo.
Então o coração pede pra a criança não olhar.
Com a luz que ainda lhe resta o coração fala com o rapaz.

  • Bruno não desista, eu estou bem, foram só uns arranhões, eu estou bem, não deixe ela entrar.

Depois disso a luz some.
Com uma dor lacerante no peito o jovem pede:

Helquim me ajude, por favor alguém me ajude.
Porq está acontecendo isso…(💧)

Ele olha para baixo e vê Luscious a formiga, fazendo força como se segurasse uma tábua que dali quase se desprendia, do outro lado joaninhas, tentando fazer a mesma coisa.
Achernar a estrela, olha de lá de cima aquilo tudo e é tomada por uma emoção extremamente forte e desconhecida.
Invade o mundo em ruinas e com uma explosão de luz interrompe por poucos instantes a destruição que logo vinha.
Se aproxima de Luscious e uma Joaninha, pergunta a eles se o que eles tem de melhor, sacrificariam.
Respondem com tal atitude, Luscious entrega a Achernar dez vezes a sua força e criatividade para resolver problemas na vida, pois é tudo o que de melhor a formiga tinha.
A joaninha entrega sua paciência e serenidade, o bom humor que era o que de mais valioso ela tinha.
Achernar tira de si própria a Luz, e coisas felizes de seu coração.
Luscious pergunta a Achernar oq vai acontecer com o rapaz, ela responde dizendo que uma chance ele vai ter.
Antes que sua magia de proteção acabasse, Achernar mistura as qualidades obtidas e sacrifica em outra magia:

  • 🌟 Deixe essa criança que seu coração quer proteger, ela é um sentimento que quem fez foi embora e já não quer mais você.
    A luz em seu peito um dia pode voltar a brilhar, e com dez vezes mais força vc levantará.
    Com paciência, serenidade e bom humor cuidará das feridas hoje infligidas.
    Coisas felizes do coração de uma estrela você sentirá, basta buscar a Luz por mais escuros que os dias possam ficar.

Um clarão irompe de tudo aquilo, apenas barulhos horríveis e um estrondo é ouvido.”

Joana sofre ao se lembrar deste dia, agora a menina chora convulsivamente e ainda muito digna curva a cabeça e com respeito cumprimenta a criança:

  • 🐞Majestade…

Conversas são ouvidas próximas dalí, Luscious se levanta e entrega o Rei a Joana.
Pede a ela que monte nele logo pois precisam sair dalí rápido.
Ela o bedece e eles partem.
Luscious muito veloz chora e soluça.
Joana se vira e vê os dois rapazes chegando na casa velha de madeira aonde o Rei estava.
Quando Joana vê quem está com Bruno ela puxa o pelo de Luscious e grita:

  • Luscious olha quem está lá, olha quem está com ele!

  • Eu sei Joana, segure firme essa criança.

Apavorada Joana segura forte a criança contra o peito em um instinto de proteção.
Mas por um momento lhe ocorre um pensamento e ela questiona:

  • Luscious…
    Se o Rei está aqui com a gente, quem é que está naquela casa esperando eles?

Luscious brande um forte rugido, tal como um leão ferido.
A dor o faz gritar em choro e ele diz:

  • Pelo amor do Destino, segure essa criança e não olhe para trás.(💧)

Joana em um rápido raciocínio percebe o que Luscious tinha escondido:

  • NÃO!
    Não! Não! Não!
    Volta Luscious, volta!
    Luscious volta!
    Seu covarde! Volta!
    Luscious volta! (💧)

Por mais que Joana gritasse, batesse, puxasse, chorasse, Luscious corria na direção oposta a que Joana queria.
Indo cada vez mais para longe da casinha.
Joana com a distância para de lutar e abraça forte o Rei menino, a dor de Joana não é menor que a de Luscious.
Ela ainda abraçando o pequenino, questiona o porq de tanto sofrimento, e aonde estaria aquele que ali viveu um dia…
Porq ele não apareceu, porq não veio resgatar sua pequena ilha, seu pequeno infinito…
Então a menina canta, canta para que o vento leve o som de sua voz, os sentimentos vivos pela tristeza que agora ela sentia:

“He could be anyone
Just for a night
Small talk and white lights
Big dreams, hey ya
We could be anywhere
Just for the night
Tall mountains high hopes
In your dreams, hey ya

Anywhere, I’ll go if you want to
Anywhere at all
Anywhere, let’s go if you want to
Anywhere, say now

You can take me home if you want to
You can let me down baby don’t look back
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah
We could be alone if you want to
Lay me down, give me what I like
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah

And when we first kiss
Fourth of july
Blue eyes and red lips
Red lights, hey ya
I’ll be a face
Without a name
If I can be careless
You can do the same

Anywhere, I’ll go if you want to
Anywhere at all
Anywhere, let’s go if you want to
Anywhere, say now

You can take me home if you want to
You can let me down baby don’t look back
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah
We could be alone if you want to
Lay me down, give me what I like
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah

And when the light sneaks in the room
You’ll know that I’ll be leaving soon
Soft to the touch
But hotter than metal, baby
You won’t save me

You can take me home if you want to
You can lay me down baby, don’t look back
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah
We could be alone if you want to
Lay me down, give me what I like
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah

You can take me home if you want to
You can layme down baby don’t look back
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah
We could be alone if you want to
Lay me down, give me what I like
I can feel, I can feel it, ah-ah-ah”

  • The Pieces – I Can Feel

Chegando mais perto os dois vêem a pequena e velha casa de madeira.
O rapaz fica curioso e ansioso, afinal toda essa jornada tinha como destino chegar ali.

  • Eu acho que chegamos Helquim.
    É aqui, posso sentir.
    É como se eu conhecesse essas paredes.

  • Então vamos entrar, afinal foi para isso que veio, não foi?

  • Sim, para isso.

Chegando na porta da pequena casa Bruno coloca a mão na fechadura e a empurra…
Quando a porta se abre tudo fica mais frio, Helquim fica do lado de fora, observando.
Bruno entra na casa e no lugar um universo de significados.
O lugar é pequeno, diferente do lado de fora, suas paredes parecem estar vivas de certa forma.
A casa é escura e sem luz, mas tem uma lareira com alguém pequeno sentado na frente dela.
O frio do lugar é quase insuportável.
Ele olha no canto esquerdo de uma das paredes, e lá um grande espelho.
Olha para o direito e tmbm um outro grande espelho.
No espelho da parede esquerda ele vê seu próprio quarto, sua cama vazia.
No espelho da parede direita ele vê um outro quarto, claro com a luz do dia, uma cama de solteiro, mas ninguém em cima.
Ele olha ao redor e no lugar vê uma cadeira, em cima dessa cadeira uma troca de roupa, roupa de criança, limpa, dobrada e novinha.
Ele olha para fora e Helquim continua parado lá fora, olhando fixamente para ele.
Ele olha para a lareira e aquela pequena criança sentada na frente dela, então ele chama:

  • Olá, meu nome é Bruno.
    Venho de outro mundo, atrás do Rei dormente.

Sem sucesso por não obter nenhuma resposta ele se aproxima da criança.
Quando ele chega mais perto a sensação que tem é a de um soco no estômago.
Pois a pequena criança está toda machucada, magra, fraca e muito, muito ferida.
Com olhos grandes, coloridos, um verde e outro castanho ela o olha de volta.
Sua boca está machucada, manchas roxas por todo o corpo, olhos e rosto inchados, como se tivesse apanhado muito de um adulto.
Com um impulso desesperador ele tenta cuidadosamente cobrir a criança com a blusa, e ela sem reação alguma continua olhando para ele com aqueles grandes olhos coloridos.

Chocado com o que vê ele coloca a mão na boca enquanto as lágrimas descem pelo rosto e pergunta baixinho:

  • Meu Deus, quem fez isso com você criança?

A criança não responde e continua o encarando com aqueles olhos grandes e coloridos.
Então ele se levanta e vai em direção a cadeira com a troca de roupas, para pegar e por na criança, mas a criança se levanta mais rápido e entra na frente.
Ela visivelmente está com muita dor, pois está toda machucada, mas ainda sim entra na frente e diz:

  • Não mexe aqui!
    Essa roupa é minha!

Longe dalí, Luscious e Joana chegam nas margens da Floresta.
O Grifo está próximo do barquinho deitado no chão olhando para a neblina com a desolação nos olhos, Milo está sentado ao seu lado lhe fazendo companhia, cãozinho fiel de coração.
Milo vê Joana descer de Luscious com a criança nos braços e chama a atenção do Grifo para que ele tmbm veja quem chegou ali.
O Grifo olha para os dois e mal pode acreditar no que vê.
Luscious tão erradia aquele dourado, tão forte, tão confiante.
Joana um vermelho reluzente, tão determinada e valente.
Joana entrega a criança para Luscious e vai em direção ao Grifo, ele emocionado esconde o rosto olhando para baixo.
Luscious olha para ela e diz:

  • Não se demore, temos pouco tempo agora.

A garota assente com a cabeça, ela está linda, como sempre foi e deve ser.
O luto aparente no olhar só a deixa ainda mais linda.
Ela se move com graça e presença de espírito.
Apesar de pequena, Joana naquele momento mais parece uma princesa guerreira.
Ela se aproxima do Grifo, e cabisbaixo ele diz baixinho:

  • Me perdoe.

Ela tira a jaqueta de couro preta que usa por cima do vestido e coloca em cima das costas do Grifo.
Então diz:

  • “O trovejar do seu coração pode dar vida a qualquer emoção, basta desejar com Fé e Coragem, de todo o seu coração.”

E o abraça como se fosse a última vez.
Milo uiva, um cãozinho tão pequeno, mas doutor em sentimentos.
O coração do Grifo troveja, o céu relampeja e em algum lugar no universo o céu mereja.

O coração do Grifo trovejou tão forte que o fez ascender.
O Grifo de plumagem negra e bico fosco, agora estava coberto por uma chama branca, que o deixava mais majestoso ainda.
Joana o solta e se afasta com o rostinho todo molhado e um sorriso.

  • Você é a coisa mais linda daquele coração.
    Não desista, não me esqueça.
    Estarei sempre viva no seu coração.
    Por mais fortes que sejam
    Não os deixe vencer.
    Lute, lute, lute e depois, lute de novo.
    Somos sentimentos, nossa natureza é lutar.
    Você é a coisa mais linda daquele coração.
    Não desista, não me esqueça.
    Estarei sempre viva no seu coração.

Os olhos negros e grandes do grifo são tomados por coragem e valentia.
Toda honra que mil homens sentiram um dia, é vista agora nos olhos do animal que erradia.

Joana o deixa e volta para Luscious.

  • O que devemos fazer Luscious?

  • Achernar disse que saberiamos o momento certo, e eu acho que está chegando.

Luscious coloca a criança sentada no chão, entrega nas mãos do pequeno a caixinha de lembranças de Bruno, aquela caixinha que Milo trouxe para Achernar.
Junto com ela entrega para a criança o frasquinho de pó de estrela, o último frasquinho que Achernar tinha e ofereceu para Bruno na noite em que ele chegou ali.
Os dois se posicionam, um de frente para o outro, Luscious ao lado esquerdo do Rei, Joana no direito.
Com muita emoção no coração, erguem as mãos, e suas energias agora brilham tão forte que se mesclam, vermelho e dourado oscilam e se alternam em um só.
Ambos começam a sumir, Joana olha para Luscious e diz:

  • Estou com medo…

Luscious olha para ela com um sorriso e diz:

  • É normal ter medo.

Bom, preciso me despedir, a minha caixinha de tintas acabou.
Agora é hora de Eu entrar nessa história de corpo e alma, e deixar você com o escritor.
Foi um prazer vir contigo até aqui, e lembre-se a Esperança é tão real quanto pó de estrela, moedas de ouro e ursos com cara de mal.

Então a criança vendo aquilo, abre a caixinha de lembranças.
Um espiral de infinitas cores começa a formar em volta do Rei, todas aquelas pérolas coloridas aumentam ainda mais a intensidade da luz ali.
Luscious e Joana agora conectados pela energia, com seus olhos fechados, completamente entregues pelo poder daquela magia dizem ao mesmo tempo em uma só vóz:

  • A Esperança nasce de sentimentos perdidos, entrego tudo o que sou, o que aprendi neste livro, para salvar o Amor já nascido.
    A Esperança nasce de sentimentos perdidos, da honra em promessas, de lembrar seu sorriso.
    A Esperança nasce de sentimentos honrados, do som da sua vóz, do lembrar de seu rosto, de tudo o que por você eu sinto.
    A Esprança nasce de sentimentos perdidos.

Nesse momento Luscious e Joana desaparecem naquele espiral de energia, a luz se torna intensa e vibrante.
A criança se levanta e é tomada pela energia, absorvendo aquela força, seus braços se modificam, barba nasce no rosto, corpo adulto.
O Rei já não é mais um menino, um senhor de idade agora estava ali.

O Grifo olha aquilo com espanto e seu peito se enche de Esperança.
O Rei se vira e caminha até o Grifo, quando chega perto diz com a vóz firme e serena…

  • Oi Helder, posso abraçar você?

O grifo tem um nome, um nome digno de sua majestade.
Nome esse que só o Amor conhecia.
Cheirando a chocolate, pipoca e baunilha o senhor de expressão forte no rosto abraça o grifo.
Aquilo acalma o coração do grifo e traz a ele um conforto imediato.
Então o senhor sussura no ouvido de Helder…

  • Esse é o meu presente…
    Asas negras como a noite
    Bico fosco vai sumindo
    Pele branca como a neve
    Em seus olhos meu destino
    Mãos fortes, um lindo sorriso
    Pernas firmes, fique em pé meu menino.

Com essas palavras o grifo flutua em energia, seu rosto se modifica, suas garras viram dedos, suas patas viram pernas, o pelo nego vira pele branca feito a neve, as asas negras se manteem, o Grifo agora é homem.

Ele olha para seus braços, suas pernas, passa a mão no rosto, no cabelo liso e tão negro quanto a noite.
Se emociona e diz:

  • Sou homem!

O Rei responde dizendo:

  • Você é a coisa mais linda daquele coração.
    Não desista, não me esqueça.
    Estarei sempre vivo no seu coração.
    Por mais fortes que sejam
    Não os deixe vencer.
    Lute, lute, lute e depois, lute de novo.
    Somos sentimentos, nossa natureza é lutar.
    Eu Amo você, de todo este coração.
    Sinto sua falta todas as noites, todos os dias, o som da sua vóz me acompanhou todas as noites, seu sorriso começou meus dias.
    Eu Amo você, vou te amar todos os dias até o fim de nossas vidas.

Nesse momento uma forte luz vermelha e dourada oscila no Rei, Helder o homem de asas negras sorri, pega Milo no colo e diz para o Rei:

  • Eu Amo muito você.

  • Eu vou lutar, passe o tempo que passar eu vou lutar.
    Diga a ele que vou voltar, vivo ou morto, pros seus braços vou voltar.

Então Helder levanta voo, sumindo na neblina, voltando para o mundo aonde passaria a vida lutando.

Agora sozinho, o Rei volta seus olhos para o alto da colina, aonde sua luta o aguarda.
Seus olhos de lobo se ascendem, presas nascem e ele corre feróz e destemido rumo a um inimigo pior que a Razão, inimigo esse que está prestes à nascer lá na casa aonde tudo começou.

Enquanto o Rei sobe a colina…

  • Não, você não.
    Meu pai vai por em mim!

  • E aonde está o seu pai?

Nessa hora a criança abaixa os braços e a cabeça.
Se vira para a troca de roupa e começa a fazer carinho na jaquetinha preta.

  • Eu não sei aonde ele está.
    Mas ele disse que queria ter um menino um dia, só para vestir igual a ele, e então nós andariamos juntos, e seria muito legal.

O olhar de Bruno fica distante por um momento, a criança percebe isso e continua:

  • Meu pai vai voltar.
    Seremos grandes amigos.

Bruno está parado, olhando para o vazio, como se estivesse em transe.
Então Helquim entra no lugar com uma adaga de lâmina negra nas mãos e crava ela no coração da criança.

Aquela cena desperta Bruno de onde quer que estivesse e ele da um grito, avançando em Helquim.

  • Não!
    O que você fez!

Helquim se afasta ofegante e com um estranho sorriso no rosto.
Tudo começa a tremer, uma onda de gritos é ouvida por todo aquele universo.
Bruno se ajoelha, pega a criança nos braços e sem saber oq fazer só chora ao ver o pequeno tão machucado e fraquinho, agora morrendo.

  • Calma criança, eu tô aqui, eu tô aqui.(💧)

O garotinho olhando ele nos olhos, enche os seus de lágrimas e diz:

  • Seus sentimentos são capazes de coisas incríveis por você.
    Não há Medo que a Coragem não destrua.
    Não há Vergonha que a Honra não apague.
    Não há Dor que a Esperança não suporte.
    Não há Mágoa que o Perdão não lave.
    Não há Coração que com Amor não se salve.

Nesse momento o feitiço se desfaz e a pequena criança nos braços de Bruno se transforma em Achernar a Feiticeira.
Com a adaga cravada em seu coração a feiticeira passa a delicada mão no rosto do rapaz…

  • Porq Achernar, porq?(💧)

Achernar então arrebenta de seu pulso a pulseira de prata com cinco pingentes, o Tempo, o Violino, o Molekão, o Coração, e a Joaninha e entrega para ele dizendo:

  • Porq eu Amo você tolinho.
    Não se esqueça dele.(💧)

Uma forte luz azul começa a sair do coração da Feiticeira, olhando para ele com aqueles grandes olhos violeta ela diz:

  • Um último presente, de estrela para estrela.

Achernar erradia uma forte luz azul que esquenta todo o lugar e por um momento liga suas mentes, ele se lembra de uma vida…

“E então o jovem pulou, sem exitar.
Enquanto o véu do tempo era rompido, suas lembranças e memórias iam sumindo, agarrado com toda a esperança pensava no rosto de quem até hoje tanto ama.
Equanto as lágrimas surgiam levando com elas a lembrança daquele rosto tão lindo,
jurava o jovem que não pararia de procurar aquele a que ele nasceu pra amar enquanto o rosto ia sumindo.”

Com o final dessa lembrança os olhos de Achernar se fecham e a vida deixa seu corpo.
Toda aquela luz azul que esquentou o lugar toma o corpo de Bruno.
Seus olhos se ascendem como os da Feiticeira, um vivo e intenso violeta.
Em seu pescoço o colar de pedra azul da Feiticeira.
A luz é tão forte e pesada que chega fazer barulho.
Incomodado e bem irritado com o que está acontecendo Helquim tenta se aproximar, mas a própria luz o expulsa, lançando ele contra a parede.

Quando Helquim se levanta, Bruno está em pé.
A presença naquela casa é diferente, é estranha.
A Feiticeira está morta no chão, porém sua presença ainda é sentida.
O Rapaz olha para ele e diz:

  • Helquim… Eu me lembro…
    É você, você é quem estava aqui comigo.
    Eu me lembro de tudo.
    Porq você fez isso?

O estranho se levantando olha para Bruno e diz com um ar debochado:

  • Para de ser ridículo.
    E para de me chamar de Helquim!

Os olhos violeta agora parecem confusos e ainda irritados, então o estranho prossegue com mais calma…

  • Eu não sou o tal Helquim, nunca fui.
    Seu Helquim nunca mais voltou aqui, pegou a malinha dele aquele dia da destruição e vazou.
    Nunca mais ele voltou aqui.
    Você que é teimoso de mais pra aceitar a verdade, se não fosse, teria notado.

Visivelmente furioso e confuso Bruno retruca:

  • Mas quando eu perguntei seu nome, você me disse que era Helquim!

  • Não, eu não disse isso e nem você me perguntou isso, lembra?

▫ “Você precisa de um nome, tem algum do qual se lembrar para eu te chamar?

▪ Helquim, é como pode me chamar.”

  • Você me perguntou se eu me lembrava de um nome que você pudesse me chamar, e eu disse que você podia me chamar de Helquim, não que esse era o meu nome.

Nessa hora os olhos do rapaz se ascendem e ele faz a inevitável pergunta:

  • Mas então quem é você?

Um riso malicioso ecoa pelo lugar e com um estalar de dedos o estranho que antes tinha a forma de Helquim, assume sua real identidade.
A Razão, alí está ele sentado na cadeira com um discreto sorriso no rosto.
O Reflexo perfeito de Bruno, bem ali, sentado na sua frente.
Entretanto Bruno está diferente, está mudado.
Achernar fez algo, algo que a Razão não consegue reproduzir.
Olhando para Ele e para si mesma, a Razão percebe a notavel diferença.

  • Eu te disse que nunca deixaria você.
    Não era ela quem eu pretendia encontrar aqui, mas tudo bem.
    Eu só estou curioso pra saber oq a vadia fez com vc…

Aproximando-se de Bruno ele tenta examinar seus olhos mais de perto…
Porém Bruno avança em seu Reflexo, segurando a Razão pela garganta e erguendo na parede.
Com os olhos faiscando ele diz em um tom de vóz firme:

  • Não chegue perto de mim!

Antes de sufocar a Razão consegue se soltar e cai no chão.

  • Hahaha!
    Mas gente! Eu não acredito…
    Vadia esperta, muito esperta.

  • Pare de chama-la disso ou você morre aqui e agora.

  • rsrsrsrs… Agora você quer me matar?
    Eu?
    Logo eu?
    Você sabe o quanto me custou entrar aqui dentro pra poder salvar você desses sentimentos ridículos?!
    O que… Vai me dizer que você acha mesmo que foi um acaso eu aparecer naquela estrada?
    Não seu imbecíl, não foi.
    Pois bem… Agora não posso fazer muita coisa.
    Graças a essa palhaça com o pé maior que o meu tem alguém vindo para cá, alguém que eu definitivamente não gosto.
    Mas ainda sim prefiro ele, ao que está vindo aí de dentro de vc.

Nesse momento Bruno olha para a Razão com mais atenção.

  • ó… Consegui chamar sua atenção agora não é?

  • Quem está vindo?

  • O Amor cresceu, se encheu de esperança.
    Está tão forte e determinado que não é mais criança.
    Está vindo para cá e vai chegar a qualquer momento, da saber pelo cheiro de pipoca, chocolate e baunilha.

  • Quem está vindo de dentro de mim?

  • Ah… Algo muito, muito pior que eu.
    Na verdade eu não sei nem porq vc me acha mal.
    Eu não sou mal, não mesmo.
    Mal é quem queimou aquelas borboletas…
    Mal é quem enegreceu seus olhos, quem queimou o chão com vida.
    Esse sim é mal.

  • Quem?

  • Não posso dizer, isso só o faria chegar mais rápido.
    Mas tenho algo para te mostrar, algo que não vai te fazer bem, mas é algo que o Amor não vai mostrar pra você.

  • O que você vai me mostrar?

  • Posso chegar perto?

  • Me mostre…

  • Sabe o porq Helquim nunca mais voltou aqui?

Os olhos de Bruno merejam, os lábios se apertam, o queixo treme…

  • Não, eu não sei.

  • Quer saber?

  • Quero…

A Razão tira do bolso um celular, e começa a falar…

  • Você passa tanto tempo escrevendo que se esquece das coisas práticas do mundo real.
    Mas não tem problema, eu fiz minha parte.
    Aqui está, veja o que seu amado esteve fazendo enquanto vc estava aqui todo esse tempo…

Então o Reflexo entrega nas mãos dele o celular com um instagram aberto.
A luz de Bruno começa a se enfraquecer, a cada imagem, a cada comentário, a cada homenagem.
O corpo todo começa a tremer, o reflexo assiste tudo muito atento e curioso.
As maos dele começam a ficar negras, ele cai sentado no chão e diz:

  • “Nem adianta que eu te acho”?
    Ele…
    Ele…
    Ele nunca…

Se terminar a frase a vóz some, as mãos começam a se tornar pedra, as pernas começam a enrijecer, pedra estão se tornando.
Ele olha para o reflexo, aquele olhar toca profundamente a Razão, então ela diz:

  • Me perdoe, mas agora você vê quem ele é?
    A verdade sobre quem ele é, que ele disse quem um dia veria você escrever está toda aí.
    Você, todos vocês, foram uma mera distração.
    “tudo está como deveria estar”
    Não vê?
    Me desculpe, eu não quero te fazer mal, você precisa se acalmar até o velho chegar, ele vai ajeitar isso, mas eu precisava te mostrar.

Nesse momento a Razão ouve uma vóz atrás dela:

  • Precisava mostrar o quê?

Ela arregala os olhos enquanto segura as mãos do rapaz já sólidas como rocha.

  • Você pode me dar licensa e sair de perto dele, por favor?

O Reflexo solta as mãos do rapaz e calado se afasta, Indo para perto do espelho.
Com os olhos turvos, Bruno tenta ver quem é que está ali, então a presença se aproxima e toca-lhe o rosto com os dedos.
Olha para ele e com uma vóz branda, vóz de pai, ele diz:

  • Acalme seu coração, porq ficar assim?

A visão volta ao normal, então ele se encherga no espelho, seus braços estão negros como a escuridão do vazio, ele está babando, presas estão nascendo, seus olhos cobertos por um negro auxente de qualquer luz parecem sugar a claridade de qualquer direção em que ele olhe.

O senhor entra na frente e interrompe a visão.

  • Você não precisa ver isso, porq você não é isso, nunca será.
    Não precisa ser.

  • P…
    P…
    Porq eu estou assim?(💧)

  • Porq quando tudo de bom vai embora, só restam coisas ruins.
    Você entrou em si mesmo ausente de qualquer sentimento, lembra?

  • Quem é você?

  • Não me reconhece?

Bruno ergue o olhar e olhando no rosto já velho e enrrugado daquele senhor ele não se lembra de ninguém.

  • Eu não o conheço.

O velho mexe em seu cabelo, faz um carinho no rosto e então diz mais uma vez:

  • Conhece sim, olhe com os olhos certos Bruno…

O rapaz olha mais uma vez, desta vez ele olha para os olhos do senhor.
Um verde, o outro castanho.

  • Você…
    Voc não…?

  • Não, Achernar ficou no meu lugar, Luscious e Joana me tiraram daqui antes de vcs chegarem.

  • Aonde eles estão?

  • Aqui, lá, em toda parte.
    Quando nada mais tinham para oferecer, deram suas vidas para que eu pudesse viver, e encontrar você.

Nessa hora a casa começa a ranger, as paredes de madeira, pedra vão se tornando.

  • Acalme o seu coração…

O Rei tira o celular das mãos dele segurando pela ponta dos dedos como se sentisse aversão ao negócio e o joga dentro do espelho.

  • Porq ele fez isso comigo?

  • Não pense nisso, ninguém tem todas as respostas do universo.
    E o que é que você viu ali?
    Você sabe dizer?
    Você pode afirmar o que você viu como verdade absoluta ou como uma interpretação?

Nessa hora a Razão limpa a garganta e o Rei diz:

  • Um “pio” seu e eu te jogo dentro desse espelho, depois enterro aonde nunca vão te achar.

  • Bruno eu queria poder dizer pra Você que tudo vai ficar bem, mas não vai.
    Eu queria dizer pra você que ele te ama, mas não posso.
    Eu queria dizer pra você que um dia você, e nós todos ainda vamos rir muito de tudo isso, mas também não posso, pois não vamos.
    Eu só posso te oferecer duas chances e vc escolher a melhor.

  • Quais chances?

  • Eu conheço você, eu conheço o seu coração.
    Tanto quanto conheço o dele.

Continua…
https://youtu.be/bm6wrudOOBc

 

 

 

 

Continua…

A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (04)

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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