Conto de David Bowie escrito por Neil Gaiman

Em sua última coletânea de contos,Trigger Warning, Neil Gaiman publicou uma história cuja referência pode ter passado despercebida aos leitores que não conhecem David Bowie: “The Return of the Thin White Duke” (“O Retorno do Magro Duque Branco” em português), em clara referência à canção de Bowie “Station to Station”, em que a frase aparece como um dos versos da música.

A arte de “The Return of the thin white duke”.

 

Nessa história, conhecemos o “mito criador” de David Bowie, de forma sutil e etérea (ainda que o autor tenha chamado de ‘fan fiction’ em seu site). As referências são claras: além do verso que virou título do conto, Gaiman homenageia o cantor britânico falando que o “Duque” criava estrelas, um elemento bastante presente na obra de Bowie. Os traços do personagem, ilustrados por Yoshitaka Amano (que trabalhou em parceria com Gaiman) também não deixam dúvidas.

Apesar de ter outros romances escritos, o autor tornou-se mundialmente conhecido por sua obra Sandman, onde o personagens principal (que leva o mesmo nome da obra) é a personificação antropomórfica do Sonho, também é conhecido como Morpheus, numa referência à mitologia grega e seus irmãos, Morte, Destino, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição.

Foi nessa magnífica obra que Neil fez sua primeira homenagem ao cantor, onde o escritor inspirou-se nos traços de David Bowie para criar Lúcifer, Príncipe do Inferno:

David Bowie como Lúcifer, em Sandman.

 

Confira a seguir o grande conto traduzido ou veja o original em inglês, clicando aqui..


 

 

O Retorno do Magro Duque Branco

Eu nunca conheci David Bowie. Depois de um tempo, quase virou um jogo: eu só tinha um herói ainda restante, e era ele. O mais próximo que cheguei foi mandar uma cópia de Trigger Warning a ele, com essa historia nela e uma nota de desculpas. É uma fanfiction descarada. Você pode encontrar a historia de origem em Trigger Warning. Neil Gaiman

Eu nunca conheci David Bowie. Depois de um tempo, quase virou um jogo: eu só tinha um herói ainda restante, e era ele. O mais próximo que cheguei foi mandar uma cópia de Trigger Warning a ele, com essa história nela e uma nota de desculpas. É uma fanfiction descarada. Você pode encontrar a história de origem em Trigger Warning. Neil Gaiman

Ele era o monarca de tudo aquilo que buscou e, mesmo quando ficava na varanda do palácio à noite ouvindo relatos e ele olhou para o céu e viu amargos cardumes cintilantes e espirais de estrelas. Ele comandava os mundos. Ele tentava por tanto tempo reinar com sabedoria e bem, ser um bom monarca, mas é difícil reinar, e a sabedoria pode ser dolorosa. E é impossível, ele descobriu, se você reina, só para fazer o bem, não pode construir nada sem derrubar algo em troca, e até mesmo ele poderia não se importar com cada vida, cada sonho, cada população de cada mundo.

Pouco a pouco, momento a momento, de morte em morte, ele parou de se importar.

Ele não iria morrer. Só pessoas inferiores morrem, e ele não é inferior a ninguém.

O tempo passou. Um dia, nas masmorras, um homem com sangue no rosto olhou para o Duque e disse que ele havia se tornado um monstro. No momento seguinte, o homem não existia mais; uma nota de rodapé em um livro de história.

O Duque pensou muito sobre essa conversa nos dias seguintes, e eventualmente ele acenou com a cabeça. “O traidor estava certo”, disse ele. “Eu me tornei um monstro. Ah bem. Gostaria de saber se qualquer um de nós se propôs a serem monstros?”.

Uma vez, há muito tempo, havia amantes, mas isso foi nos primórdios do Ducado. Agora, no crepúsculo do mundo, com todos os prazeres disponíveis livremente (mas aquilo que alcançamos sem esforços, não podemos valorizar), e sem a necessidade de lidar com quaisquer problemas de sucessão (até mesmo para a noção de que outro poderia um dia suceder o Duque limitado sobre a blasfêmia) não havia mais amantes, assim como não houve desafios. Ele sentiu como se estivesse dormindo com os seus olhos abertos e seus lábios falavam, mas não havia nada que pudesse acordá-lo.

O dia depois que o Duque percebeu que havia se tornado um monstro era o Dia das Flores Estranhas, celebrado com o uso de flores trazidas de todos os mundos e todas as terras até o Palácio do Duque. Era um dia no Palácio, que cobria todo um continente, onde todos eram felizes, e em que eles deixavam de lado suas tristezas e preocupações, mas o Duque não estava feliz.

“Como você pode ser feito feliz?”, perguntou o besouro de informações no seu ombro, ali para transmitir os caprichos e desejos de seu mestre para uma centena de mundos. “Diga a palavra, vossa majestade, e impérios caíram e se reergueram para fazê-lo sorrir”. Estrelas irão inflamar Nova para o seu entretenimento.

“Talvez eu precise de um coração.”, disse o Duque.

“Terei uma centena de corações imediatamente arrancados, cortados, despedaçados e de outras formas retirados do peito de dez mil espécimes perfeitos da humanidade.”, disse o besouro informante. “Como deseja que eles sejam preparados? Devo alertar os cozinheiros ou os taxidermistas, os cirurgiões ou os escultores?”,

“Eu preciso me importar com alguma coisa.”, disse o Duque. “Preciso dar valor à vida. Preciso acordar.”.

O besouro rangeu os dentes e resmungou no ombro do Duque; ele poderia acessar a sabedoria de dez mil mundos, mas não conseguiria aconselhar seu mestre quando ele estava com aquele humor, por isso nada disse. Ele transmitiu sua preocupação com seu mestre para seus ancestrais, antigos besouros e escaravelhos de informação, que agora dormem em caixas ornamentadas em uma centena de mundos, e os escaravelhos consultando entre si com pesar, porque, na vastidão do tempo, isto já havia acontecido antes, e eles estavam preparados para lidar com aquilo.

Uma sub-rotina há muito esquecida desde a alva dos mundos foi colocada em movimento. O Duque estava realizando o ritual final do Dia das Flores Estranhas sem nenhuma expressão no seu rosto magro, um homem vendo seu mundo como ele era e não o valorizando em nada, até que uma pequena criatura alada flutuou da flor na qual estava se escondendo.

“Vossa majestade.”, ela sussurrou. “Minha senhora precisa de você. Por favor. Você é a única esperança dela,” .

“Sua senhora?”, perguntou o Duque.

“A criatura vem de fora”, clicou o besouro em seu ombro. “De um dos lugares que não reconhece a soberania do Ducado, das terras além da vida e morte, entre ser e não ser. Deve ter se escondido dentro de uma flor importada do mundo exterior. Suas palavras são uma armadilha, ou um laço. Eu devo destruí-la.” .

“Não.”, disse o Duque. “Deixe-a.”. Ele fez algo que não fazia há muitos anos, e golpeou o besouro com um dedo branco e magro. Seus olhos verdes se tornaram negros e ele rangeu os dentes em perfeito silêncio.

Ele pegou a pequena criatura entre suas mãos, e voltou até seus aposentos enquanto ela contava a ele sobre sua sábia e nobre Rainha, e sobre os gigantes, um mais lindo que o outro, e ainda maior e mais perigoso e mais monstruoso, que mantinham a sua Rainha prisioneira.

E enquanto ela falava, o Duque lembrou-se dos dias quando um rapaz das estrelas tinha chegado ao mundo para tentar a sorte (pois naquela época havia fortunas por toda parte, apenas esperando para serem descobertas); e na lembrança, ele descobriu que sua juventude foi menos distante do que ele pensava. Seu besouro de informação repousava quieto sobre seu ombro.

“Por que ela mandou você para mim?”, ele perguntou à pequena criatura. Porém, com sua tarefa concluída, ela não falaria mais, e em momentos ela desapareceu tão instantaneamente e permanentemente como uma estrela que foi extinta por ordem do Duque.

Ele adentrou seus aposentos privados, e colocou o besouro de informação desativado em sua caixa ao lado de sua cama. Eu seu estudo, seus servos o trouxeram uma longa caixa preta. Ele a abriu, e, com um toque, ativou o conselheiro mestre. Este se sacudiu, em seguida, se mexeu sobre os ombros do Duque em forma de víbora, sua cauda de serpente bifurcando a conexão neural na base do pescoço.

O Duque contou à serpente o que ele pretendia fazer.

“Isto não é sábio.”, disse o mestre conselheiro, a inteligência e conselho de cada conselheiro ducal em memória disponível para ele, após o exame de um momento de precedentes.

“Eu busco aventura, não sabedoria”, disse o Duque. O fantasma de um sorriso começou a surgir nos limites dos seus lábios; o primeiro sorriso que seus servos tinham visto desde que conseguiam se lembrar.

“Então, se você não vai se render, pegue um corcel de batalha”, disse o conselheiro. Foi um bom conselho. O Duque desativou o conselheiro mestre e ele enviou a tecla para o estábulo de corcéis. A tecla não havia sido tocada em milhares de anos: suas cordas estavam envelhecidas.

Uma vez havia seis corcéis, um para cada um dos Lordes e Senhoras da Noite. Eles eram brilhantes, lindos, imparáveis, e quando o Duque foi forçado, com pesar, a terminar a carreira de cada um dos Senhores da Noite, ele desistiu de destruir os seus cavalos, colocando-os onde não poderiam ser perigo para nenhum dos mundos.

O Duque pegou a tecla e a tocou um arpejo de abertura. O portão abriu, e um corcel negro como carvão desfilou para fora com certa graça felina. Ele ergueu sua cabeça e fitou o mundo com olhos orgulhosos.

“Aonde vamos?”, perguntou o Corcel. “Contra o que lutamos?”.

“Vamos adiante”, disse o Duque. “E contra o que vamos lutar… Bem, isso ainda vamos descobrir. “

“”Eu posso leva-lo a qualquer lugar”, disse o corcel. “ E matarei aqueles que tentarem lhe ferir”.

O Duque montou o corcel de batalha, o metal frio congelando suas coxas, e ele deu ordem para seguir em frente.

Um salto e estavam correndo pela espuma e fluxo do Subespaço: juntos eles estavam caindo através da loucura entre os mundos. O Duque riu, então, onde nenhum homem poderia ouvi-lo, enquanto eles viajavam apelo Subespaço, viajando para sempre no Subtempo (que não é contado contra os segundos de vida de uma pessoa).

“Isto parece uma armadilha, ou algo do tipo”, disse o corcel de batalha, enquanto o espaço entre as galáxias evaporava ao redor deles.

“Sim”, disse o Duque. “Estou certo disso.”.

“Eu ouvi sobre esta Rainha”, disse o corcel, “Ou algo parecido com ela. Ela vive entre vida e morte, e chama guerreiros e heróis e poetas e sonhadores para a sua destruição.”.

“Isto parece certo”, disse o Duque.

“E quando voltarmos ao tempo real, eu prevejo uma emboscada”, disse o corcel.

“Isso parece mais do que provável.”, disse o Duque, enquanto eles chegavam ao seu destino, e surgiam do Subespaço de volta a existência.

Os guardiões do palácio eram lindos como a mensageira havia avisado, e também ferozes, e eles estavam esperando.

“O que está fazendo?”, eles perguntaram, enquanto avançavam para combate. “Você sabia que estranhos são proibidos aqui? Fique conosco. Deixe-nos ama-lo. Vamos devorar você com nosso amor.”.

“Eu estou aqui para resgatar sua Rainha.”, ele contou a eles.

“Resgatar a Rainha?”, eles riram. “Ela terá a sua cabeça numa bandeja antes mesmo de vê-lo. Muitas pessoas vieram aqui para salva-la, através dos anos. Suas cabeças repousam em pratos dourados decorando o palácio. As suas serão simplesmente as mais frescas.”.

Havia homens que pareciam anjos caídos e mulheres que pareciam demônios ascendidos. Havia pessoas tão lindas que seriam tudo aquilo que o Duque sempre desejou, se tivessem sido humanas, e se aproximado dele, pele com carapaça e carne contra armadura, então eles sentiriam a frieza dele, e ele sentiria o calor deles.

“Fique conosco. Deixe-nos te amar,” eles sussurravam, e chegaram para fora com seus dentes afiados.

“Eu não acredito que seu amor ira se provar ser bom para mim,” disse o Duque. Uma das mulheres, justa de cabelo, com olhos de um peculiar azul translucido, o lembrou de alguém esquecido, de uma amante que saiu de sua vida a muito tempo atrás. Ele achou o nome dela em sua mente, e teria o dito em voz alta, para ver se ela se virava, para ver se ela o conhecia, mas o corcel saiu com suas patas, e os olhos azuis se fecharam para sempre.

O corcel de batalha se movia rápido, como uma pantera e cada um dos guardiões veio ao chão, e agonizavam.

O Duque parou ante ao palácio da rainha. Ele escorregou de seu corcel de batalha para a terra fresca.

“Aqui, vou sozinho,” ele disse. “Espere, e um dia eu voltarei.”

“Eu não acredito que você irá retornar,” disse o corcel de batalha. “Eu irei esperar até o tempo se acabar, se preciso. Mas ainda temo você.”

O Duque tocou seus lábios na cabeça preta de metal do corcel e o disse adeus. Ele caminhou para salvar a Rainha. Ele se lembrou do monstro que comandou mundos e nunca morreria, e ele sorriu, porque ele não era mais esse homem. Pela primeira vez desde sua primeira juventude ele tinha algo a perder, e descobrir isso o fez jovem novamente. O coração dele começou a bater rápido em seu peito enquanto ele andava pelo palácio vazio, e ele riu alto.

Ela estava esperando-o no lugar em que as flores morriam. Ela era tudo que ele imaginou que seria. Sua saia era simples e branca, seus ossos da bochecha eram altos e escuros, seu cabelo era longo e da cor da asa de um corvo.

“Estou aqui para te salvar,” ele disse a ela.

“Você está aqui para salvar a si mesmo,” ela o corrigiu. A voz dela era quase um sussurro, como a brisa que atingiu as flores mortas.

Ele curvou sua cabeça, mesmo ela sendo de seu tamanho.

“Três perguntas,” ela sussurrou. “Responda-as corretamente, e tudo que deseja será seu. Falhe, e sua cabeça irá ficar para sempre em uma bandeja dourada.” A pele dela era o marrom das pétalas de rosas mortas. Os olhos dela eram o dourado escuro de âmbar.

“Faça suas três perguntas,” ele disse, com a confiança que ele não sentia.

A Rainha esticou o dedo e passou a ponta dele gentilmente na bochecha do Duque. Ele não conseguia se lembrar da última vez em que alguém o tocou sem sua permissão.

“O que é maior que o universo?”, ela perguntou. “Subespaço e Subtempo,” disse o Duque. Os dois incluem o Universo, e mesmo assim tudo isso não é o Universo. Mas eu acho que você estava esperando uma resposta mais poética e menos correta. A mente, então. Nela pode ter um universo, e ainda assim imaginar coisas que nunca existiram.

A rainha não disse nada.

“Está certo? Ou está errado?”, perguntou o Duque. Naquele momento, ele desejou que pelo sussurro de seu mestre, passando pelos seus neurônios, a sabedoria acumulada dos seus conselheiros com os anos, ou até mesmo as suas informações.

“A segunda questão,” disse a Rainha. “O que é maior que um Rei?”

“Obviamente, um Duque” diz o Duque. “De todos os Reis, Papas, Chancelers, Imperatrizes, e tudo mais servem unicamente ao meu querer. Mas novamente, eu suspeito que você quer uma resposta menos real e mais imaginativa. A mente, novamente, é maior que um Rei, ou um Duque. Porque, mesmo eu sendo inferior a ninguém, ainda há aqueles que podem imaginar um mundo com alguém superior a mim. E alguém superior a esse outro, e assim por diante. Não! Espere! Eu tenho a resposta. É da Grande Árvore: Kether. A Coroa, o conceito da monarquia, é maior que qualquer Rei.”

A Rainha olhou para o Duque com seus olhos de âmbar e disse, “A última questão para você, o que você nunca pode voltar atrás?”

“Minha palavra,” disse o Duque. “Mas, agora que parei para pensar, uma vez que dou minha palavra, algumas vezes as circunstâncias mudam e as palavras mudam de formas inesperadas. De tempos em tempos, de acordo com isso, minhas palavras precisam ser modificadas de acordo com a realidade. Eu diria a morte, honestamente, se eu me achar em necessidade de alguém que antes eu precisei, eu simplesmente teria os reincorporados…”.

A Rainha parecia impaciente.

“Um beijo,” disse o Duque.

Ela assentiu.

“Ha esperança para você,” disse a Rainha “Você acha que é minha única esperança, mas, na verdade, eu sou a sua. Suas respostas estavam todas erradas de certo modo, mas a última não estava tão errada quanto as outras.”

O Duque contemplou perder sua cabeça para essa mulher, e achou o prospecto menos perturbador que ele havia esperado.

Um vento soprou através do jardim de flores mortas, e o Duque foi posto em mente de fantasmas perfumados.

“Você gostaria de saber a resposta?”, ela perguntou.

“Respostas,” ele disse. “com certeza.”

“Apenas uma resposta, e é o coração. ‘” disse a Rainha. “O coração é maior que o universo, ele pode ter piedade de tudo no universo, e o universo não pode sentir piedade. O coração é maior que um Rei, porque ele pode conhecer o Rei por quem ele é, e ainda amá-lo. E uma vez que você dá seu coração, não pode pegá-lo de volta.”

“Eu disse um beijo'” disse o Duque.

“Não estava tão errada quanto às outras respostas,” ela disse a ele. O vento soprou mais alto e selvagem, e por um momento o ar estava cheio de pétalas mortas. Então o vento se foi tão estranhamente quanto apareceu, e as pétalas quebradas vieram ao chão.

“Então, eu falhei na primeira tarefa que você me deu. Ainda não acredito que minha cabeça ficaria bem em uma bandeja dourada,” disse o Duque. “Ou em qualquer tipo de bandeja. Dê-me uma tarefa, uma missão, algo que eu possa fazer para mostrar que sou digno. Deixe-me te resgatar desse lugar.”

“Eu nunca sou aquela que precisa ser salva,” disse a Rainha. “Seus conselheiros e escaravelhos e programas estão acabados com você. Eles mandaram você aqui, assim como aqueles que vieram antes de você, tempos atrás, porque é melhor para você sumir por sua própria vontade, do que para eles te matarem enquanto você dorme. É menos perigoso.” Ela pegou a mão dele. “Venha,” ela disse. Eles andaram para longe do jardim de flores mortas, depois das fontes de luz, jorrando suas luzes no vazio, até a cidadela do som, onde vozes perfeitas esperavam a cada esquina, bufando, cantarolando, ecoando, mesmo sem alguém para cantar.

Além da cidadela era apenas névoa

“Lá,” ela lhe disse. “Nós somos o fim de tudo, onde nada existe, mas o que nós criamos, por ato de vontade ou por desespero. Aqui nesse lugar. Eu posso falar tranquilamente. Somos só nós agora.” Ela olhava em seus olhos. “Você não tem que morrer. Você pode ficar comigo. Será feliz por finalmente encontrar a felicidade, um coração, e um valor para a existência. E eu irei te amar.”

O Duque olhou para ela com um olhar faiscante de raiva. “Eu pedi para me importar. Pedi algo para me preocupar. Eu pedi por um coração.”

“E eles lhe deram tudo que você pediu. Mas você não pode ser seu monarca e ter essas coisas. Então você não pode voltar.”

“Eu… Eu pedi a eles para que isso acontecesse.”, Disse o Duque. Ele não parecia mais nervoso. A névoa a beira daquele lugar estava pálida, e ela machucava os olhos do Duque quando ele começava a olhar mais profundamente ou mais longe.

O chão começou a tremer, como se fossem passos de um gigante.

“Há algo real aqui?”, perguntou o Duque. “Algo que é permanente?”

“Tudo é real,” disse a rainha. “O gigante virá. E ele irá matá-lo, a menos que você o derrote.”

“Quantas vezes você já passou por isso?”. perguntou o Duque. “Quantas cabeças acabaram em pratos de ouro?”

“Nenhuma cabeça já acabou em um prato de ouro,” disse ela. “Eu não estou programada para mata-los. Eles batalham por mim, eles ganham por mim e eles ficam comigo até que fechem os olhos pela última vez. Eles se contentam em ficar, ou eu os faço se contentarem. Mas você… você precisa de seu descontentamento, não é?”

Ele hesitou. Em seguida, ele acenou com a cabeça.

Ela abraçou-o e o beijou, lento e suavemente. Um beijo, uma vez dado, não pode ser retirado de volta.

“E agora, eu luto contra o gigante e lhe salvo?”

“É o que acontece.”

Ele olhou para ela. Ele olhou para si próprio, em sua armadura gravada, em suas armas. “Eu não sou um covarde. Eu nunca andei para trás em uma luta. Eu não posso voltar, mas não serei feliz se eu ficar aqui com você. Então irei esperar aqui, e vou deixar com que o gigante me mate.”.

Ela olhou assustada. “Fique comigo. Fique.”

O Duque olhou para trás, além do branco predominante “O que está lá fora?”, ele perguntou. “O que há além da névoa?”

“Você fugiria?”, ela perguntou. “Você me deixaria?”

“Eu iria andar,” disse ele. “E não iria sair daqui. Mas iria caminhar em direção. Eu queria um coração. O que há do outro lado desta névoa?”

Ela balançou sua cabeça. “Além desta névoa é Malkuth: O Reino. Mas ele não existe, a menos que o faça existir. E se tornará o que você construir. Se você se atreve a caminhar através da névoa, então você irá construir um mundo novo ou você irá desistir. E você pode fazer isto. Eu não sei o que pode acontecer, apenas sei que: se você for me deixar, nunca mais irá retornar.”

Ele pode sentir mais um tremor, mas já não teria certeza se eram pisadas de um gigante. Parecia mais com a batida, batida, batida de seu coração.

E virou-se para a névoa, antes que ele pudesse mudar de ideia, e caminhou para o nada, frio e úmido contra sua pele. A cada passo dado ele se sentia cada vez menos seu corpo. Seus plugues neurais morreram, e não lhe deram mais nenhuma nova informação, até mesmo seu nome e sua reputação se perderam com ele.

Ele não tinha certeza se procurava um lugar ou construindo um. Mas ele se lembrou da pele escura e dos olhos cor de âmbar que ela tinha. Ele se lembrou das estrelas – ele decidiu que aonde ele iria haveria estrelas. Deve haver estrelas.

Ele pressionou. Ele suspeitou que estivesse com uma armadura, mas ele podia sentir a névoa no seu rosto, e em seu pescoço, e ele tremeu em sua fina capa ao ar frio da noite.

Ele tropeçou, olhando seu pé contra a calçada.

Em seguida, ele retirou-se na posição vertical e olhou para os postes de luz através da neblina. Um carro passou perto – bem perto – e desapareceu por ele, as traseiras luzes vermelhas manchavam a branca névoa.

Minha antiga casa de campo, ele pensou, afetuosamente, e assim seguiu por um momento de pura perplexidade, com a ideia de que Beckenham era o seu velho nada. Ele apenas havia se mudado para lá. Era um lugar para se usar como base. Um lugar para fugir. E certamente, essa era a questão?

Mas a idéia, de um homem fugindo (um senhor ou um Duque, talvez, ele pensou e gostei da forma como me senti na sua cabeça) pairou e enforcou-se em sua mente, como o início de uma canção.

“Eu prefiro escrever uma música a governar um mundo,” ele disse em voz alta, degustando as palavras em sua boca. Ele colocou seu violão para descansar em uma parede, colocando suas mãos no bolso de seu casado feito de duffel, e encontrou um lápis e um caderno de esbouço, e começou a escrever. Ele encontraria uma boa palavra de duas sílabas para algo em breve, pelo menos era o que ele esperava.

Ele então abriu caminho para um barzinho. Caloroso, a atmosfera que cheirava a cerveja o abraçou enquanto ele caminhava para dentro. O barulho baixo e resmungar de conversa de bar. Alguém chamou o seu nome, e ele acenou uma mão pálida a eles, apontou para o seu relógio de pulso e depois para as escadas. A fumaça de cigarro deu o ar de um fraco brilho azul. Ele tossiu, uma vez que, no fundo de seu peito, ele pedia por um cigarro.

Subir as escadas com o carpete vermelho esfarrapado, segurando seu estojo de guitarra como uma arma, qualquer coisa que tenha passado em sua cabeça, foi evaporando a cada passo enquanto ele virava a High Street. Ele parou no corredor escuro antes de abrir a porta para a sala no andar de cima do pub. O zumbido de conversa fiada e o tilintar dos copos, ele sabia que já havia um punhado de pessoas esperando e trabalhando. Alguém estava afinando um violão.

Monstro? Pensou o rapaz. Isto tem duas sílabas.

Ele remoeu a palavra em torno de sua mente várias vezes antes de decidir que ele poderia encontrar algo melhor, algo maior, algo mais apropriado para o mundo onde ele tinha a intenção de conquistar e, com apenas um momentâneo arrependimento, ele se deixou ir para sempre e caminhou para dentro.

 

Conto de David Bowie escrito por Neil Gaiman

Apenas uma carcaça vazia movida a engrenagens desconexas, que busca alívio nas palavras vãs de um desabafo doloroso.

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