A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (02)

Foto de Gabriel Neto.
Continuação… parte (2)

Sem saber exatamente o porq, tudo está estranho à sua volta, qualquer música o irrita, a claridade da TV começa se tornar um incômodo, e quando cai em si…
Está trancado no quarto com todas as luzes apagadas, de fato a escuridão começa a se tornar um conforto.

🐜- O que ele ainda faz alí Achernar?
🌟– Ele ainda não irá a lugar algum Luscious.
🐜- Entendo… Há algo que possamos fazer?
🌟– Sim, esperar… Fizemos oq podiamos fazer, Helquim disse em suas ultimas frases ” Dizem que a verdade sempre aparece, um dia ela vai aparecer, pra mim e pra você”
🐜- Então iremos esperar.
🌟– Sim Luscious, iremos.
🐜- Mas… E se o tempo não for gentil Achernar ?
🌟– Ele nunca foi, mas nós seremos.
O que restou desse lugar continuará aqui, a casa de madeira e nós também.
Com o passar dos anos ele será como aquela senhorinha sentada na cadeira de balanço, com uma espingarda na mão esperando lá no horizonte aparecer alguém pra atirar.
Terá medo de roubarem sua casa, tirarem sua única esperança ou roubarem o único retrato de seu marido que perdeu a muito tempo por um descuido do Destino.
🐜- O que dizer de suas razões… Não às entendemos.
🌟– Mas podemos sentir, há algo alí mais forte que estas paredes, talvez sejam suas memórias ou seus sonhos.
O impacto foi tão forte que agora ele não sabe se foi verdade ou mentira, se foi real ou ilusão.
De pouco se lembra, está vazio e sentindo-se sozinho.
Ele queria fazer o que não podia e Helquim oq podia fazer escolheu desprezar.
Para salvá-lo de ser consumido pelo vazio e a escuridão demos o que tinhamos de melhor para tirá-lo daqui.
🐜- E se a verdade nunca aparecer Achernar?
🌟– Eu arrumo a arma, você faz a cadeira.
Em todo caso não vai demorar muito até que ele volte para cá.
🐜- Para “cá” onde?
🌟– Aqui, esse lugar.
🐜- Não! Ele não pode…
🌟– Pode sim, não deve, mas pode e vai.
🐜- Achernar…
🌟– Eu sei Luscious, eu sei.
Vá até Joana, diga a ela que precisamos nos preparar.

Enquanto isso em algum lugar na existência, Destino e Tempo se encontram com urgência.

– Você sabe o que vai acontecer não é Destino?

– Não, não sei.

– Sabe sim, claro que sabe.

– Não, eu sei o que pode acontecer, não oq vai.

– Achernar não deveria ter intervindo.

– Verdade, ela deveria ter crusado os braços e assistido, como você faz.

– Arrogante.

– Covarde!

– Muito bem, não vim aqui para trocar elogios contigo.
Destino, não sou seu inimigo, não hoje e nem nessa história.
Tome…

– Isso é…

– Sim, as lembranças de Helquim quando passou pelo véu do Tempo.
A história deve ser escrita pela Esperança com a tinta dessas lembranças.

– Porq você está ajudando?

– Não sei, talvez tudo possa ser diferente com eles.
Sobre o outro, com a ausência de emoção é que se alimenta a Razão.
Se Achernar não tivesse intervindo, com o poder do Tempo eu o teria ajudado, aos poucos seria um passado dolorido e depois, esquecido.

– Ela agiu com o coração.

– E esse é o problema de vocês.
Por Achernar ser uma estrela ela tem um coração poderoso e muito forte, o que com sorte pode mudar o rumo das coisas, mas cuidado, a Razão cresce enquanto a emoção se enfraquece, inimiga imbatível de qualquer sentimento, pode matar qualquer coração, até mesmo o de uma estrela.

– Você acha quê…

– Eu não acho, eu tenho certeza.

Me corrijam se estiver errada, mas foi só eu que senti um ar de saudosismo nesse diálogo dos dois?
A propósito já estou desde o início escrevendo com as tintas extraídas das lembranças perdidas de Helquim, conforme o Tempo instruiu.
Enquanto isso os dias passam e aquele quarto fica cada vez mais escuro, tão escuro quanto ele por dentro.
Estar no escuro se tornou confortável porq é como se estivesse olhando dentro de si mesmo, assim passando a falsa idéia de controle e segurança.
Tudo o que a Razão precisava e queria.

– Você pretende morrer aí?

– …

– Não se faça de tonto, é com você mesmo que estou falando.

– Quem tá aqui?!

– Ascende a luz e olha no espelho que fica mais fácil, mas por favor, sem pití ou escândalo, odeio gente descontrolada.

– Seja quem for sai daqui, eu não quero conversa.

– Ahhh claro… Você acha que eu tenho essa opção?
Bem que eu queria, mas infelizmente não posso.
Vamos, chega disso já, levanta e ascende essa luz pra me encarar.

Ele ajoelha na cama e ascende a luz, não tem ninguém no quarto a não ser ele mesmo.
Antes que apague a luz novamente ele escuta:

– No espelho imbecíl.

Lá estava seu reflexo, o susto seria menor se o reflexo não estivesse tão diferente, era quase outra pessoa.
Uma versão dele bem diferente.

– Eu sei, chocou neh…
Sou um você bem melhorado não é mesmo?!

– Meu Deus…
Eu tô ficando louco.

– hahahaha… Meio tardio esse seu diagnostico não acha colega?

(Tec) a luz é apagada.

– Hora vamos…
Sério isso?
Deixa de infatilidade.
Eu já disse que odeio descontrole Bruno.

(tec) …

– Não precisa ter medo, vergonha, nem se esconder de mim.
Não tem lugar aonde você vá que eu não possa ir junto.
Exceto um, mas isso não é papo pra agora.

– Quem é você?

– Eu sou você, ou melhor, sua Razão.
É um prazer finalmente te conhecer.

Aquele sorriso encantador que exalava carisma e sedução era perigosamente tentador.
A Razão é realmente imbatível, com uma inteligência emocional excepcional ela seduz o individuo até toma-lo para si.

– Desculpa mas eu tô nervoso…
Eu tô ficando louco (💧)
É isso, eu enlouqueci de verdade.

– Porq você acha isso?

– Porq meu espelho está conversando comigo. (💧)

– Me respeite rapaz, sou seu reflexo.
Sua Razão.

– Ahhhhh… (💧)

– Ok, ok, gente como eu odeio emoções.
Bruno eu só quero ajudar, ok?
Para pra pensar um segundo.
Você está sozinho.
Tem se sentido mal, vazio, falta algo, a sensação de perda é gigantesca e você se sente culpado mesmo sem saber do que se trata ou o porq, estou errado?

– Não.

– Pois é, eu nunca estou.
Você passa horas e horas fazendo perguntas das quais não tem respostas, você se irrita com isso e por isso.
Você sente que tem algo errado, não se sente bem ou em casa, é como se fosse um estranho em um mundo perdido, estou errado?

– Não.

– Então você tem duas opções.
Me deixar te ajudar confiando em mim ou apagar a luz, se enrolar nesse edredom e dormir pra sempre.

– Não gosto dessa palavra.

– Qual palavra?

– Confiança.

– “I’ll never leave your side” isso eu prometo.

– … (💧)

– Ok, ok, desculpa…
É que você fica irresistível quando sente dor.
É difícil de explicar mas acredite, você fica.

– Sem problema, eu nem sei porq de tanto choro, eu já tô loco mesmo.

– Você não se lembra de muita coisa não é?

– Minha cabeça tá uma bagunça, e tudo dói.
Porq você quer me ajudar?

– Porq eu quero assumir você.

– Me assumir?

– Sim, literalmente.

– Hein?

– Assumir você cara.
Tomar o controle, nesse caso você vai me entregar.
Eu quero que você seja eu, não eu ser você.
Compreende?

– …

– Olha, eu nunca vou mentir pra você.
Poderia mentir agora, mas fui honesto.
Mentira é uma moeda muito sem vergonha e na troca sempre traz prejuízo ao contador porq não tem valor.
Já a verdade é tão valiosa quanto um diamante, sou muito elegante pra trabalhar com ninharia, de mim nunca irá ouvir uma só mentira.

– Não sei oq pensar, nem se gostei disso.

A Razão se levanta com um sorriso malicioso, aproxima-se do espelho e sussurra fazendo com que o som dessas palavras saiam bem próximas do ouvido dele:
“Olha pra mim… Eu nunca teria perdido ele”

(tec) apaga-se a luz.
– (💧) Meu Deus me ajude.

– Pode chorar, chorar faz bem, pode ficar no escuro…
Eu não vou a lugar algum.

Os dias vão se passando e ficar trancado no quarto torna-se impossível.
Embora a Razão se mantenha calada, o que aliás é bem pior, o olhar dela o acompanhando no quarto é de deixar qualquer um louco.

– Vó!
Vem aqui…

– Oi filho, o que foi?

– Olha ali no meu espelho.

– Hum, oq que tem?

– Oq você vê?

– Razão – patético rsrsrsrs.

– Vejo o espelho ué.

– Não vó! No reflexo, oq você vê?

– Vejo eu, vejo você, vejo sua cama, porq?

– Nada vó…

– Você tá bem filho?

– Razão – Não, não tá não vó, se tem uma coisa que ele não tá é bem.

– Estou vó.

– Ok, você vai na feira hoje?

– Acho que não…

– Razão – vai sim! Vai trazer uva pra mim, aliás “minha fruta favorita.”

– Tá bom.

Horas mais tarde…

– Bruno?
Bruno…?

– O que você quer?

– Me desculpar.

– …

– Me desculpa por te deixar assim.
Mas acredite eu quero ajudar.

– Eu não sinto coisas boas em você, você me dá até medo.

– Porq?
Porq eu sou franco? Determinado? Objetivo?Racional?
Francamente, se eu já estivesse no seu lugar você não estaria assim.
Não estaria mesmo.

– Você não mente não é?

– Nunca.

– E o que acontece comigo se você ficar no meu lugar?

– Com você?
Você será guiado pela Razão.
Você será tudo oq vê agora em sua frente.
Sem choro, sem dor, sem emoções desnecessárias.
Você será o meu melhor amigo, melhores amigos cuidam um do outro, certo?

– … Certo…

– Então, é isso que eu quero.

🐞- O diabo é bonito mesmo gente.
🌟– Não existe beleza ali Joana.
🐞- Eu pegava.
🌟– Deixe de ser irresponsável!
A gente não existe em uma conciência racional.
Somos frutos de emoções.
A Razão vai matar você assim que por os pés aqui!
🐞- Adoro um boy masoquista.
Uma pegada com força, hummmm amo.
🐜- Humm, porq não me disse isso antes Jô.
🐞- Hein… “Jô”?
Que história é essa de “Jô” Luscious, que liberdade é essa?
Deixa de ser atrevido, olha seu tamanho, olha o meu, cê ia me vará toda.
🌟– Meu Destino…
Cala a boca por favor!
Como vocês podem brincar assim!
🐞- Ai Achernar a gente já tá fodida mesmo, olha lá!
Ta na cara que o bandidão com pinta de mafioso vai chega jogando a gente no chão e metendo a mão na nossa cara colega.
Fodeu colega, fodeu! Se entrega, se entrega que pelo menos a morte é rápida.
🐜- Verdade Joana, eu não quero morrer, isso não é hora para bom humor.
🐞- Bom humor?
Quem aqui tá de bom humor….
É humor negro mesmo!
Eu não tenho mais bom humor.
Foi no sacrifício lembra?
Grande sacrifício… Agora além de virgem, vou morrer mal humorada.
É muita desgraça pra uma única Joaninha.
🌟– Ninguém vai morrer, calma.
Ele é um só e nós somos três.
🐜- …
🐞- Humm três?
🌟– Abra a boca pra dizer uma só palavra do que tá pensando e eu te lanço um feitiço mudo!
🐞- Ok, parei.
🌟– Ok, prestem atenção…

Apesar do humor sádico de Joana ela no fundo sabia o que temer.
A Razão queria destruir o resto daquele mundo, mas ela só conseguiria se o jovem a levasse até ali.
O que aliás estava prestes a acontecer.

– Bom dia.

– Bom dia… Hunnnn que pregui… Ah meu Deus! O que você tá fazendo fora do espelho!?

– Rsrsrs… Eu não estou fora do espelho, é só um truque.
Vê? Rsrsrs
Mas você gostou da sensação.

– Foi bizarro.

– Vem cá, deita aqui de novo… Rsrsrs.

– Sai da minha cama, por favor.

– Ah que isso, só você não pode ter um novo amigo? Porq…?

– Sério que você vai começar com isso de novo?
Eu não tô a fim de ficar triste.

– Hummm ok, não tá aqui quem falou.

– Vou na feira.

– Obaaa! Vou junto!

– Como? Eu é que não vou sair com o espelho nas costas.

– Quem disse que eu preciso de espelho?
Estou na sua cabeça lembra rs.

– Hunf… Emoticon squint

A Razão ficava mais forte e lhe ganhava a simpatia, mas seria ela tão forte a ponto de vencer o que no coração se escondia?

– Olha quem está ali!

– Quem?

– O cara do frango…

– Ah…

– Como assim “Ah”?
Você sempre achou ele filezão que eu sei.

– Faz tempo isso.
Pra mim é só um cara normal.

– Como assim um cara normal!?

– Um cara normal ué.

– Caramba…

– Oq?

– Nada… É que você tá sendo franco mesmo… (isso não é bom) Vou ficar quieto aqui e deixar vc curtir sua feira.

– Ok.

🐜- Você viu isso Achernar?
🌟- Vi sim, e isso é bom.
🐞- Não entendi a piada, traduz.
🌟- Não existiu qualquer interesse ou traço de emoção nele quando a Razão o tentou com algo que antigamente o interessava.
Ou seja, o sentimento ainda pode ser puro.
🐞- Puro? Puro depois de tudo aquilo?
Só se for pura dor, pura mágoa, pura tristeza neh Achernar, olha a merda de lugar que a gente vive.
🌟- Eu não sei, mas essa parece ser uma chance e é nela que a gente vai se agarrar.
Façam como combinamos, vão para suas regiões, eu vou para a entrada do lago e castar a barreira de proteção.
Que o Destino nos ajude.

E assim Achernar, Luscious e Joana foram para diferentes regiões se prepararem para o retorno do jovem em tudo aquilo.
O feitiço que Achernar realizou no dia da destruição sacrificou dela, de Joana e Luscious oq de melhor eles tinham, para que ele pudesse sair dalí sem que a destruição o tocasse.
Em partes funcionou, pois ele foi retirado a tempo, mas eles e o lugar ficaram.
O Ciclone de mentiras, covardia, humilhação, vergonha, indiferença, e toda sorte de sentimentos horríveis alcançou eles e todo aquele lugar que no começo descrevi ser tão belo e singular
Achernar, Luscious e Joana não eram mais os mesmos.
A tempestade de sentimentos ruins e o sacrifício modificaram a aparência dos três amigos, deixando apenas suas essências intactas.
Já o lugar, bom…
A Floresta de Helquim não era mais um paraíso.
Cada árvore, criatura mágica ou não, insetos, fontes, nascentes, cada sopro de vento, cada nascer e por do sol carregava a essência dele.
As palavras tem poder.
Quando Helquim lançou desejos e palavras de destruição sobre a floresta ele só se esqueceu que o lugar provinha do coração de outra pessoa.
É nele que ela se enraizava, com raizes tão profundas quanto lembranças, cada ponto de luz das estrelas caidas se tornou esferas de uma negra agonia, exalando dor e maldade davam vida a criaturas feias e contorcidas.
As árvores agora com poucas folhas e aparência retorcida, sangravam constantemente e davam frutos carmezim, contaminando com ódio quem os comia.
Cavalos em carne viva com larvas e vermes os comendo ainda em vida, cavalgavam furiosos em constante agonia.
As sereias já não cantam, elas gritam, pois as águas do norte contaminadas pelo choro quente borbulham de tão quentes, soltam-lhe a carne dos ossos em uma eterna agonia.
Borboletas carnivoras de asas rasgadas e negras comem os infantos que nascem na escuridão a procura da criança de olhos coloridos que está perdida.
Infantos são crianças indesejadas de um mundo morto, frutos do solo que um dia foi fértil, criaturinhas repulsivas e mau formadas com sua carne podre e retorcida pela mágoa, são devoradas pelas borboletas carnivoras já ao nascer.
Condenado a uma escuridão sem fim, o lugar exalava o cheiro da maldade, da dor, morte e destruição.

Se as pessoas soubessem o real poder de suas escolhas e palavras e atitudes, seriam a jóia do universo.
Poderia descrever aqui o que levou a acontecer o que vem a seguir como fruto da mentira, da indiferença e da covardia.
Mas é triste de mais, até pra mim, e olha que a Esperança é a última que morre, o que me faz aguentar bastante coisa.
Mas essa é uma lembrança que não vou usar a tinta, essa eu prefiro descartar.

– Hei! Hei! O que foi?!
O que aconteceu?

– Oq foi?
O que foi?
Você não está na minha cabeça?
Não é a poha da minha Razão? Você deveria saber.

– Calma… Não faz isso.
Isso não vai resolver nada.

– Vai sim, eu nunca mais vou sentir.

– NÃO!

O sangue purpura escorre de um dos pulsos.

– Não faz isso… Eu já amei você antes disso tudo acontecer.
Eu não quero morrer.

– Errado, eu não sei amar lembra?
Eu sou um “veado imbecíl.”
Se eu não sei, você também não sabe, afinal você é parte de mim.
Parte que acaba agora e aqui.

– NÃO!
Pelo amor de Deus pega um pano estanca isso.
Você bebeu de mais, solta isso.
Só existe um imbecíl nessa história e não é você.

– Eu não quero sentir.

– Ok, e é por isso que eu apareci.
Você está no limite, você chegou no limite.
Você acha que isso vale a pena?
Ele tirou tudo de você, mas até a vida?
Olha pra mim…
Deixa eu ajudar você, só eu estou aqui.
Eu me preocupo, eu me importo, eu que estou aqui.

– O que eu tenho que fazer?

– Apenas diga sim.

– … Sim.

E assim ele desmaiou, caindo na cama.
Quando alguém sofre uma grande decepção de proporção devastadora, oq sobra da pessoa?
Nada.
E essa era a brecha que a Razão precisava para entrar.

Horas mais tarde…

– Psiu…
Levanta…

– …

– Levanta com cuidado e não se apoie no braço direito, sua avó fez um curativo no corte.

– Minha avó… Nossa, fodeu.

– Ela limpou tudo, tirou até a roupa de cama… Veja vc mesmo.

– …

– Não me olhe assim, seja homem e assuma a sua responsabilidade.
Vá falar com ela, mas antes tome um banho.

– Ta.

Ao sair do banho se aproxima do quarto de dona Geni e chama da porta.

– Vó?

Ela está na cama assistindo TV, e sem olhar para ele responde:

– Eu não quero conversar Bruno.

Quando ele vira de costas indo para seu quarto ela completa…

– Que você nunca mais faça isso, você não sabe o quanto eu amo você.
Homem nenhum vale uma vida.
Conselho de uma velha traida e vivida.

A porta se fecha.

– Está bem?

– O que você acha…?

– Verdade neh, vc tá uma merda rsrsrs.

– …

– …

– O quê foi?
Porq está me olhando assim?

– …

– Você está me constrangendo.

– Se eu pudesse, te abraçaria agora.

A firmeza no tom de vóz, a convicção com que as palavras saiam de sua boca, a certeza no olhar, e aqueles olhos assustadoramente brilhantes, como os de um assassino o olhavam com uma lasciva que ao mesmo tempo que intimidavam, o faziam se render sem qualquer resistência.
A Razão quanto mais forte, mais mortal se torna.
Ela é assim, tem um charme e uma determinação dignas de inveja.

– Pronto para cair nos meus braços?

– …?

– Chegou a hora.
Pronto para me deixar assumir o controle?

– E como eu faço isso?

– Bom, em partes eu já estou contigo, mas…
Preciso de mais.
Eu quero tudo.

– Bom… Não restou muito para tomar aqui, mas pegue o que quiser…

O tom de rendição na vóz dele, a expressão de mágoa e dor em seu rosto afloravam os instintos mais selvagens da Razão.
Se ela pudesse estourar aquele espelho e pular em cima dele ali mesmo, aquele seria um dos momentos.

– Hey, olha pra mim.

– …

– Você não faz idéia.
Mas preciso da sua ajuda.
Neste momento seus sentimentos estão se preparando para resistirem e até atacarem se preciso for.
Você disse que não quer mais sentir toda essa dor, esse sofrimento desnecessário, isso é atraso de vida.
Você quer ser prático, objetivo, independente dos sentimentos que tanto controlam você.
Certo?

– Certo.

– Vamos ter que nos livrar deles.
Ou o mais forte deles, matando esse eu me livro fácil dos outros.

– Qual?

– O Amor.
Matando ele eu cuido sozinho dos outros, mas preciso de você para chegar ao Amor.
Só você sabe aonde ele está e como eu não consigo entrar no seu coração a gente vai anular ele.

– O Amor?

– Não, o coração.
A gente vai matar o Amor e anular o coração, entendeu?

– Entendi.
Isso parece cruel.

– E você estar assim é o que?
O que fizeram com você, o que é?
Mas ok, eu vou embora, talvez eu seja mesmo o vilão aqui.

Enquanto a Razão muito esperta vira de costas no espelho como se fosse embora, ela escuta oq esperava.

– O que eu tenho que fazer?

– Muito bem!
Tire suas roupas e proxima-se do espelho.

– Pelado?

– Sim, pelado.

– ….

– Não deve ter vergonha da Razão, tire as roupas e aproxima-se do espelho.
Farei o mesmo.

– E agora?

– Agora aproxime-se do espelho e coloque sua mão junto a minha.

– Assim?

– Isso, assim mesmo.
Me encare.

– Não consigo.

– Me encare.
Vamos, é só me olhar nos olhos.

– …

– Porque eu sinto que isso é errado? (sussurou)

– Porq você está pensando em si mesmo, e isso vai contra o Amor.
O Amor sempre coloca o outro em primeiro lugar. (sussurou)
Tente ler o que está na minha mente e depois me beije.

– Na minha mente?

– Não, é minha mente!

– Contando até 300 pra poder lembrar que se os olhos eu fechar posso ir à qualquer lugar.
Essa visita vale ouro, pó de estrela é o tesouro que por aqui em algum lugar deve estar.
A floresta mudou, a neblina chegou e o frio também, com um barco e um remo, ausente de qualquer sentimento vou me visitar, olhar as terras de que sou Rei.
Um reino que até agora evitei.
Hoje vou me visitar…
Visitar um Eu que já passou da hora de acordar.
Conforme o tempo se distorce e a dor se multiplica, cada verso, cada estrofe é uma mágoa já sentida.
A sensação de esquecer o que fez com as próprias mãos vai deitando o sentimento q luta em pé no coração.
A liberdade tem um preço que vc não quer pagar, mas compensa viver preso pelo que só pode lembrar?

– Me beije…

E assim ele se entrega a Razão, com um beijo em si mesmo ela o puxa para dentro do espelho.

De repente um frio dolorido percorre todo seu corpo, ele abre os olhos e está em pé em um barquinho, em um lago escuro e frio.
Está com roupas, roupas diferentes, mais parecidas com as que seu reflexo usava, mas não chegam a ser iguais.
Ele nota que está difere também está mais bonito, e lembra o reflexo que via constantemente, mas ainda não está igual.

– Gostou da mudança? (uma voz cansada e ofegante)

Ele olha para os lados mas está sozinho no barco com o remo nas mãos.

– Você não irá me ver pois aqui eu enfraqueço constantemente.
Usei muita energia pra entrar aqui com você.
Essa névoa que você vê em sua frente, é um feitiço de proteção, um dos artifícios mágicos e ridículos daquela estrela sem noção.
Cuido dela mais tarde.
Ao passar por essa névoa perderemos a conexão neural, mas estarei contigo o tempo todo.
Mesmo que não me escute, mesmo que não me veja, eu estarei contigo.
Ao passar por ela você esquecerá rostos, e provavelmente algumas memórias.
É um preventivo da estrela maldita caso eu pudesse assumir outra forma.
Você deve remar até a ilha e procurar aonde esconde-se o Rei dormente.

– Ok.

– Bruno! Mais uma coisa…
Eu gosto muito de você.
Agora reme.

A fria névoa passa aos poucos como um fino veludo sob a pele, levando com ela as lembranças de rostos e vozes que pudessem tornar a Razão mais forte.

Ao descer em solo firme, já livre da neblina, se depara com uma floresta negra, de onde nenhum som se quer saia.
Era um silêncio de dar medo.
Sem saber oq fazer fica em pé ali, parado, decidindo se vai ou não naquela escuridão se meter.
Ele olha para o barquinho e ele ainda está ali com o remo, pensa em voltar mas não existe nada para trás, apenas um alguém sozinho, ferido, um alguém humilhado que ele não pretende retomar, sua auto imagem derrotado é o suficiente para criar valentia nos olhos irritados que começam a brilhar.
Ele encara a floresta escura e quando da os primeiros passo, do meio das árvores sai uma melher alta, cabelos longos e azuis como um céu cheio de estrelas, o cabelo brilha, e nele um chapéu negro e pontudo com flores roxas e vermelhas, combina perfeitamente com seu vestido também longo e negro de barra surrada, com um colar de pedra azul, anéis e pulseiras aquela é Achernar a feiticeira.
Eles se olham como se estivessem estudando um ao outro, os olhos dele brilham como os de um gato acuado que fosse avançar nela no primeiro descuido.
Ela ainda no meio das árvores da um forte suspiro e avança em sua direção.

– Não precisa ter medo, não vou machucar você.

– Não estou com medo de você.

– Quer me machucar então?

– Não disse isso, só disse que não estou com medo.

– Mas também não respondeu minha pergunta.

– Não, eu não quero machucar você.

– Que bom, porq embora não se lembre, sou sua amiga.

– E o que você faz aqui?

– Eu? Eu moro aqui.
E você, o que faz aqui?

– Eu…
Eu…
Eu vim procurar uma coisa ou alguém…
Não me lembro direito.

– Está com fome?
Vamos até minha casa, não tem nenhum luxo mas é segura, ficar aqui não é bom e lá te faço chá quente e algo para comer.

– Você disse que é minha amiga…

– Em minha casa conversaremos.

Achernar é alta, uma mulher de mais de dois metros, com olhos na cor violeta quando vistos de perto refletem galáxias inteiras.
Ela despertava a curiosidade dele, pois algo nela não estava bem, ela, apesar do cabelo estrelado e olhos vivos como o espaço, parecia apagada, presa em uma prisão sem muros.
É como se ela carregasse a tristeza consigo.

– Chegamos, está é a minha casa.

Diz a feiticeira se aproximando de uma cazinha de madeira, cheia de ervas, folhas secas, e saquinhos de um escuro tecido pendurados por todos os lados.
Achernar abre a porta, o convidando para entrar e ele se impressiona quando adentra o lugar.
A casa é bem simples e humilde, tudo bonitinho e delicado, mas humilde.
Entretanto as paredes eram de impressionar.
contradizendo o exterior da casa, eram madeiras fortes e robustas, salpicadas de pequeninos pontinhos brilhantes, a luz da vela faz com que eles oscilem como se fossem pequeninas e distantes estrelas.
Achernar está com os braços crusados para trás e encostada na parede, ela estuda o comportamento adimirado do rapáz ao observar as paredes.

– Você parece impressionado.

– É tudo tão lindo!

– É tudo o que tenho, e bem simples, mas salpiquei pó de estrela nas paredes para poder me lembrar de casa.

– Casa…?

– Sim, as estrelas…

Então Achernar apaga a luz da vela e de repente tanto o chão quanto teto e paredes se tornam um lindo mural do espaço, repleto de pequenas estrelas.

– Eu já fui uma estrela, e sua melhor amiga.

– Quando? (uma lágrima surgia)

– Quando o simples era tudo o que vc tinha, era o que te bastava, o que você queria.

– Porq eu não me lembro disso?

– Porq você dexou em outro lugar suas lembranças.

– Me desculpe se não acredito, é que parece loucura pensar nisso.

Achernar ascende novamente a vela enquanto diz:

– Você já fala como ela, e perdeu a Esperança.

– Ela quem?

– A Razão.
Ela está transformando você.

– Para um sonho isso aqui tá começando a ficar bem esquisito.

– Sonho?
Você acha quê está sonhando…?
Isso não é um sonho, e se fosse não seria menos real também.

– rsrsrs… Gostei de você Achernar, você tem senso de humor.

– Não, eu não tenho.
Deixe-me te mostrar minhas memórias?

Achernar estende a mão a ele com uma expressão tranquila.
Quando ele toca as mãos dela uma explosão em sua mente de imagens e lembranças começam a aparecer.
Em algumas um terceiro rosto que Achernar não deixa aparecer.
Mas todas, todas, muito felizes, o espaço e suas infinitas galáxias, tantas estrelas que o homem não tem um número para definir, o nascimento de planetas, e de repente estrelas caindo em um solo fértil, cheio de mudinhas, como um catalizador de magia essas estrelas dando cor e vida às mudinhas que se transformavam em uma mágica floresta colorida, uma casa pequenina de onde um cheiro incrível de chocolate, pipoca e baunilha saía.

Achernar cai no chão enfraquecida, ele em choque, apenas lágrimas e uma fúria descontrolada o consumia.

– O que você fez comigo!?

– Te mostrei minhas lembranças, o que por sua vez me deixou enfraquecida.

– Essa dor, essa dor!
Eu não quero mais… Eu me lembro o que vim fazer, o que vim procurar.

– Não.
Não existe o que procurar, este é um mundo morto, fadado ao esquecimento.

– Não!
Eu preciso encontrar o Rei dormente, alguém me avisou que teria uma feiticeira, que ela iria me impedir.

– Não deveria estar aqui.
Volte por onde chegou, estas são terras de um reino perdido.
Governadas por um rei muito antigo, ao qual pesa sob os ombros um triste destino, essas terras nunca deixar.
Volte enquanto é você mesmo, enquanto não se manchou de negro, enquanto ainda podes brilhar!

– Você está mentindo pra mim, é tudo oq todos fazem, só mentem!

– Tome… Embora velha e nessas roupas de feiticeira um dia já fui estrela.
Leve o último frasco do que me ascendia feito um cometa, leve… Sei que foi isso que veio buscar.
Paz, sossego… Com o Tempo você terá.
Tudo isso serão apenas lembranças de um tempo triste, e com mais Tempo apenas lembranças bobas.
Tem o suficiente pra você viver contente, voltar a queimar como estrela cadente, até produzir luz para um amanhecer.

Achernar no chão ainda caída, estende o braço lhe oferecendi o único bem de valor que ainda tinha.
Aquela visão só aumentou ainda mais sua íra, vendo ela ali tão grande e bonita, mas ao mesmo tempo tão frágil, triste, apagada e caída, ele automáticamente ligou a lembrança de si mesmo derrotado e sem saída.

– Não!
Guarde para você.
Você não merece isso, use em si mesma, você não merece sofrer, não merece estar aqui.

– Aceite o conselho e o presente dessa velha amiga e sobrevivente das terras do Rei dormente, em troca peço que não volte mais e lembre-se de mim, quando ainda era estrela e te trazia Alegria.

Saindo da casa de Achernar ele diz:

– A Alegria morreu velha amiga, foi assassinada pela Covardia.

Sem levantar o rosto, com lágrimas molhando a face coberta por aquele cabelo brilhoso ela diz:

– Seus sentimentos são capazes de coisas incríveis por você.
Não há Medo que a Coragem não destrua.
Não há Vergonha que a Honra não apague.
Não há Dor que a Esperança não suporte.
Não há Mágoa que o Perdão não lave.
Não há Coração que com Amor não se salve.

Enquanto deixa a casa de Achernar e adentra a escura floresta sem emoções ou qualquer traço de alegria, lá de cima o Destino acompanhava tudo atentamente e entende o plano de Achernar dizendo:

– Milo tenho uma missão para você.
Quer ser heroi em uma história de amor?

Milo começa a lamber o rosto dele como se estivesse se despedindo.
O Destino com a vóz emocionada e um nó na garganta diz para o cãozinho:

– Ora vamos seu grande ciumento, não me faça chorar.
Estarei de olho em você todos os dias Milo, comporte-se bem meu amigo.
Nos vemos novamente um dia.

Com isso o Destino amarra ao pescoço de Milo a caixinha de lembranças do rapaz, para que ele leve até Achernar.
Milo desce sozinho, ao envez de correr ele galopa como se fosse um cavalinho.
Se bem que pelo tamanho está mais para um porquinho da India rsrs.
Mas ele chega naquele lugar feio, Achernar abre a porta e recebe o bichinho dizendo:

– Muito bem Milo, muito bem.
Cãozinho corajoso!
Não tenho muito a oferecer mas o que eu tiver divido com você.

Ela olha para cima agradecida pela ajuda e compreenção do Destino.
Enquanto isso na escuridão, uma sensação de medo interrompe os pensamentos furiosos do rapaz, ele para de caminhar e olha para os lados, não vê nada.
Mas a sensação de estar sendo observado não some, só aumenta.
Rochas e crateras formavam o cenário do lugar aonde ele mal reconhecia.
Árvores estranhas, nem mortas e nem vivas mas em uma agonia sem fim que de tanta dor em fúria se convertia.
O silêncio ia se transformando aos poucos em gemidos, mas ainda ninguém era visto.
Quanto mais a fundo ele ia piores iam ficando.
Até que chega em um rio, um rio muito escuro e o vapor que subia dele já era um aviso de que era muito quente.
Ele desce seguindo a margem mas quanto mais desce, mais largo o rio vai ficando, deixando a outra margem mais distante.
Ele volta e fica olhando para a água escura.

– Isso é só água, água quente, e está escura porq tudo aqui é escuro provavelmente.

Quando termina de dizer isso e ameaça por os pés dentro do rio, um forte tremor é sentido.
Gritos e choros pavorosos enchem o ar de dor e aflição.
Ele cai sentado e assustado, quando se vira para as árvores as vê levantando suas raizes do chão podre e mal cheiroso, suas raizes sangram como veias cheias de sangue ao se arrebentarem da terra.
Olhos grandes e amarelados, bocas retorcidas gritam de dor e agonia.
Elas levantam da terra e vem em sua direção.

– Isso é só um sonho, é só um sonho!
Vocês são ridículas!

Essa frase machuca mais ele do que as árvores que o ouviam.
Ele ria, mas a vontade era de chorar.
Quando então uma delas o segura com os galhos o erguendo chão.
Ela o vira para o rio, e então ele vê as ridículas árvores queimando e se afogando naquele rio de óleo quente, formando uma ponte para que ele pudesse passar.
O óleo ferve e consome em chamas cada árvore rapidamente, então mais árvores vão arrebentando suas raizes, levantando e substituindo as que vão queimando no rio de óleo quente.
Olhando para ele, ela o coloca de volta no chão que agora já está banhado de sangue e caminha em direção ao mesmo destino de suas irmãs.
A grande e triste árvore se rende as chamas dando um alto e forte grito, como se o ordenasse:

– Passe logo!

Enquanto ele corre pela ponte viva, vai observando em cada rosto a expressão de dor e agonia afogada em fogo e óleo quente que aos poucos sumia.
Já do outro lado um choro compulsivo o consome, as árvores se calam e as mortas no rio somem.

Achernar sai de casa com Milo no colo e olhando para o alto vê longe a fumaça das chamas, cobre Milo com uma camiseta preta, fazendo nela um furinho para que ele pudesse respirar e olhar pelo pequeno buraquinho.

– Milo, quero que se comporte e não saia deste barquinho, não importa o que veja, ouça ou aconteça.
Alguém virá buscar você, seja bom e companheiro.

Com essas palavras ela deixa o cãozinho escondido no barquinho.
Enrolado naquela camiseta preta com um furinho, Milo vê Achernar sumir no meio da floresta escura.
A grande e exuberante mulher chega até o local aonde as árvores se levantaram.
Ninguém mais está ali.
Ela ouve o silêncio contido das que ficaram ali em luto.
Achernar se entristece ao ver o sangue em direção ao rio.
Para cada árvore sacrificada ela tira uma mecha de seu próprio cabelo e coloca no lugar aonde viviam.
Ela faz isso em todos os buracos, em sinal de respeito com as que se foram para as que ficaram.

– Não tenho muito, mas o que tenho divido com vocês.

Achernar pode ter perdido a luz, e se tornado feiticeira, mas ela ainda tem o coração de uma estrela.
Achernar tira de sua bolsinha um frasquinho com brilho azul como seu cabelo.
Faz um circulo no chão com um pouco desse pózinho, ajoelha no centro dele, e colocando uma das mãos no chão ela começa a cantar:

– 🎼 Se o seu coração…
Vivo ainda está…
Ouça está canção…
Deixe ele chorar…🎵
É no choro que, revela-se, a verdade na emoção. 🎵
Se o seu coração está vivo,
Porq foges da emoção? 🎵
Não fique escondido,
Vendo a Razão, o Amor matar…
Volte príncipe perdido,
Venha nos salvar. 🎵

Ao erguer o braço ela diz:

– Encontre-nos.

E o circulo se desfaz, formando uma nuvem brilhante envolta dela, que perfura a escuridão do céu carregando a vóz de Achernar com a canção feita por ela.

Com a imagem das árvores na cabeça ele começa a entrar em conflito, porq elas fizeram aquilo?
Porq não o atacaram?
Ou porq não continuaram lá em suas raizes?
Estas eram perguntas que agora o atormentavam.
Cansado e já bem abatido ele chega em frente a uma caverna, uma caverna curiosamente bonita.
Depois de Achernar aquela era a segunda coisa bonita daquele lugar caótico.
Mas diferentemente da feiticeira, algo não parecia bom ali.
A caverna era cravejada de brilhantes por dentro, e do lado de fora tinham muitas pedras preciosas espalhadas pelo chão, soltas ali, como se alguém as tivesse deixado, porém as que estavam jogadas do lado de fora ascendiam como luzes de natal.
As árvores finas e de troncos lisos eram diferentes das anteriores.
O lugar tinha um silêncio mortal…
Não gemiam nem tinham reação, mas ainda tinha algo estranho ali.
O sono vai ficando mais forte e insistente, sentado no interior daquela pequena caverna ele pega nas mãos uma das pedras, um diamante rajado de vermelho, um diamante de sangue.
Pedra rara e de inestimável valor.
Olhando para ela sua visão vai ficando turva, o sono vence e ele acaba dormindo.

O som de um bebê gritando em um choro apavorante aos poucos vai se intensificando, ele abre os olhos ainda meio sonolento e percebe que não está sozinho.
Em sua frente três crianças pequenas com olhos amarelos e rostos diabolicamente enfurecidos.
Em suas testas cada uma tem uma pedra daquelas que não ascendem.
Sem mover-se ele olha para o lado e outras três crianças chutam e espancam uma criancinha menor, toda machucada e em um choro sentido ela é surrada pelas maiores.
Porém essa tem uma esmeralda brilhante.
A cor vibra de tanto que ascende.
Chutando ela para fora da caverna as crianças se unem as outras três que mais parecem monstrinhos.
O pequenino chora sentido, caido e fraquinho naquele chão sujo, enquanto os diabretes ficam olhando para o rapaz com aqueles olhos furiosos.
O pequenino olha para o rapaz e de certa forma parece o reconhecer.
Estende a mão como se lhe pedisse ajuda, mas ele nada faz.
Então um bater de asas começa a ser ouvido, muitas, muitas asas.
Olhos pequeninos e vermelhos começam a se deslocar dos troncos das finas árvores.
São borboletas, borboletas negras e de asas surradas.
Levantam voo e vão em direção ao pequeno que no chão está caido.
Em uma brutalidade sem igual elas o atacam e devoram ainda vivo.
Enquanto isso um dos diabretes faz sinal de silêncio para o rapaz, e com os otros sai correndo para o meio da floresta.
As borboletas devoram tudo, cada pedaço da criança em agonia.
Restando apenas a pedra verde que agora se misturava com as outras do lado de fora.
Assim que não resta mais um osso, musculo, ou gosta de sangue, voltam a se camuflar nas árvores.
Ainda receoso ele se levanta e olha do lado de fora, o silêncio voltou a dominar.
Se aproxima daquela esmeralda brilhante, quando a pega nas mãos percebe que algo se passa dentro dela.
Olhando mais de perto vê a si mesmo sentando escrevendo com um largo sorriso; Vê a si mesmo conversando com alguém e rindo; Vê a si mesmo com os olhos merejados achando de gliter verde as bochechas e a ponta do nariz.

Ele coloca aquela esmeralda no bolso e percebe que todas as outras brilhantes acontecem algo da mesma natureza, mas não toca em nenhuma.
Apenas some na escuridão da floresta silênciosa.

Aquela era a caverna de pedras preciosas, a mesma que foi visitada por ele um dia.
Porém agora as lembranças ganhavam vida.
As más lembranças sacrificavam as boas para sairem vivas.
Os diabretes não o atacaram por verem que ele não demonstrava emoção enquanto brutalizavam violentamente aquela criança.
Pensando assim que ele fosse tão racional quanto eles, já que brilho algum ele levava consigo.

As pessoas são eternamente responsáveis por tudo o que cativam, mas igualmente pelo que destroem.
A Razão pode não ser um crime, mas ela trás vida a Covardia que é digna de morte.

As pernas não doem, a respiração não se cança, quanto mais ele anda, mais ele pensa em qual seria o próximo horror daquele lugar sem esperança.
Ir contra a própria natureza sempre será algo dolorido, se ele não foi correndo socorrer aquele pequeno porq a imagem dele fazendo isso não parava de se repetir em sua cabeça?
E se tivesse ido lá pego ela no colo e corrido para longe?
E se tivesse agido ainda antes, avançado nas crianças más, jogado uma a uma no chão lá fora para que as borboletas as devorassem enquanto ele salvava a pequena?
Será que ele simplesmente não se importou, e se por acaso se importou porq não fez nada?
Porq essas perguntas não lhe davam sossego?
O lugar todo estava em um fúnebre silêncio mas sua cabeça pareciauma arena de gladiadores com teorias e perguntas se atacando.

Tudo é interrompido por um susto violento e repentino.
Em um segundo se dá conta de que está na beira de um precipício.
Mais um passo e ele teria caído.
A distância até o outro lado é gigante, a profundidade do abismo, aterrorizante.
Equilibrando-se na ponta dos pés tenta afastar-se cuidadosamente.
Com uma distância segura ele tenta avistar o fim do precipício, mas tudo oq vê é um vazio e escuridão.
Um pouco mais adiante vê uma ponte feita de raizes, como se ar árvores de ambos os lados tivessem unido suas raizes formando uma travessia.
Enquanto atravessa a ponte feita de gigantescas raizes ele observa que tudo vai ficando mais escuro, até o ar fica mais carregado.
Finalmente do outro lado ele da um sorriso de canto, de certa forma contente por nenhuma atrocidade ter acontecido, quando de repente escuta uma vóz grave e estridente dizer:

(🐜)- Visitando a si mesmo viajante?

Era Luscious, a enorme féra que vivia na escuridão da floresta.
De repente uma tocha de fogo é lançada aos pés dele:

– Pegue, aqui você vai precisar, pois a escuridão tende a piorar e eu quero que você me olhe bem quando aqui chegar.

Ele pega a tocha de fogo e adentra a escuridão daquele lado da floresta.
Andando poucos passos ele vê uma grande, grande, muito grande aranha.
Ergue a tocha de fogo e lá do alto os olhos dela brilham com a luz da chama.

– Boa noite, já que aqui sempre é noite.

Diz Luscious educadamente e observando com aqueles vários olhinhos o rapaz.
Então ele completa:

– É de mau tom não responder o boa noite quando cumprimentam você.

– Me desculpe, é que você é impressionante.
Boa noite.

– Muito bem, assim está melhor é obrigado pelo impressionante, mas gostava mais de mim mesmo quando era pequenino.

– Eu acho que me lembro de você, te vi nas coisas que a feiticeira me mostrou…
Era você uma formiga?

– Sim! Uma habilidosa formiga!
Diz Luscious orgulhosamente.

– E quais são as habilidades de uma formiga?
Ele pergunta com um tom de ironia.

Constrangido Luscious responde:

– Bem… Sou muito grande, mas se fosse menor você poderia ver.
Tinha a habilidade de construir coisas, resolver problemas, encontrar saídas.
Tentei arrumar melhor meu ninho sabendo que vc chegaria, achei que notaria.

– Porq eu me importaria, é o seu ninho.

– Tem Razão, porq você se importaria…
Aliás falas como ela.

Aquilo o deixa visivelmente irritado, mas Luscious é enorme, então ele apenas responde:

– Você fala como se isso fosse ruim.
Ter Razão no lugar de emoção e sentimentos faz a vida mais prática, ninguém se mete contigo, e quem se atreve só quer o mesmo quê você, então tudo é mais prático, sem emoção, sem sentimento.
Tempo é uma coisa cara de onde eu venho sabia?
Você não deve saber porq vive nesse mundo de fantasia.

– Fantasia?
Como poderia alguém tão cheio de Razão estar em um mundo de mentira, sendo que a Razão não acredita em fantasias?

Aquela pergunta o deixa ainda mais irritado.
Tentando por um fim naquele diálogo ele pergunta:

– Preciso passar e seguir adiante, você pode abrir caminho, por favor!

– Do que adianta juntar as memórias perdidas por um tornado em sua vida?
Muito foi dado para que você escapasse com vida, isso já não é o bastante?
Enchergar uma saída no meio de um furacão tirou de sua estrela o brilho, a forma e a alegria.
Fez dela uma feiticeira, prisioneira sombria dessa floresta esquecida na qual você não deveria estar.
Tirou de mim a forma e a maestria na arte de restaurar, construir e aprimorar as coisas boas da vida.
Fez de mim que um dia fui formiga, essa fera horrenda e destemida que guarda o caminho pelo qual pretende passar.
Volte! eu aviso só uma vez!

– Não! Eu preciso passar, você não entende…
Eu preciso passar!
Eu não vou voltar, se não vai me deixar passar terá que me matar, porq eu não vou voltar, não vou voltar a ser ridículo, não vou voltar a ser descartável, não vou ser pequeno!
Nunca mais!

– Eu nunca te machucaria.
Mas ouça bem, nesse lugar não tem nada para você, tudo o que existe são fragmentos que vagam na sua mente, nada disso é real ou existe nessas redondezas.
Você busca por respostas em um lugar cheio de perguntas, vazio de esperança e com uma única certeza, nada vale o que aparenta.
Seja ouro de ofir ou Diamante de sangue nada vale o quanto brilha, viajante.
O valor das coisas está na essência, escondido nas atitudes, na simplicidade, no perdão, na coragem.
Você não precisa mudar ou ser igual a ninguém para ter valor, pobre hoje é quem não notou o que você tem de valor, um universo em seu interior.

Luscious se afasta para que ele passe.
Enquanto ele caminha atormentado com o que Luscious tinha dito, a fera da o cheque mate:

– Você poderia ter salvo aquela criança.
O Bruno que eu salvei, salvaria.

A frase o atinge como uma lança.
Ele coloca a mão na boca para não fazer barulho mas as mãos então tremendo e o choro vem com tudo.
Mas a Razão é forte e orgulhosa.
Ele não se vira e continua andando com sua tocha iluminando o caminho.
Tremendo dos pés a cabeça em gemidos chora sem abrir a boca, aquilo doeu.
As lágrimas caem cheias, tão pesadas como gotas de chuva.
A Covardia é vergonhosa, por isso é a arma mais usada pela Razão contra emoções e sentimentos.
Mas a Razão é orgulhosa, ele continua andando, como se arrastasse a si mesmo pela a escuridão da floresta, tentando convencer a si próprio de que fez o que tinha que ser feito, de que foi melhor assim.
Essa é a desculpa que a Razão tem para tudo.

Enquanto a luz da tocha vai sumindo na distância daquela escuridão, Luscious diz para alguém que escondida estava ali:

– Eu feri ele, e isso me dói tanto.

É Achernar quem responde:

– Não, você feriu a Razão, feriu quem ele está se tornando.

– Mas Achernar, porq dói tanto?
Estou tão triste pelo que disse, ele saiu sem um abraço, sem uma boa lembrança de mim, apenas se fazendo de forte mas em gemidos e aos prantos.

– Chore Luscious, chorar te faz humano.

– Eu estou muito triste.
Porq as pessoas são assim Achernar?
Porq nunca são felizes com o que conseguem e sempre estão algo melhor buscando?
Eu não quero ser humano.

– Todos nós estamos.
Luscious já parou para pensar no que realmente somos?

– Guardiões de um lugar que agora está se acabando?

– Não, eu falo de algo maior.
Eu tenho emoções, você também, assim como Joana.

– Do que você está falando Achernar?

– Luscious porq não conseguimos sentir coisas ruins sobre ele ou machuca-lo, prende-lo?

– Porq isso obviamente é inconcebível!

– Mas porq?

– Porq nós o amamos!

– E porq nós o amamos?

– Não sei, mas o amo desde sempre.
É como um filho para mim.

– Assim como eu.
E se eu te dissesse que tudo o que acontece agora em algum lugar vira palavra escrita?…

– Tipo um estoria?

– Não, Luscious.
Uma história, real, com força e vida.

– Quer dizer que tem alguém me olhando?!?
Meu Destino, preciso arrumar melhor o ninho!

Achernar da uma risada como a muito não fazia.
Sentada no chão olhando para cima ela diz para Luscious:

– hahahaha você só tem tamanho Luscious, mas continua sendo por dentro a mesma simples formiga.
Sim, provavelmente estão nos olhando, mas para alguém chegar até aqui é porq gosta de você com ou sem seu ninho arrumado, não se preocupe.
Luscious, preciso da sua ajuda em algo muito, muito importante, mas para te explicar o que vou fazer e porq vou fazer é muito importante que você confie e não me questione.
Também não deve contar a Joana, ela não entenderia.

– Eu confio em você, pode sempre contar comigo.
Do que se trata?

Achernar tira de sua bolsinha a caixinha de cristal com lembranças coloridas.

– O que isso está fazendo aqui?!

E assim Achernar olhando para Luscious começa a contar o plano que de nada ele gostaria.

Continua…

 

A Floresta de Helquim – O Feitiço do Tempo (02)

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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