A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (03)


Continuação… Parte (3)

“E se eu nunca mais voltasse…”
Este é um dos pensamentos que se passam na cabeça dele após tanto andar com as palavras de Luscious ecoando em sua mente.
“E se eu nunca mais voltasse, e se aqui eu ficasse para sempre, seria o lugar ideal para alguém como eu…”

Ele cai de joelhos em folhas secas, fica olhando o fogo queimar aquela tocha que segura como o único ponto de luz na escuridão.

Ele não sabe mas atrás dele tem alguém, atrás das árvores, o observando.
Ela observa sua postura curvada, e vai caminhando pelas árvores até conseguir ve-lo de perfil.
Ele olha fixamente para o fogo daquela tocha, mas parece nem estar ali, seu olhar está tão perdido e distante onde estará o viajante?
Achernar é que o observa as escondidas, com aqueles grandes e lindos olhos violeta, que mais parecem janelas para um universo.
Ela encosta seu rosto em uma das árvores e dos olhos escorre uma lágrima que lhe desce o rosto até chegar ao queixo, deixando em seu rastro um pózinho com brilho.
Ela pega a lágrima com a ponta do dedo, e olhando para ela, com a outra mão ela aumenta essa lágrima fazendo uma esfera de cristal do tamanho que preenche-lhe a palma da mão.
Achernar caminhando por entre as árvores lentamente vai brincando com essa esfera nas mãos de uma para a outra sem toca-la realmente.
É como em uma mágica dança no ar.
Ela olha para a esfera e começa a cantar o que até as árvores acordam e começam a acompanhar:

“They won’t know who we are
So we both can pretend
It’s written on the montains
A line that never ends

As the devil spoken we spilled out on the floor
And the pieces broken and people wanted more
And the rugged wheel is turning another round

Dorian, carry on
Will you come along to the end
Will you ever let us carry on

Swaying like the children
Singled out for praise
The inside out on the open
With the straightest face

As the sad-eyed woman spoke we missed our chance
The final dying joke caught in our hands
And the rugged wheel is turning another round

Dorian, carry on
Will you come along to the end
Will you ever let us carry on
Dorian will you follow us down”

Dorian – Agnes Obel

Enquanto a feiticeira canta, lágrimas escorrem em seu rosto, e chuva começa a cair naquela floresta escura e sem nuvens.

Ele olha para cima e deixa a chuva molhar sua alma, apagar a chama, o som da música é ouvido como a canção das árvores.
Fecha os olhos e sente cada refrão molhar seu rosto, a vóz dela é doce, tão doce e triste que se destaca com o som dos trovões.
Ele abaixa a cabeça e olha no peito, é dali que vem os trovões, ele troveja como relampâgos em uma noite de tempestade.
Duas patas se aproximam de seus joelhos, ele olha aquelas garras afiadas e pontudas, olha para cima e vê a plumagem negra, o bico fosco, os olhos grandes e negros.
É o Grifo de Helquim.
Lindo e majestoso como antes, intacto pela maldade, como se tivesse escapado de tudo aquilo.
O Grifo encosta seu rosto no dele e ali ficam até a chuva passar, como se trocassem confidências por pensamento.
Ele abraça o pescoço do Grifo como se sentisse saudade então seu peito troveja e relampeja ainda mais, enquanto Achernar canta com tristeza.

O feitiço de Achernar se acaba e a chuva se dissipa.
Quando ele abre os olhos o Grifo já não está mais ali.
Ele se levanta do chão e segue viagem, olhando para a pena negra que do chão pegou, se perguntando se o Grifo foi sonho ou realmente daquilo tudo escapou.

Achernar fica observando o rapaz caminhando, e de repente o Grifo passa a cabeça na mão dela a procura de carinho.
E acariciando ela faz sinal de silêncio para o bicho.

Passos são ouvidos próximos dali, o Grifo levanta voo e vai embora, ela curiosa, procura com os olhos quem seria.

  • Você tem certeza do que está fazendo Feiticeira?

  • Como você entrou aqui?!
    Pergunta Achernar com uma expressão de terror e espanto.

  • A Razão abriu muitas portas ao entrar, eu só passei por uma delas.

  • Mas… Mas, não pode!

  • Acalme-se Feiticeira.
    Não vim interferir em seus planos, vim para conversar.

Era o Tempo que ali estava, o mesmo Tempo em que tudo passa, perpetua ou apaga, o mesmo quê ali nunca entra ou passa, agora ali estava.

  • O que você quer de mim?

  • Quero conhecer você, conversar com você, entender você.

Achernar tão grande e bonita, nesse momento mais parecia uma fera ameaçada, toda arisca e na defensiva observava os movimentos do Tempo, seus passos lentos e movimentos elegantes.

  • Aonde está o Destino?

  • Aonde mais estaria?
    No trono dele é claro.

  • Não precisa temer, já disse que só vim conversar.
    Diferente do Destino sou um deus mais ágil e participativo.
    Quero conhecer você Achernar, entender seus motivos, saber o que pensa, quero ter o prazer de depois disso tudo ter te conhecido.

  • Eu sou simples, sou o que você está vendo.

  • Não, você é mais do que eu posso ver.
    Porq está fazendo tudo isso?

  • Porq trata-se de Amor.

  • E o que é o Amor pra você feiticeira?

Achernar olha para suas mãos, vê entre suas pulseiras uma de prata, com um coração, uma joaninha, um relógio, um violino e um molekinho.

  • O Amor para mim é japonês.

O Tempo para de se mover e olha para ela, então ela completa:

  • É como as orientais que são para sempre fiéis, corações leais e dignos.
    Não importa o que aconteceu ou quanto o mundo mudou a sua volta, uma senhora oriental certamente ama o mesmo homem estando ou não vivo.

  • Mesmo esse homem estando com outra?

  • Não importa, é quem elas são e serão, até o fim.
    O Amor é como uma criança, ele não tem maldade, faz coisas estranhas, faz arte, mas não tem maldade.
    Precisa de cuidado, precisa de carinho, se você brigar ou bater, ele vai chorar, vai ficar triste e ressentido mas nunca te negará o perdão, pois ele já perdoou antes mesmo de você pedir.
    O Amor é como um palhaço, é viciado em sorriso e vive colorido.
    O Amor é como um Heroi, fará o bem pra você mesmo que não seja reconhecido, mesmo que ele se machuque, mesmo que se coloque em perigo.
    O Amor é como uma senhora de idade, vai chamar o seu nome mesmo que de quase todos os outros tenha esquecido, vai preparar seu almoço e em passos lentos te levar ainda quentinho.
    O Amor é como um senhor idoso, passou a vida fazendo brincadeiras, e na velhice a única coisa que ele quer é sua velha companheira, não quer ouro nem prata, quer só um cobertor e os braços da amada.

Achernar olha para ele e diz com uma piscadinha no final, como se ele soubesse do que ela falava:

O Amor é como um casal de idosos, em que o senhor judiou da senhora por toda a vida, por não saber demonstrar amor, mas a senhora por ama-lo por toda uma vida, desde menina.
Ainda lhe arruma a marmita e leva no garimpo, todos os dias.
O Amor não conhece o Tempo.

  • Mas ele conhece você Feiticeira e eu estou te conhecendo.
    Do seu ponto de vista o Amor é lindo, ok, mas porq ele é tão pouco visto?

  • Eu tenho uma teoria, quer ouvir?

  • Por favor, estou aqui para isso.

  • Viver os sentimentos dele me ensinou muito.
    É complicado ser alguém nascido na constelação Gêmeos, digo isso por experiência própria.
    Aí você pega dois joves da mesma constelação, com dois anos terrenos de diferença, uma história de perda, sacrifício…
    Pensa, já é difícil encontrar a própria identidade, imagine para gêmeos.
    Mas eu aprendi a ver as pessoas como estrelas.
    Assim como no espaço, o mundo é cheio de estrelas, pontinhos brilhantes…
    Cada estrela é uma pessoa, e como no espaço todas tem o seu próprio brilho, sua própria luz.
    Algumas brilham mais, outras menos, umas de uma cor, outras de outras cores…
    Mas cada uma com seu próprio brilho e intensidade.
    Então as pessoas olham para as outras atrás desse brilho diferente, esse algo a mais que falta nelas, é aonde se aproximam, se interessam e se envolvem…
    Uma troca de energias.
    Mas assim como no espaço existem as estrelas negras, mais conhecidas como buracos negros, no mundo tmbm é assim com pessoas.
    Essas estrelas negras são negativas, negativas em uma escala tão reversa que além de não emitirem luz, sugam para si tudo o que tem a sua volta.
    Assim tmbm são algumas pessoas.
    Em um universo de pessoas brilhantes e com luz própria, existem as que além de não emitir luz, consomem a luz alheia.
    Depois de fartas e satisfeitas largam a carcaça para trás.
    O problema dessas estrelas negras é que elas nunca se dão por satisfeitas, apenas escolhem uma nova estrela pra sugar a força vital, o brilho até não restar mais nada.
    Mas tem um outro tipo, o tipo que se torna algumas vítimas desses buracos negros.
    Não é uma regra, mas vez ou outra em que esses desastres acontecem na vida das estrelas, elas ficam apagadas, sozinhas, fracas, assustadas, frias.
    Mas uma estrela, é uma estrela.
    Ela vai voltar a produzir luz, seu interior vai voltar a queimar como uma jóia do universo, só leva um Tempo até isso acontecer de novo.
    Mas enquanto ela está ali, sozinha, fraca e apagada, um outro tipo de estrela pode aparecer pra ajudar.
    Encostando, ficando perto, emitindo mais luz e calor, recarregando a amiga sabe?

  • Continue…

  • Por mais assustada e ferida que essa estrela esteja, a outra é confiante e só está ali pra ajudar, então ela aceita.
    A Estrela mais forte manda energia como uma ogiva para a outra, tudo o que ela tem de bom vai junto, ela nem escolhe… Só manda, e manda rindo.
    A outra recebe e fica pensando como pode aqui…
    Será que ela não tem medo da maldade, de estrelas negras como aquela que acabaram de vitimar ela.
    Em algum momento, em uma questão de escolha, essas estrelas que foram vítimas escolhem ser negras, agressoras.
    Machucam quem só estava ajudando por acharem que tem que ser assim e ponto, o mundo é redondo, um mais um são dois, a água é molhada e ponto.
    Desistem de ascender, explodem expurgando a luz e consumindo o que tiver perto ou no caminho.
    E assim se instaura o fim do Amor, o fim da Magia, o fim da Emoção…
    É o início das Lendas, a era dos Era uma vez…
    Estamos na era da Razão, aonde lugares como este, seres como eu e você só existem na ficção.
    Somos personagens de estórias, criaturas de livros, invenções.
    Pessoas são muito importantes e reais, nós nem existirmos, o universo se limita apenas a existência delas e do que elas acham que sabem.
    Esse é o ser humano.
    Mas não dessa vez, não com ele.
    Assim como ele eu sei que existem outros.

Nesse momento os olhos de Achernar se ascendem como se vissem o amanhecer de um novo dia.

  • Eu sinto Tempo, eu sinto.
    Nem tudo está perdido, ele só precisa se lembrar das coisas certas.

  • Você se esquece de uma coisa muito, muito importante Feiticeira.

  • O que?

  • Helquim não está mais aqui.
    Foi embora por livre e espontânea vontade, está bem e satisfeito com sua escolha.
    Ele não só foi embora, mas destruiu tudo isso ao sair e é isso que eu não entendo em você Feiticeira.
    Porq não deixar a Razão fazer o que veio fazer, vc prefere viver assim, nesse lugar?
    Deixe o Amor morrer Feiticeira, não interfira.
    E se o seu plano der errado e na hora tudo sair como a Razão pretende mesmo com sua intervensão?
    Ou pior que isso, e se o seu plano funcionar mas de nada adiantar, vai condena-lo junto com vc?

Achernar mexe na pulseira de prata e diz:

  • Você esqueceu o Destino?

  • D… Do que você está falando?
    Rsrsrs….

  • Eu não sou uma deuza, mas sou uma estrela.
    Poucas coisas se escondem do coração de uma estrela Tempo.
    E o Amor não é uma delas.
    Você diz que veio aqui para me conhecer, diz que não é inimigo, que não vai tocar ele…
    Eu não acredito em você.
    Você toca as pessoas porq não quer que elas sintam a sua dor, não se lembrem como você se lembra.
    Se conformem com suas escolhas como você se conformou com a sua.
    Cada novo relacionamento aluna o anterior fazendo aquele sim ser amor de verdade.
    E o próximo, e o próximo, e o próximo…
    Nos foram dados dez meses de vida, pois eu te digo que dez meses não dão nem para o começo!

Achernar erradia luz e avança para cima do Tempo com uma presença de espírito e poder que o intimidam.

  • Eu vou até o fim, e sua filha falhará, pois a Razão nesse lugar não vai tocar.
    Helquim ainda tem poder de escolha, a história ainda é escrita, mas pode fugir, não voltar, se esconder…
    Não importa, a escolha, o coração e a vida são dele.

  • Se ele prefere o toque do Tempo…
    Pois que você o toque, faça para ele o tempo passar e que vire um velho conformado e rabugento.
    Que ele não veja mais estrelas, que sua vida seja tão real quanto desejou naquele dia.
    Que encha a cara de álcool, afinal de contas a vida com Razão é tão bonita.
    Cheia de vergonha, traição, desrespeito e mentiras.
    Que ele encontre alguém “saudável” como ele mesmo disse que queria.
    Pois nenhum de nós aqui somos.
    Nesse mundo aonde você entrou sem permissão não somos “saudáveis,” não temos Razão.
    Só temos um ao outro e vivemos muito bem com o que temos, o que somos.
    Somos simples, mas felizes, nos preocupamos, nos importamos.
    Não temos aqui a preocupação que a Razão implica, a preocupação de ser traído, enganado, ferido, confiamos no que sentimos.
    Helquim conheceu esse mundo, sem dor, leve, sem traição, mentira.
    Mas se ainda sim ele prefere a velha vida…
    Aqui nos conhecemos, confiamos uns nos outros, somos o que precisamos.
    Diferente de você e toda corja de sentimentos cinzas que vc cria, somos leais, vamos até o fim!
    Não deixamos o outro para trás, não nos esquecemos.
    Mas se é do Tempo que ele precisa, que você o toque e ele sinta a leveza do esquecimento, quando sentimentos morrem ou são aprisionados é o que acontece.
    Que ele volte para sua corrente de plástico preso em seu passado tão presente, conformado naquela realidade velha, repetitiva, triste e permanente.
    Que volte a ser o que mandam, vestir o que escolhem, ir aonde deixam, ser o troféu, o brinquedo, o bonequinho de luxo, que volte para a vitrine.
    Se Traição lhe cai tão bem, quem somos nós para tira-la de alguém.
    Vai abraçar o travesseiro e pensar aonde estará ou o que será que faz aquele que ele tanto via sorrindo, que ele confiou sem medo, que ele disse Eu Te Amo de coração leve e limpo, que ele sentia confiança, sossego e paz no total significado das palavras.
    Quem ele viu o simples acontecer com adesivo, papel e tesoura, e não viagem, carro e roupas.
    Mas que agora cruza um mundo para poder se esquecer dele, Indo enfrentar o verdadeiro espelho, ver de dentro a si mesmo.
    Buscando tornar-se alguém de quem ele gostasse, e não tivesse deixado, mentido.
    Alguém mais parecido com você, Tempo.
    Alguém mais prático, racional.
    Alguém que dê o troco, que pague na mesma moeda, alguém que minta, que engane, desde que se dê bem no final, é o que importa.
    Foda-se o que os outros sentem, de problemas já bastam os dele.
    É assim que vocês pensam, não estou certa?
    Alguém sem personagens por dentro, sem floresta, sem estrelas, sem magia, sem surpresas.
    Alguém tão prevísivel que até as traições serão as mesmas.
    Porq são pessoas assim que são felizes, que valem, que tem valor.
    Aonde estará quem ele tanto queria, aonde estará quem lhe provocava magia, a parte mais feliz e maluca do seu dia.
    Aonde estará aquele que lhe escrevia cartas, coloria o dia, dava vida, construia florestas, tirava suas dores, transformava seus medos, o acalmava, o ouvia, tinha um cheiro bom, um abraço quentinho, um perfume que só ele sentia, um toque que só ele conhecia, coisas que só a ele eram ditas.
    Aonde estará aquele que o tirava do escuro quando ninguém mais conseguia.
    Não é o Destino quem faz nossos caminhos Tempo, nunca foi.
    Nossas escolhas é quem dizem para onde vamos e quem vai estar do nosso lado.
    As noites podem ser especialmente frias com as decepções, e é nesse momento em que você perde a força Tempo, nesse momento nem você pode esconder-se de si mesmo.
    É nesse momento que as pessoas se vêem sozinhas e descontentes, cercadas de tudo o que acham que querem mas de nada precisam, pois o que queriam realmente faz falta, muita falta, mas expulsaram de suas vidas.
    Não importa com quem ele esteja, o travesseiro será seu pior inimigo.
    Aonde estará? Aonde estará? E se tivesse comigo?

O seu maior medo é de que Helquim não te escolha não é mesmo?
Eu tenho uma chance de faze-lo ver, as palavras tem poder e isso nem você pode negar.
Você pode ser um deus, mas não é mais forte que o Amor verdadeiro Tempo.
Nele você não toca, você não passa, você não vence, no Amor você não existe, você não acontece.
O Amor sim te anula.
Você só está aqui porq a Razão abriu uma porta, mas eu vou tira-la daqui pelos cabelos, isso eu prometo.

  • Ele já me escolheu Achernar, ele já me escolheu, afinal… Cadê ele? Rsrsrs
    Mas quando tudo isso acabar, quero poder dizer que te conheci.
    É uma honra conhecer alguém que luta com tanta nobreza como você.

  • Pois diga, sou Achernar, a estrela azul que lutou contra o Tempo e a Razão para salvar o Amor de um coração.
    Ele pode ter te escolhido sim, mas se escolheu o que você faz aqui?
    A história ainda está sendo escrita.

E com um respeitoso cumprimento o Tempo desaparece.
Achernar quando percebe que está sozinha começa a tremer de nervosa e chora aflita.

Eu queria ter conhecido Achernar pessoalmente, seria incrível.
Esperança e Achernar juntas… Seriamos ótimas amigas.
Em outro lugar não tão longe dali o rapaz se aproximava do seu próximo destino, a canção de Achernar era um feitiço, que limpou aquele pedaço do céu e trouxe ali um luar muito bonito.

(🍂)Agachado sobre o pequeno lago, observando o reflexo de uma lua tão bonita, me lembro de admirar coisas que já foram importantes um dia…
A água é como um espelho refletindo a lua e também meus receios, meu rosto ela não reflete, só reflete as marcas de alguém sem identificação.

  • Então trata-se disso…?

Interrompe uma voz de tom feminino a reflexão do rapaz que até então pensava estar sozinho.
Ele se levanta para ver quem é, de onde vem, mas não vê alguém.

Então ela completa:

  • Buscando a si mesmo ou alguém que aqui ficou?
    Não vai gostar de ver nem a si mesmo e nem o alguém, se aqui ficou.
    As águas deste lago são de um puro cristalino que só com um luar tão divino vão sua alma revelar.
    “Joaninhas foram feitas, coloridas e deixadas para um coração alegrar…”
    Lembra-se disso?

  • Quem é?
    Quem está aqui?

  • Aproxime-se da casa, venha me visitar.
    Você encontrou a Estrela que virou Feiticeira, a Féra que já foi Formiga, agora vai me encontrar.

Seu reflexo sem rosto naquela água cristalina procura a Razão que ali não aparecia.
Procura a si mesmo que também não via.
Procura um alguém chegar atrás dele dizer, “vem, vamos embora daqui rapaz, chega disso.”
Mas ninguém vem e a casa continua ali.
Por poucos instantes parece que a Razão sumiu, e ele se esquece do que foi fazer ali.
Pensa e espera por alguém que não vem.

  • Venha, vamos conversar.
    Eu vou te ajudar.

Ele resolve ouvir e vai em direção a casa.
Tantas vozes, tantos conselhos, tantos sentimentos estão começando deixa-lo em conflito.
Cada passo dado é um pensamento contraditório, um nó na garganta, um peso a mais no peito.
Ao chegar na casinha velha, vê uma garotinha, com vestido vermelho e bolinhas na barra.
Meias pretas e sapatinhos vermelhos com bolinhas pretas.
Está é Joana, a menina que já foi joaninha.
Cabelos longos e ondulados mas não tem rosto, fala provavelmente com a força do pensamento.

  • Eu me lembro de você.
    Diz ele olhando para joaninha.

  • E eu de você, só que prefiro o outro você.
    Era mais simples, mais bonito, era divertido.

  • Era bobo, iludido, acreditava em coisas que me fizeram ridículo.

Nesse momento um forte tremor é sentido, quase pondo a casa a baixo, um estrondo acompanhando de gritos é ouvido.

Ele olha para Joana assustado e ela corre para perto dele e diz:

  • Cada vez que você usa palavras como esta, um lugar deste mudo é destruido.
    Esse mundo não foi feito para coisas ruins, para maus sentimentos.

Tomado por uma malícia maligna seu olhar e expressão se transformam então ele murmura:

  • Não mesmo, foi feito com amor, para o amor por um mentiroso!
    Ridículo, Ridículo, Ridículo, Lugar Ridículo!

No meio daquele barulho e tremor Joana o acerta na cabeça com um pedaço de madeira que tinha próximo a lareira, ele cai desmaiado sobre a mesa.

  • Nunca mais diga isso, e olha que eu bati com amor e carinho, se não amasse usaria ferro quente.

Um tempo depois ele acorda amordaçado, sentado na mesma cadeira aonde caiu desmaiado.
Joana está sentada na frente dele, observa com atenção seus olhos verdes, sua expressão e diz:

(🐞)- É… Parece que a vadia se foi, mas ela está ficando forte.
Se eu fosse um pouquinho mais forte, tirava ela do seu coro na unha, ela ia vê só uma coisa, comigo não safada.
Agora você preste atenção e ouça sem Interromper o que vou te dizer, ou bato na sua cabeça de novo!
Com Amor e Carinho, é claro…

Cada marca ou ferida, tem uma história um dia vivida que nem sempre pode a justificar.
Por isso eu vim com cor e bolinhas tampando as mágoas, promessas fingidas, todas as coisas, até mesmo as mentiras que fizeram o coração dele acreditar.
Para cada cicatriz que aquele coração tinha, eu com alguma coisa feliz, coloria.
Eu fui a única que naquele coração consegui entrar, mas ele me expulsou de lá.

Joana se levanta, vai em direção a ele e começa a retirar sua mordaça, e segue falando:

  • Fiz o que você sentiu, mas quando o propósito se cumpriu, do que “Eu” serviria para um coração sadio, com luz e batendo tão forte que chegou trovejar??…

Ela agacha do seu lado, segura suas mãos e olhando pro rosto dele segue falando:

  • Foi quando o ferido sarou e com pressa deixou quem o levou a sarar.
    Pessoas são assim Bruno.
    O problema de todo mundo sempre é o pior do mundo, a dor de cada um sempre é a pior do mundo.
    Eu, estou aqui com vc, tudo isso só está acontecendo porq estamos com você, dentro de você.
    Cada lugar desse que é destruido é um pedaço seu que deixa de existir.
    Cada um de nós que morrer é um lado seu que será extinto.
    O Amor é uma criança estranha Bruno.
    Ela tem olhos coloridos mas não encherga.
    Não encherga por opção, ela prefere ser guiada por tudo o que tem no coração.
    Nas terras do Rei dormente nunca mais brotou uma só semente e coisas disformes de tristeza aparente viraram os seres que vivem no lugar.

Quando Joana disse isso passou a mão em sua face retorcida.

-Realidade ou imaginação, não importa a definição se é dentro do seu coração que essa história está a se desvendar, é mais forte do que o simples fato de vc não acreditar.
Um sonho não mudaria você, uma estória não teria movimento ou vida, de um pesadelo você acordado já teria, excluindo a loucura, só te resta acreditar.
Siga para o Leste, é onde tudo se escurece e o frio é mais forte por lá.

Sabe viajante, Pessoas são estranhas e de veras esquisitas… Pois como podem em uma só vida tanto amor desperdiçar.
Vivem com complexo de Deus, apesar de Nele não acreditar, fazem mal até pros seus e achando que mesmo se houver um preço, darão conta de pagar.
Em um coração cabe até o infinito e a alma é uma parte invísivel, feita por um Deus invencível, deveriam temer algo assim macular.
Mas quem sou eu nesse pequeno infinito além de um personagem de rosto distorcido nesse “conto” que você está a criar… Não é mesmo?
Siga seu rumo ao Leste e quando o frio tocar sua pele terá chego aonde tanto quer chegar.

Joana se levanta, abre a porta para ele, quando ele sai da casa a Lua já não brilha no céu, o lago sumiu, tudo sumiu…

  • Vê, o quão destrutivas as palavras podem ser?
    Posso te fazer uma pergunta?

Ele assente com a cabeça.

  • O que pretende fazer quando chegar ao Rei dormente, Você ao menos sabe quem ou o quê ele é?

  • Só vou saber quando eu chegar lá Joana.

Joana fecha a porta e ele segue vagando pelo destruido e sombrio caminho.
As palavras de Joana o acompanham por quilômetros…
É como se a cada metro ele ouvisse tudo novamente.

“Fiz o que você sentiu, mas quando o propósito se cumpriu, do que “Eu” serviria para um coração sadio, com luz e batendo tão forte que chegou trovejar??…
Sabe viajante, Pessoas são estranhas e de veras esquisitas… Pois como podem em uma só vida tanto amor desperdiçar.
Vivem com complexo de Deus, apesar de Nele não acreditar, fazem mal até pros seus e achando que mesmo se houver um preço, darão conta de pagar.
Em um coração cabe até o infinito e a alma é uma parte invísivel, feita por um Deus invencível, deveriam temer algo assim macular.
Mas quem sou eu nesse pequeno infinito além de um personagem de rosto distorcido nesse “conto” que você está a criar… Não é mesmo?”

As palavras dela ecoavam em sua mente, como se tivessem uma mensagem, algo escondido, um lembrete.
Conforme as frases se repetem no meio de toda aquela escuridão, um vento frio começa a ser sentido indicando que aquele é o caminho.

Joana em sua pequena casa olha no espelho sentindo falta de quem era, do sorriso, da alegria, seu rosto, detalhes sem importância mas que a diferenciava das cicatrizes que coloria.
Com giz de cera nas mãos ela começa a colorir o próprio rosto, dar forma e contorno.
Uma lágrima é desenhanda e sedundos depois em seu rosto ela ganha vida, olhos azuis como o oceano, são desenhados naquele rostinho pequeno e branco.
A boca rosada como um botão de flor, ganha cor e movimentos, cantando o que vinha de dentro:

“Dreams are like angels
They keep bad at bay
Love is the light
Scaring darkness away
I’m so in love with you
Make love your goal

The power of love
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal

I’ll protect you from the hooded claw
Keep the vampires from your door
When the chips are down I’ll be around
With my undying death
Defying love for you
Envy will hurt itself
Let yourself be beautiful
Sparkling love, flowers
And pearls and pretty girls
Love is like an energy
Rushin’ rushin’ inside of me

This time we go sublime
Lovers entwine divine, divine
Love is danger, love is pleasure
Love is pure, the only treasure
I’m so in love with you
Make love your goal

The power of love
A force from above
Cleaning my soul
The power of love
A force from above
A skyscraping dove
Flame on burnt desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
Make love your goal…”

Gabrielle Aplin – The power of Love

O Amor é uma jóia, uma jóia rara e cara.
Um preço alto de mais está sendo pago por todos ali.
Com consequências que eu mesma ainda não sei a que ponto vão chegar.
As pessoas se mutilam, se deterioram já bem cedo, matam a própria carne tornando coração um órgão morto.
Afogado no veneno da Razão ele só bate por impulso, bate porque precisa bater, mas já não vive a muito tempo.
Vazio, morto e afogado, esse é o coração de quem vive acordado.
Joana, Luscious e Achernar não queriam morrer.
Mesmo ali, mesmo condenados, queriam viver.
Joana termina e seu rosto está lindo, parece uma princesa de contos de fadas.
Ainda cantando ela coloca a mão no espelho, e de repente o espelho vira uma janela.
Ela vê o rosto de Helquim naquela noite na cabana antes de tudo ficar assim.

“Espero que não seja tarde…”

Ele diz na imagem, ela passa os dedos no espelho como se tentasse acariciar-lhe o rosto.
As lágrimas da menina ganham força e sentido quando a imagem do espelho se vira e então é para ela que ele está falando aquilo.
É Joana quem está em pé de costas e responde:

“Nunca vai ser tarde, se for de coração.
Até mesmo em imaginação consigo sentir você.”

Sentindo agora uma dor lacerante no peito, ela da um morro no espelho o fazendo em pedaços e interrompendo a lembrança.
Olha no chão, termina a música pegando os cacos daquela lembrança.
Com um caco de espelho ela começa a contar o rosto e tirar-lhe a forma novamente.

O vento frio, a estradinha vazia, apenas as falas de Joana o fazem companhia naquela noite sem fim.
Tentando lembrar o rosto de quem tanto o feria, não conseguia.
Era como se um bloqueio o impedisse de lembrar o rosto e o nome de quem ele tanto queria.
No meio daquele céu sem lua nem estrela, o Grifo aparece, vindo em sua direção com graça e beleza.
Assim que pousa ele traz no bico um pergaminho, nele está escrito:

“Eu ainda quero ver vc escrever a parte do conto onde vc realmente descobre a verdade sobre a pessoa que eu sou, pode demorar mas um dia ela vem.
Fique bem.”

Ele fica parado com aquele pergaminho nas mãos o relendo inumeras vezes, até que o céu sem lua nem estrelas começa a se fechar em nuvens.
O Grifo fica agitado, inquieto e barulhento.
O animal está com medo.
Ele passa a cabeça no rapaz como se o chamasse mas ele não responde, só fica ali parado, lendo e relendo.
A expressão em seu rosto vai mudando.
O céu troveja e relampeja.
Até que ele diz em voz baixa:

  • Fique bem?…

O Grifo pula de um lado para o outro, com medo pois ele de alguma forma até hoje desconhecida sobreviveu intacto a primeira tempestade.

  • FIQUE BEM!?

Ele grita tão alto quanto o som dos trovões que abafam os barulhos do animal aflito.
Então o Grifo bate as duas patas no peito dele, o jogando no chão.
Ali ele fica o precionando e encarando.
Ele está furioso mas o Grifo é muito mais forte.
O animal se aproxima do rosto dele e olha fixamente nos olhos do rapaz, aquilo o faz de alguma forma se acalmar.
O Grifo encosta a ponta do bico no nariz dele e acaricia o rosto.
Depois disso o céu se acalma, a expressão no rosto some e o Grifo levanta voo.

  • “Fique bem”… Quem diabos escreveria algo assim para mim num lugar desses. (💧)

Ele levanta o corpo do chão e fica sentado chorando com aquela estrada a sua frente.

Achernar em sua casa está sentada em uma cadeira de frente para um espelho velho, bem gasto com a moldura feita de cipó amarrado.
Enquanto ela se olha no reflexo, mexe nos cabelos se arrumando, como se fosse ver alguém importante.
Por um momento ela para tudo e toca o espelho.
O vidro que antes só refletia agora é uma janela aonde Achernar se vê deitada em uma cama, sorrindo com uma felicidade que chega a dar saudade.
Ela está feliz, digitando em algo que tem nas mãos, uma conversa com Helquim.
É com ela que ali ele conversa, ela se emociona vendo a si mesma tão brilhante, tão viva, cheia de luz.
Do outro lado Helquim sorrindo com os olhos fechados e contando, 1, 2, 3…:

“Quer jogar comigo?

Eu quero
😊 tentar.

Fecha os olhos aí é conta até 300,
Já volto.

?
TREZENTOSSS?
Kkk
Vc não vai aparecer aqui no meu quarto né
Vai que vc é uma espécie de ser evoluído que consegue se teletransportar hehe
Avisa se isso for acontecer hehe

Avisar porq?
Perderia toda a graça.

Parei de contar no 149 para olhar no celular…
Pra eu não me assustar ué.

Continue contando;
Mais 300.

Realmente fechei os olhos hwhe
Hauahauha

Não tô brincando.
Mais 300.

Ok, e olha que não sou de acreditar em coisas hein.”

Emocionada a Feiticeira com um passar de mãos fecha a lembrança e o espelho volta a ser apenas um espelho, ela diz com um olhar vago:

  • Mas um dia você acreditou Amor, um dia você acreditou.

A Feiticeira seca as lágrimas do rosto, da uma última olhada em sua casa, como se quisesse lembrar do seu catinho, tranca a porta e já do lado de fora acena para Milo se despedindo do cãozinho que obediete se mantem escondido no barquinho, ela entra na floresta e some na escuridão.

Já longe dali o rapaz retoma seu caminho em direção ao Leste como Joana o disse.
A estrada é fria e da pra ver gelo na vegetação já morta.
Em suas fragmentadas memórias ele consegue reconhecer o lugar, antes era tão vivo, folhas vermelhas ascendiam com o cair da noite quando o lugar era cheio de vida.
Abelhas dançarinas faziam ali suas moradias, dançavam a noite e descansavam durante o dia.
Ofereciam mel para quem as assistia.

Essa lembrança com alguém sem nome, alguém sem rosto arde o peito e é interrompida por uma sensação estranha.

(❄) Como disse Joana moça, “fará frio em seu caminho!“
Só não disse a tal moça que um estranho apareceria no caminho…

Tão perto do final, crusando aquele mundo sozinho e agora com o frio tocando a pele, ele vê no horizonte um sujeito, seu medo cresce.

Pergunta a si mesmo:
– “O mundo é meu e o coração também, quem seria o estranho que está ali também?”

Então começam os pensamentos…
“Tenho duas opções, começar a correr pro barquinho e o remo ou chegar mais perto e me apresentar, afinal mesmo mudado e bem destruido esse ainda é meu mundo, quem o estaria invadindo?…
Porq o estaria invadindo?
Não esperava encontrar alguém, não nesse lugar…
Nem agora ou nessa distância, porq aqui?
Porq agora?”

Então movido por impulso chegando já perto, resolve perguntar:

Olá… Está perdido?

O estranho fica observando ele, mas responde com uma expressão confusa:

Não, ou melhor… Não sei dizer, não me lembro de muito e nem o que aqui vim fazer, esse lugar é bem frio, como pode aqui viver?

O tal estranho tinha um rosto familiar, como se o rapaz já tivesse o visto em algum lugar, naquele momento ele podia jurar que nem mesmo o vento se movia ali, um silêncio ensurdecedor tomava conta, é como se até as árvores negras observassem atentamente.

Eu não vivo aqui.
Um dia viví, mas não era assim…

Ah não? E como era então?

Palavras não podem explicar.

Hummm… Bom e o que te traz pra cá?

Você é bem curioso pra um desmemoriado!…

Me desculpe… perdão, eu não quis te deixar irritado.
É que já faz algum tempo que estou aqui sozinho, venho pra essa estrada acho que todas as noites e já faz algum tempinho.
Nunca vi passar alguém, você é o primeiro.

Hun… Não deixou. (mentira… Deixou sim! Aliás esse sujeito o deixava num estranho estado de fúria, aliás não sei dizer o que o deixou mais irritado, não saber oq ele fazia ali ou… Ou sei lá! Até eu estou nervosa agora!) Bom… Este não é um bom lugar, embora já tenha sido, não é seguro e vc pode estar em perigo.
Preciso continuar rumo ao Leste, seguir o meu caminho, até mais.

Quando o rapaz pensa que vai seguir caminho, eis a pergunta:
Leste? O que tem ao Leste?

(Um comedor de curioso! Emoticon squint ) Nada… Nada Além do Castelo do Rei dormente, e mais frio e escuridão.

Um Castelo! Posso ir com você?
Não me parece mesmo seguro ficar aqui sozinho, prometo não falar muito, vou ficar bem quietinho.

Mais pensamentos seguidos de respostas:
( mais que droga de pessoa eu seria em deixar alguém num lugar assim e sozinho… Com certeza não sou alguém assim Emoticon squint ) Tudo bem, pode vir… Mas não vai falar e nem intervir! Tudo oq fala pode alterar o fim disso aqui.

Fim de quê?

Desse lugar, disso tudo.

Porq alguém destruiria esse lugar?
Da medo e tal, mas sei lá…
Não é pra tando.

Eu.
Eu é quem vou destruir.
Ou melhor, vou por um fim nesse sofrimento, você não viu esse lugar antes, se tivesse visto entenderia.

Faz tempo que você está aqui?

Não sei, aqui o Tempo não passa, aqui ele não existe, então não sei.

Só tem você aqui?
Não tem mais ninguém além de Eu e Você?

Tem muita coisa aqui.
Você não disse que ia se manter em silêncio?

Tudo bem, farei como pedir.

Com um forte bater de asas o Grifo chega e pousa ao lado do rapaz.
Ele parece feliz, contente e ancioso, faz uns barulhos estranhos e fica saltando para lá e para cá com um embrulho preso ao pescoço.
O rapaz abraça o pescoço do Grifo e acha engraçado o comportamento.
Pega o embrulho que está preso em seu pescoço e pergunta para o animal:

  • Ora, ora, é um presente?!

O Grifo chega bem perto da caixinha como se estivesse tão curioso quanto ele pra saber o que tem dentro.

  • Bom… Vou abrir aí descobrimos.

Quando ele abre o embrulho tem um bolinho pequenininho com uma velinha já acesa nele, e nela o número trinta e um.
Ele olha o embrulho novamente e pensa:

  • (mas como isso não pegou fogo?)

Ele segura o bolinho na mão e ele é todo colorido, tem confetes e balinhas, é um bolinho bem simples na verdade mas a impressão é de que foi feito com tanto cuidado que o torna o bolinho mais lindo do universo.
O rapaz fica tão impressionado, curioso e confuso com aquilo que se assusta quando olha pela luz da vela e os olhos do Grifo também estão fazendo a mesma coisa e encarando ele.
Ele se afasta com o susto e pergunta para o animal que continua o encarando:

  • Isso é um bolo de aniversário?
    Mas não faço aniversário hoje e nem tenho trinta e um anos… Só dia onze e ainda é oito de junho.

O Grifo da um sorriso debochado e infla o peito o máximo que pode.
Como se com orgulho dissesse, “é meu aniversário.”
O rapaz entende o gesto da ave e abraça novamente o pescoço do Grifo desejando a ele os parabéns.

  • Você é um animal misterioso, veio passar seu aniversário comigo rsrsrs.

O Grifo empurra ele para trás com a cabeça até ele cair sentado e deita em cima olhando para o rosto dele.

  • hahaha você é mesmo um animal muito estranho.

O Grifo fica ali, prendendo ele com o peso do corpo e encarando.
É uma cena hipnotizante.

Mas de repente o animal olha para o escuro e se arrepia inteiro.
A plumagem fica arrepiada, crava as garras no chão, se levanta e fica em posição de ataque.
Com o olhar fixo no escuro.

  • Ah calma, eu esqueci de te apresentar, este homem é alguém que está perdido aqui, eu encontrei ele nessa estrada logo uns metros atrás.

O Grifo olha para ele e o afasta com uma daquelas asas fortes e grandes.
Como se realmente fosse atacar quem quer que estivesse ali no escuro.

  • Calma! Não fique agitado, é só um homem perdido.
    Pode sair do escuro por favor?
    O animal está ficando nervoso com isso.

Então com cuidado o homem sai do escuro aonde tinha se escondido.

▫ Porq você se escondeu aí?

▪ Você me disse que esse lugar não é um lugar seguro, e olha o tamanho dessa criatura.

O Grifo da um grito e posicionando-se como um felino prestes a atacar ele é interrompido com o jovem sorrindo vindo em sua direção com aquele bolo.

▫ Olha, é aniversário dele!

▪ Dele quem?

▫ Dele! Do Grifo.

▪ Ahhh… Bom, parabéns sr Grifo.

O Grifo fica olhando para o estranho com um ódio visível naqueles grandes olhos negros.
Encosta a cabeça no jovem e vai empurrando ele para longe do estranho.
Quando pega uma certa distância, volta e se posiciona pra atacar o estranho.

▪ Eu acho que esse bicho vai me matar!
Calma aew amigão, calma passarinho.

Aquilo so aumenta a fúria do Grifo.
Até que ele ouve:

▫ Hoje o céu está tão lindo
Um azul tão claro
Um azul tão limpo
Que me fez lembrar você…
Não se amarra,
Não se prende,
Voa livre o Valente.
Como posso ter você?
Voa alto, voa livre
Neste céu azul clarinho
Que Deus fez só pra você.
Hoje o céu está tão lindo
E eu penso aqui comigo
Como posso passarinho
Um dia ter VOCÊ.

O Grifo olhando para trás continua, e o que ele vê é o jovem dizendo aquilo de joelhos no chão segurando o bolinho e com os olhos brilhando na chama da vela.

▫ Esse é o meu presente pra você, tudo o que eu sei é escrever.
Não é chique, nem é muito mas o que de maior valor eu tenho, o meu talento.
Usei e compuz pra você.

O Grifo se aproxima dele e olha nos olhos do rapaz como se quisesse falar alguma coisa, mas não consegue.
Só encosta a cabeça nele.
Então ele vira para o estranho, e se proximando dele o encara com uma expressão de dar medo.
Depois disso levanta voo, jogando o estranho no chão com o bater das asas.

▪ Nossa, essa foi por pouco, parece que o seu passarinho não gosta mesmo de mim.

▫ Ele não é meu, era de alguém, só não me lembro quem.

▪ Bom, ele gosta de você.
Se não fosse você e seu poeminha ele teria me estripado.

▫ É eu acho que ele não gosta de você, mas fique por perto que ele não vai te machucar.
Grifos são animais místicos, muito nobres, valentes e cheios de iniciativa.
Escolhem uma parceira e com ela vão até o fim da vida.

▪ Nossa, parece muito tempo.

▫ A vida é tão curta, mas talvez você esteja certo.

▪ A eu só acho tempo de mais pra estar com alguém do lado, só isso, tem tanta coisa no mundo pra ser vivida.

▫ Pois é, com tanta coisa legal pra viver e você veio parar aqui, em um mundo sombrio, cheio de criaturas deformadas, dor, agonia, Grifos furiosos, fora outras coisas…
Que ironia.

▪ Não quis te ofender.

▫ Não ofendeu.
Você precisa de um nome, tem algum do qual se lembrar para eu te chamar?

▪ Helquim, é como pode me chamar.

▫ Muito bem Helquim, meu nome é Bruno.

▪ Bonito aquilo que você disse para o Grifo
Você faz sempre isso?

▫ Não, fiquei anos sem fazer e nunca fiz como agora.
Aquilo ali é único, esse lugar é único.

Longe dali o Grifo chega na casa de Joana, que ao ver o anima não abre a porta.
O Grifo chama com sons tristes mas Joana lá dentro só chora e o culpando manda ir embora.

O animal voa rápido até o ninho de Luscious aonde o encontra sozinho.

  • Você!

Luscious parte furioso para cima do Grifo:

  • O que você faz aqui?
    Já não basta o que nos fez, o tanto que machucou, humilhou, ofendeu!
    Quer nosso fim?!

O Grifo deita-se no chão como um cordeiro rendido ao abate.
Luscoius ao ver aquilo mesmo furioso, bem maior e mais forte que o Grifo, não o ataca.
Luscious se entristece, puxa o pano do espelho em seu ninho que ele tanto teme e evita, a magia da lembrança acontece transformando o reflexo em um cenário vivo, o espelho reflete Luscious mas também reflete o Grifo, que apenas no reflexo olha para Luscious e diz com Amor e Carinho as palavras da lembrança daquele dia:

▪ Eu sinto meu coração sabia?
Tipo agora

▫ Como?

▪ É uma coisa que me faz suspirar
Pq parece que vai batendo bem mais forte
Mas é uma sensação gostosa

▫ Senti isso em casa

▪ ❤️❤️❤️❤️💣

▫ Bomba?

▪ Não, tem uma explosão aqui e forte.

▫ Ahhh molekão

▪ Um turbilhão de sentimentos bons
Por vc
Parece que vai me rancar do chão e me jogar pra cima as vezes heheh
De tão forte que vem

▫ Que bom, é assim que deve ser
Te fazer bem.

▪ É muito bom Bruno amar vc
É bom de mais!

▫ 😶

▪ Ops, que foi?
Falei cedo demais a palavra? rsrs

▫ Não sei em que sentido vc disse.

▪ No sentido que quis dizer ue. Quero sentir isso pra sempre.

▫ To confuso
Não me deixe assim
Explica

▪ Eu sei o que sinto
Eu to amando vc

▫ Helquim, não brinca não.

▪ Pq eu brincaria com isso ?
Eu sou sensível, bastante até do meu jeitão mas sou. Pra saber o que sinto meu coração quase que doi de vontade de você
Minha cabeça pensa toda hora em vc
E não digo isso só pelo lado físico, sexo etc
Falo por vc ser tudo o que eu sempre esperei que fossem pra mim
Eu nunca quis mudar ninguem nunca quis que as pessoas com qm me relacionei fossem diferentes ou se moldassem a minha personalidade mas no fundo eu sempre quis alguém exatamente como vc
Não sei o que falar. Mas senti vontade de falar algo que eu sei que vai ser inevitável
Vai ser inevitável não amar vc
A gente pode até respeitar a burocracia dos anos que separam a paixão do amor heheh mas no fim amor é amor é sempre vai ser
E lá na frente velhinhos eu vou te zoar
Viu não falei que era amor !!!
Eu sinto amor por vc.

Luscious joga novamente o pano velho sobre o espelho terminando a lembrança, o Grifo permanece deitado no chão chorando em silêncio olhando para o espelho.

▫ Eu não gosto desse espelho, ele me machuca tanto(💧)

Diz Luscious ao cobrir a moldura.
Mas algo surpreendente acontece:

▪ E porq você não quebra ele?(💧)

Luscious vira-se cuidadosamente e vê o Grifo ainda no chão, com os olhos molhados e bem triste, mas além dele e do Grifo mais ninguém, então ele volta a arrumar o pano no espelho.
Mas…

▪ Eu quero ficar velhinho com ele Luscious, eu quero ficar velhinho com você.
Eu não menti, eu não enganei, eu disse a verdade, eu juro que disse a verdade.(💧)

Luscious olha para trás e é o Grifo quem está falando e soluçando de tanto chorar.
Luscious quase tem um ataque fulminante!
Ele ergue o rosto do Grifo e olha dentro daqueles olhos molhados e negros como a noite e diz quase engasgando de tanta saudade daquela vóz:

▫ Se você sabe falar, pelo amor de Deus fale de novo para eu ver que não estou louco.

O Grifo vira o rosto abatido e triste para o lado, fecha os olhos e então diz:

▪ Me perdoe Luscious, me perdoe. (💧)

Sem que eles soubessem Achernar observa tudo escondida na escuridão das árvores.
Ela muito emocionada diz bem baixinho:

▫ Eu te perdoo Príncipe Perdido.

E segue viagem pela escuridão da floresta.

Luscious sente tanta saudade daquele Grifo, do som da vóz que todo o Interior da féra dói, sente dor.

▫ Meu Deus quanta dor!

▪ Eu sei Luscious eu sei, mas não fui só eu, assim como vocês eu não vivo sozinho lá.
Cada coração cabe um universo infinito dentro, lembra?
Pois no peito em que eu vivo eu sou o mais fraco dos sentimentos, a personalidade mais vulnerável.
A Razão despreza a nobreza, desde então vivemos escondidos, é sempre um conflito, e ela quer a minha cabeça.
Só estou vivo porq me escondo, ele não me dá ouvidos, não me sente, não quer me ouvir.
Ele nem gosta de mim. (💧)
A Razão está matado todos nós naquele peito.

Luscious se afasta do Grifo com o peito ardendo de tanto Amor e Carinho:

▫ Eu Amo você, de todo este coração.
Sinto sua falta todas as noites, todos os dias, o som da sua vóz me acompanhou todas as noites, seu sorriso encerrou minhas noites, seu olhar começou meus dias.
Eu Amo você, vou te amar todos os dias até o fim de nossas vidas.
É uma pena que a parte nobre daquele coração seja você.
É tão pequeno, mas fico feliz pois enquanto estiver vivo será uma parte só minha.

O Grifo quer falar mas não consegue, o choro não deixa.

▫ Chora não Amor, chora não porq eu não te culpo, a Razão é forte e talvez naquele peito ela já dominou tudo.
Você é Lindo e Nobre, a pequena parte que ainda se mantem puro.
Mantenha-se escondido, não deixe ela te encontrar, enquanto você viver apenas por você esse coração aqui pulsará.
E enquanto nós vivermos é pelo Eu e Você que ele baterá.

O Grifo olha para Luscious e vê que ele está se afastando, fraco de tanto chorar ele pergunta para o amigo:

▪ Amor aonde você está indo?

▫ Vou para o Leste, aonde o frio fica mais forte, Achernar tem um plano que pode mudar a nossa sorte ou nos levar à morte.
Mas oq nos faz nobres é sermos assim, irracionais, sermos ridículos, Amarmos tanto Você.

▪ Luscious não!
Ele está lá com o Bruno!

Nesse momento o Grifo tenta levantar mas não consegue, quando Luscious tocou-lhe o rosto momentos atrás, usou uma toxina que o deixava aos poucos dormente.

▫ Eu sei Molekão, nós sabemos.
A propósito, Feliz aniversário, eu nunca me esqueci de você. (💧)

▪ Luscious não Amor, não faz isso, ele vai matar você. (💧)

Luscious é uma féra, mas como todos naquele mundo tem seu poder, sua magia.

▫ Feliz Aniversário Amor,
Voa, voa passarinho,
Eu não vou prender você.
Vá pra longe deste ninho
Por mais que possa doer,
Voa, voa passarinho,
Vai depressa e sem pensar
Pois pensando não se esquece
Que pra sempre eu vou te Amar.(💧)

E castando esse feitiço Luscious teleporta o Grifo para a beira da praia em um profundo sono, aonde o barquinho e o remo estão.
A Féra adentra a escuridão com um rugido dolorido e violento tão potente como um leão para cumprir seu Destino.

Continua…
https://youtu.be/3IEMnWhT_7c

 

A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (03)

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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